A beleza por trás de quinze sambas-enredo históricos do Rio de Janeiro

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Lançado recentemente pela Editora Record, o livro “O enredo do meu samba”, de Marcelo de Mello, conta a história de quinze sambas-enredo cariocas que, segundo o subtítulo da publicação, são imortais. De fato, não é preciso ser expert no assunto para conhecer parte das canções citadas. Quem não se lembra de “É Hoje” (1982), música da União da Ilha do Governador, que dizia “é hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar”? Ou de “Explode Coração” (1993), que imortalizou o refrão “explode coração na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro, contagiando e sacudindo essa cidade”, obra do Acadêmicos do Salgueiro?

Ambas as canções estão em “O enredo do meu samba”, que destaca também as composições “Festa Para Um Rei Negro” (Salgueiro, 1971), “Os Sertões” (Em Cima da Hora, 1976), “A Criação do Mundo na Tradição Nagô” (Beija-Flor, 1978), “Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de uma Noite” (Portela, 1981), “O Teu Cabelo Não Nega (Só Dá Lalá)” (Imperatriz Leopoldinense, 1981), “Bum Bum Paticumbum Prugurundum” (Império Serrano, 1982), “Ziriguidum” (Mocidade Independente, 1985), “E Por Falar Em Saudade…” (Caprichosos de Pilares, 1985), “Kizomba, Festa da Raça” (Vila Isabel, 1988), “Festa Profana” (União da Ilha, 1989), “Liberdade, Liberdade, Abra as Asas Sobre Nós” (Imperatriz Leopoldinense, 1989) e “E Deu a Louca no Barroco” (Mangueira, 1990).

A composição que inicia o livro-reportagem é talvez a mais famosa da lista. “Aquarela Brasileira” (Império Serrano, 1964) é o capítulo mais interessante da obra, junto ao encerramento, com a canção de 1993. Ambos os episódios são retratados com riqueza de detalhes e surpreendem por conter certo entusiasmo do autor, que evita o sentimentalismo nos demais artigos. Tal falta de envolvimento pessoal é auto-explicativa quando nota-se que não há ordem de preferência ou um texto conclusivo, apenas matérias jornalísticas que não têm ligações umas com as outras e que não expõem necessariamente a opinião do autor. Os sambas-enredo seguem ordem cronológica.

O que mais chama atenção em “O enredo do meu samba” é a ênfase dada aos compositores (e parcerias) e as inúmeras curiosidades que permeiam a criação da música popular carnavalesca. Diversas histórias de bastidores, da concepção à desenvoltura pós-destaque, prendem o leitor e tornam o texto rico em referências. Martinho da Vila, Elza Soares, Dudu Nobre, Zeca Pagodinho, Ary Barroso, Jair Rodrigues, Clara Nunes, Gal Costa, Maria Bethânia, Dominguinhos, Caetano Veloso, Nara Leão, Cartola, Lupicínio Rodrigues, Leci Brandão e Emilio Santiago, além de figuras marcantes na história das Escolas de Samba do Rio de Janeiro como Neguinho da Beija-Flor, Joãozinho Trinta e Jamelão estão presentes na obra.

O autor carioca trabalha no jornal O Globo há 25 anos. Pertence ao arquivo da Agência O Globo as quinze imagens utilizadas para ilustrar cada uma das canções. Ponto negativo para a publicação. Rico em detalhes, cores e alegorias, não há a menor possibilidade de imaginar o carnaval embalado por qualquer uma das composições citadas no livro com tão pouco auxílio visual. O acesso a fotos raras e difíceis de encontrar na internet, por exemplo, poderia ter sido melhor aproveitado. De qualquer forma, “O enredo do meu samba” traz um ótimo material escrito e uma pesquisa fundamentada, interessante para qualquer leitor. Afinal, não há nenhum outro estudo tão detalhado sobre o assunto.

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