Amanda Acosta: “Estar no palco é uma viagem e não consigo viver sem!”

Noite de pré-estreia. Antes de vestirem os figurinos que recriam os cabarés dos anos 50 no sul do Brasil, o elenco do musical “Vingança” recebe a imprensa. Andrea Marquee, Jonathas Joba, Leandro Luna e Sérgio Rufino dividem o espaço com o diretor André Dias e com a atriz, cantora e idealizadora do projeto Anna Toledo. Em um leve vestido estampado, Amanda Acosta aparece: “Quem está me esperando?”, pergunta sorridente. Aos 35 anos – e aparência de 15! -, a artista tem uma carreira invejável. E é sobre o espetáculo e todas as suas experiências que o Setor VIP conversou com a cantora: “Estou muito feliz!”.

Amanda e o elenco de "Vingança - O Musical"

Amanda e o elenco de “Vingança – O Musical”

A felicidade não se deve só às experiências anteriores, mas também ao atual trabalho. “Vingança” é cenicamente perfeito. Além das emocionantes composições do mestre Lupicínio Rodrigues (1914-1974), o elenco impressiona com sua voz potente e interpretação impecável. Quem conhece os espetáculos do CCBB sabe que, apesar da qualidade, a simplicidade é um lema recorrente. Em “Vingança”, tudo chama atenção: texto, cenários, figurinos, iluminação, qualidade de som, tudo colabora para um espetáculo nunca visto antes no país: “É emocionante participar de um musical nacional sobre um dos grandes cantores do Brasil”, diz Amanda.

Amanda Acosta e Leandro Luna

Amanda Acosta e Leandro Luna

Setor VIP: Na reestreia de “Vingança – O Musical” você entra substituindo a atriz Ana Carolina Machado. Qual a principal diferença em uma substituição?

Amanda Acosta: A diferença é que tem uma estrutura pronta e você tem que entender a concepção que os outros atores estão, procurar saber onde você tem liberdade de movimentação, de marcação e onde não tem. Fiz a primeira leitura da peça, mas não consegui fazer a temporada passada pois estava na novela (a nova versão de “Chiquititas”, no SBT). A Ana Carolina engravidou e estou muito feliz por retornar, desde o início sou muito apaixonada pelo espetáculo, o texto é incrível e a Anna teve sensibilidade para colocar o universo do Lupicínio criando papéis usando personagens das músicas que complementam a história com muita sabedoria. É um espetáculo que cada vez que você fala aquele texto e ouve a história, você gosta cada vez mais. Não tive dificuldade, é questão de tempo para entender uma concepção pronta. Estou focada na essência da Maria Rosa e com pessoas novas há um novo jogo e um novo ajuste. É muito legal.

Setor VIP: Conhecia bem o universo do Lupicínio?

Amanda Acosta: Sim e fiquei encantada quando ouvi a música “Volta” pela primeira vez. É de uma simplicidade dificílima. Só para os mestres mesmo. Era encantada pelo Lupicínio e me aprofundei mais. Me apaixonei pela música “Maria Rosa” que, para mim, foi um encontro. E é uma das canções da personagem, né? (sorri) É muito bom poder cantar músicas de um compositor brasileiro, um grande sábio, um alienígena! (risos) Cantando as músicas, parece simples mas, de repente, há uma curva muito bem elaborada pela melodia, pela harmonia e com aquela letra que parece fácil, mas quando você ouve fala “Meu Deus!”. Estou super feliz de estar em um musical nacional que fala de um grande compositor e cantor brasileiro.

Ouça a cantora Gal Costa interpretando a canção “Volta”, de Lupicínio Rodrigues:

Setor VIP: Muitos musicais nacionais tem falado de grandes artistas como Tim Maia, Cazuza e Elis Regina…

Amanda Acosta: É, mas de uma outra forma, porque aqui não tem a vida do Lupicínio. Os outros são biográficos e aqui, de certa forma, é a biografia das personagens das músicas dele, né?

Setor VIP: Historicamente, trazer um artista antigo e que muita gente nem conhece como o Lupicínio, para um palco popular, que abrange diversas idades e classes sociais de maneira acessível é importante?

Amanda Acosta: Muito! Grande parte da população não conhece infelizmente! Tinha que ter Música Popular Brasileira na escola. Através da música você entende um pouco da sociedade brasileira. Se você estudar, entende um pouco nosso comportamento, nosso gosto musical, entende a riqueza que é a música no Brasil. É muito triste! Se isso vai mudar um dia? Não sei. Pouco está sendo feito, mas estamos fazendo a nossa parte. Me sinto agradecida por essa história, por esse encontro, por estarmos aqui emocionando, levando um compositor brasileiro para o público. Acho essencial. Teatro é isso: se proporcionar esse encontro.

Setor VIP: Que tipo de música escuta?

Amanda Acosta: De tudo! Escuto muito fado, que adoro! Joni Mitchell, que adoro! Vários cantores brasileiros, tenho escutado muito Clementina de Jesus, muito samba canção. Música caipira, às vezes coloco. Gosto de tudo que é bom e que me toca.

Ouça “Both Sides Now”, da canadense Joni Mitchell:

Setor VIP: “Vingança – O Musical” é o primeiro espetáculo adulto nacional que faz. Esteve em musicais que vieram de fora e muitos infantis. Sente diferença nos trabalhos?

Amanda Acosta: Os musicais que vem de fora tem um padrão de canto e muitas exigências, principalmente quando diretores vem junto. Eles tem um ouvido para voz que é diferente, estão acostumados àquele tipo de cantor que é o estilo deles. Quando vem para cá, querem que você cante igual e que tenha a mesma colocação. No Brasil temos liberdade em quase todos os trabalhos, mas nos musicais americanos existe um padrão que você deve repetir e que não concordo. Sem desmerecer, temos o mesmo potencial, mas o nosso jeito, de cantar e de interpretar, sabe? É a minha opinião. Temos que ouvir de tudo: música africana, os americanos, os árabes, enfim… Mas um espetáculo como “Vingança”, faz com que a gente tenha uma liberdade de interpretação, de cantar, de sentir, de dar tempo e é muito legal. O Guilherme (Terra, diretor musical) direciona, sabe o que quer, mas dá essa liberdade.

Setor VIP: Vou relembrar alguns trabalhos seus como o musical “My Fair Lady”…

Amanda Acosta: Nossa! Incrível!

Setor VIP: Destacaria algum momento dessa experiência?

Amanda Acosta: Todos os momentos! Me lembro de entrar em cena todos os dias e pensar “Estou aproveitando cada segundo”, sabe? Aproveitei intensamente. Todas as pessoas que estavam envolvidas… (pausa) O Francarlos Reis (1941-2009), que infelizmente faleceu, mas que foi um grande mestre e uma pessoa incrível. Foi um grande encontro. Inesquecível. (emocionada) Acho que amadureci muito e me preparou, embora ache que sempre um trabalho te prepara para o próximo. Sou muito feliz por ter feito “My Fair”, por ela ter me escolhido de uma certa forma e pelo Jorge (Takla, diretor) ter obedecido ela! (risos)

Setor VIP: O público também ficou feliz com essa escolha…

Amanda Acosta: Nossa!

Setor VIP: Imagino que você tenha sentido isso.

Amanda Acosta: Muito, muito! Ouço muita gente falar. Só agradeço e sei que vivi cada minuto ali, sabe? Cada segundo! (sorri)

A abertura de “My Fair Lady” com Amanda Acosta, Daniel Boaventura e grande elenco:

Setor VIP: Sente diferença quando se apresenta em um teatro mais intimista?

Amanda Acosta: O nervosismo é o mesmo, a ansiedade é a mesma. É questão de equilíbrio de interpretação. Aqui como é mais aconchegante, você tem que tomar mais cuidado, mas acredito que quando você está com o personagem, quando você está na história tudo sai na medida. E se precisar de alguma coisa, o diretor fala “um pouco mais alto, o braço tem que ser mais aqui” (imita) “tem mil e tantos lugares e lá…” (risos) Esses ajustes são simples, a grande questão é você estar na história, na personagem, estar com o publico. Essa é a grande comunicação.

Setor VIP: Ainda fica nervosa?

Amanda Acosta: Nossa!

Setor VIP: A experiência não te ajuda?

Amanda Acosta: Trabalho a respiração e o estado de espírito. Cada um tem a sua forma de lidar com essa ansiedade e com esse nervosismo porque, de uma certa forma, criamos uma expectativa de uma aceitação. O importante é a história, vamos contar, ficar dentro e comunicar, se tem gente que gosta ou que não gosta…

Setor VIP: Não depende de você.

Amanda Acosta: É. Mas, às vezes, queremos que tenha a aceitação. Quem não quer? Que ser humano faz uma história e não quer que ela seja aceita, bem vista, tocante, emocionante? Nossa função é criar uma catarse.

Setor VIP: Você ficou nacionalmente conhecida quando entrou para o Trem da Alegria…

Amanda Acosta: É! (sorri)

Setor VIP: Apesar de ser muito nova, guarda alguma lição?

Amanda Acosta: Sim, o Trem foi uma grande escola. Aprendi a ser uma profissional. Éramos crianças, mas tudo foi feito com muito cuidado. Tivemos sorte de ter pessoas envolvidas com arte pensando na gente como crianças. Tínhamos compromissos e horários, mas a gente tinha pessoas preocupadas com tudo, com nossa alma, com nossa tranquilidade. Tinha um equilíbrio bom, aprendi o profissionalismo dos ensaios, da execução e sempre gostei muito. Sou escorpiana e sou perfeccionista. Esse contato com pessoas muito talentosas e criativas foi muito legal porque foi a minha referência: XPTO, Gringo Cardia, Patrycia Travassos…

Setor VIP: Como é atingir e marcar as pessoas com seu trabalho de forma inesquecível?

Amanda Acosta: Não sei racionalizar essa história aí (risos) Acho incrível quando as pessoas assistem uma personagem, se sentem tocadas e conversam comigo sobre ela. Essa é a minha maior realização, porque estão vendo a personagem! (sorri) Nossa! Não tenho como falar… (emocionada) Essa é a nossa grande viagem, o nosso grande barato! Não precisa de droga nenhuma! (risos) O palco é o contato imediato, a resposta imediata e estamos muito expostos, quem manda é a personagem e você está a serviço dela, não ao contrário, é muito bom e muito bonita essa resposta do público! (pensativa) Um dia, após “My Fair Lady”, um cara veio até mim e disse: “Eu tinha uma tristeza que me acompanhava e não sabia o que era. Hoje ela foi embora. Vocês me levaram para outro lugar”, e comecei a chorar. (emocionada) O que você vai falar? (pausa) Você recebe isso e devolve isso. É uma troca muito bonita. (emocionada) E eu não consigo viver sem. (sorri)

Setor VIP: Profissionalmente, algum sonho?

Amanda Acosta: Ai, não sei te dizer! Quero trabalhar com todo mundo que tem algo a dizer, que venha de dentro, que tenha alma. Acho tudo interessante. Como uma diretora minha um dia falou: “Não existe história ruim, existe história mal contada”. Todas as histórias são interessantes se você parar para pensar. Todas vão comunicar. Estamos falando do ser humano e muita gente vai se identificar. Quero sair do lugar comum. Há uns quatro anos atrás falei para o meu marido (André Fusko) escrever um texto para mim, para eu exercitar outros lugares, outros comportamentos, diferentes físicos e ele fez o “Maternidades”, onde eu interpretava quatro mulheres, uma de 17, uma de 35, uma de 50 e uma de 80 anos. Ele dirigiu e foi incrível. Precisamos nos alimentar dessas histórias, desses seres. Só porque você tem um tipo físico, você não pode fazer isso? Vá além! Infelizmente é difícil, porque o sistema te leva, mas como atriz você segura a onda e dá a volta. Temos que proporcionar esses momentos de reciclagem, de renovação, de comunicar o que você quer gritar. Muitas coisas no texto eram coisas que sinto mesmo. Odeio zoológico e uma hora a mãe grita: “Eu odeio zoológico, esses bichos presos!” (risos) era eu falando. Era muito legal. Sempre procuro, nunca estou acomodada. É a vida. A vida imita a arte, a arte imita a vida. (sorri) Nós nunca estamos acomodados na vida de uma certa forma.

Setor VIP: Gosta de viajar?

Amanda Acosta: Gosto! Amo Portugal. Lisboa, Braga… (sorri) Fizemos uma turnê de dois meses com o (Antonio) Fagundes e foi incrível. Sou descendente de portugueses. Minha mãe é portuguesa e eu amo fado, canto fado e me senti em casa. Fiquei encantada! Um lugar que eu moraria se rolasse, sabe? Se me der uma brecha, vou para lá. Eu amei. E tem umas viagens loucas que faço…

Setor VIP: Tipo?

Amanda Acosta: Chapada Diamantina, que para mim é um templo. Caminhada e trilha me renova, me faz entrar em contato comigo, com o universo e isso tem a ver com o meu trabalho. Tem relação, né? A gente tem que estar equilibrado porque se não a gente cai da cadeira.

Setor VIP: Então você é aventureira?

Amanda Acosta: Sou! (risos) Vou para o meio do mato e fico quatro dias se deixar. Quero fazer mais! Daqui a pouco meu filho está indo comigo. Já marcamos uma baladinha de acampar, ele está andando pelas pedras já! Está com quase 5 anos. Adoro esses lugares. Procuro ir para os mais tranquilos para realmente limpar, sabe? Fujo de cidade grande. Não fui para Nova York ainda mas estou com muita vontade de ir para ver os musicais e para ver a origem do negócio. Quero conhecer Paris que não conheço também porque aí eu vou para Bali…

Setor VIP: Foge?

Amanda Acosta: Fujo! (risos) É o meu jeito! (risos)

Veja trechos da primeira leitura de “Vingança – O Musical”:

“Vingança – O Musical” está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro). Quartas, quintas e sextas às 20h. Os ingressos custam de R$5,00 (meia) a R$10,00 (inteira) e podem ser encontrados no . Até 18 de abril.