A emocionante e imperdível nova versão de “Um Bonde Chamado Desejo”

“Eles me disseram para pegar um bonde chamado Desejo, depois mudar para um chamado Cemitérios, andar seis quarteirões e descer em Campos Elíseos”, diz a personagem Blanche DuBois em uma de suas primeiras falas. É o início de um espetáculo merecedor de todos os louros. Durante quase duas horas, “Um Bonde Chamado Desejo” prova, minuto a minuto, que é um dessas peças teatrais divisoras de águas.

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(Foto: João Caldas)

“Minha irmã! Minha irmã! Deixa eu olhar para você? Mas você não olha pra mim, só depois que eu tiver tomado banho e trocado de roupa. Apague essa luz que eu não quero ser vista nesse clarão impiedoso. Parecia que você não chegaria nunca e eu nesse lugar horrível!”, queixa-se a angustiada e sonhadora protagonista. Maria Luisa Mendonça é a grande estrela de “Um Bonde Chamado Desejo”. Não há no Brasil – e talvez no mundo – uma atriz tão talentosa e bem preparada, que se encaixe na personagem como a intérprete. Sua imagem reflete a pureza, a fragilidade, o sofrimento e a loucura de Blanche, como se Maria Luisa tivesse vivenciado tudo aquilo e soubesse expressar a esperança e o desespero da heroína com cada músculo de seu corpo. Não à toa, a artista recebeu os prêmios APCA e Shell de Melhor Atriz em 2015.

Nove meses após a estreia, Juliano Cazarré substitui Eduardo Moscovis. Embora o ator estivesse excelente no papel de Stanley Kowalski, Juliano soma ao espetáculo com um personagem de grosseria mais infantil, diferente da brutalidade explícita mostrada por Eduardo. Apesar do talento indiscutível, Cazarré – 12 anos mais jovem – surpreende na interpretação de um clássico. A plateia, afinal, está acostumada a vê-lo em papéis mais populares, que causam uma rápida identificação com o público, como o inocente Adauto, de “Avenida Brasil” (2012), e o divertido MC Merlô, de “A Regra do Jogo” (2015).

Texto tradicional escrito pelo autor norte americano Tennessee Williams (1911-1983), “Um Bonde Chamado Desejo” mostra a trajetória de Blanche, que passa a morar com a irmã Stella e seu marido Stanley após perder a fazenda da família. O encontro das personalidades completamente diferentes dos cunhados, levanta a discussão sobre o inevitável embate do sonho e da realidade. “Eu te digo o que eu quero. Magia! Sim, sim, magia! Eu tento dar isso pras pessoas. Eu transfiguro as coisas para elas. Eu não digo a verdade. Eu digo o que deveria ser a verdade. E se isso é pecado, então que me condenem à danação!”, grita Blanche em outro momento. Virgínia Buckowski (Stella Kowalski), Donizeti Mazonas (Harold Mitchell) e os atores Fabrício Licursi, Fernanda Castello Branco e Matheus Martins completam o elenco.

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(Foto: Jefferson Pancieri)

O cenário assinado por André Cortez merece parte dos aplausos. No centro de um trilho em formato de círculo, há uma espécie de caixa, onde mesas e bancos preenchem o espaço, dando a sensação claustrofóbica do apartamento de Stella e Stanley. A mobília serve de apoio para todas as outras cenas, se transformando em uma simples banheira até uma sala para os jogos de pôquer. A caixa possui portas que desenham de maneira abstrata a arquitetura do cenário. Fora do trilho (que é utilizado para demonstrar de modo lúdico a chegada da personagem Blanche no bonde chamado Desejo), cinco espaços servem de camarim para os atores da companhia, com exceção de Maria Luisa Mendonça, que não sai de cena em nenhum momento. Em frente ao público – mas de forma discreta, sem tirar o foco dos acontecimentos principais -, os artistas trocam de roupa, guardam objetos cenográficos e esperam por suas próximas entradas.

Criado por Fause Haten, o figurino é sério, mas não passa despercebido. São peças que pontuam cada momento de maneira clara, sem roubar a atenção da plateia. Sensível e por diversas vezes emocionante, a iluminação assinada por Wagner Antônio merece o reconhecimento. Em determinada cena, focos de luz localizados no teto do teatro iluminam parte dos trilhos, transformando o episódio em um momento único do espetáculo. Radiohead, Amy Winehouse e Nina Simone, intérpretes das canções escolhidas pelo diretor Rafael Gomes para a trilha-sonora, caem como uma luva para a moderna, atraente e sensual nova versão de “Um Bonde Chamado Desejo”.

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(Foto: Jefferson Pancieri)

“Um Bonde Chamado Desejo” faz parte da programação comemorativa de 50 anos do Teatro TUCA (Rua Monte Alegre, 1024), em São Paulo, às sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (18h). Os ingressos custam de R$25,00 a R$70,00 e podem ser adquiridos no Ingresso Rápido. Até o dia 26 de junho. Imperdível.