Anna Muylaert aborda identidade de gênero em “Mãe Só Há Uma”

COLABORAÇÃO: Carol Thieri

(Foto: Divulgação)

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Premiada mundialmente com “Que Horas Ela Volta?” (2015), a diretora e roteirista Anna Muylaert discute sobre identidade de gênero e as diferentes posições sociais em seu novo filme, “Mãe Só Há Uma” (2016). O longa-metragem foi vendido para mais de 15 países e glorificado pelo público no Festival de Berlim, onde conquistou o prêmio de Melhor Filme pela imprensa LGBTS. A história mostra a crise de personalidade de Pierre, interpretado pelo estreante Naomi Nero (sobrinho do ator Alexandre Nero), quando descobre que foi sequestrado na maternidade pela mulher que sempre chamou de mãe (Dani Nefussi). O jovem é roubado novamente, já que por lei é obrigado a viver com sua família biológica, os pais Matheus e Glória, interpretados por Matheus Nachtergaele e, mais uma vez, por Dani Nefussi, que esperaram 17 anos para ter o filho de volta. Pierre começa a ser tratado como Felipe, seu nome de batismo, e é forçado a uma realidade a qual ele não pertence, uma família de classe média alta conservadora.

Nero, que tem uma irmã mais velha e transexual, cresceu em um ambiente preconceituoso, com crianças disseminando a homofobia que aprendiam em casa. Desde então, iniciou pesquisas para tentar entender as questões de gênero. Depois do filme, o ator percebeu que sua geração passou a se colocar e a exigir respeito com mais obstinação. Nas salas de cinema, o personagem Pierre causa empatia por sua dor, mas também gargalhadas, quando demonstra sua verdadeira personalidade. Em determinado momento da história, o garoto escolhe um vestido e, apesar de não reagirem bem, seus pais cedem à vontade para não perdê-lo novamente. Ao longo do tempo, Pierre assume com transparência o seu perfil: um estudante andrógino, que veste calcinhas, beija tanto meninas quanto meninos e toca guitarra em uma banda de rock.

(Foto: Divulgação)

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“Mãe Só Há Uma” é baseado em fatos reais. Membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Anna Muylaert faz uma livre adaptação do caso Pedrinho – o jovem Pedro Rosalino Braule Pinto, furtado em uma maternidade de Brasília em 1986 e criado por outras pessoas até sua adolescência, quando o caso ganhou repercussão nas mídias de todo país – para trazer o assunto ao seu filme. Como continuar a ser ele mesmo, agora que perdeu a noção do conceito de família? Ao mesmo tempo, o tema identidade de gênero é conduzido com sensibilidade, em cenas dramáticas, mas bem humoradas, tornando o filme intenso e agradável. Pierre encontra em seu irmão mais novo, Joca (Daniel Botelho), um meio de adequação para seu futuro. A diretora foge do rótulo de vilãs e seleciona a mesma atriz para interpretar as duas mães, uma criminosa e outra vítima. Apesar das diferenças, é fácil se colocar no lugar de ambas e perceber que as duas deixaram marcas no filho.

A moderna trilha sonora assinada por Berna Ceppas acompanha as descobertas e os conflitos de Pierre. Em meio a uma sociedade conservadora que espera que todos sigam padrões, o roteiro (que conta com a colaboração de Marcelo Caetano) nos faz enxergar esperança onde o amor e a liberdade devem prevalecer. Luciana Paes, Helena Albergaria, Lais Dias, June Dantas, René Guerra, Renan Tenca e Luciano Bortoluzzi completam o elenco. “Mãe Só Há Uma” fica em cartaz por tempo indeterminado e pode ser visto nas principais salas de cinema de cidades como Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Salvador e Rio de janeiro. Em São Paulo, o filme está em cartaz no Caixa Belas Artes. A programação pode ser conferida no site oficial do espaço.