Antonio Fagundes: “Não tenho um sonho, tenho todos!”

TRIBOS 3 - DNG

Chovia muito em São Paulo. Seria um daqueles dias comumente caóticos na cidade, se eu não estivesse a caminho de um encontro com parte do elenco do cuidadoso espetáculo “Tribos”, em cartaz no Teatro TUCA desde o ano passado. A programação começaria com a interessante Arieta Corrêa, passaria pelo talentoso Bruno Fagundes e seguiria adiante caso Antonio pudesse falar conosco. Ele chega ao teatro durante a primeira entrevista, cumprimenta Arieta e sorri timidamente. “Acordou agora?”, ela questiona. “Não dormi”, ele responde antes de desaparecer na velocidade que apareceu. “Ele é muito generoso!”, enfatiza Bruno durante a segunda parte. “Generoso a ponto de fazer uma peça que ninguém espera e isso é maravilhoso. Que venham muitas!”, finaliza. “Antonio não costuma falar com ninguém uma hora antes da peça, mas vou ver se ele pode te atender”. Há como ficar mais ansioso?

Não há no Brasil ou no mundo alguém que conheça o trabalho do ator Antonio Fagundes e não o admire. Existem centenas de motivos indiscutíveis para caracterizar o artista como um dos grandes nomes do país. Duvida? Para não ficar cansativo basta se lembrar (ou ficar sabendo) que Fagundes participou de mais de 50 produções televisivas e entre elas estão as históricas “Dancin’ Days” (1978), “Vale Tudo” (1988), “O Dono do Mundo” (1991), “A Viagem” (1994), “O Rei do Gado” (1996), “Por Amor” (1997), “Terra Nostra” (1999), “Esperança” (2002) e “Amor à Vida” (2013). Em cena, o ator dividiu seu talento com ninguém menos que Fernanda Montenegro, Raul Cortez, Regina Duarte, Tony Ramos, Susana Vieira, Mário Lago, Glória Pires, José Mayer, Eva Wilma, Gianfrancesco Guarnieri, Sônia Braga e José Wilker, além de ser dirigido por Daniel Filho, Dennis Carvalho e Ricardo Waddington em trabalhos de Manoel Carlos, Gilberto Braga e Benedito Ruy Barbosa. Ufa! Quer mais?

"Amor à Vida" (2013)

“Amor à Vida” (2013)

São quase 50 trabalhos no cinema que tiveram início com “O Auto da Compadecida” em 1969, em que Antonio interpretava o gracioso e conhecido personagem Chicó. Em mais de 40 anos, “Os Sete Gatinhos” (1980), “Besame Mucho” (1987), “Bossa Nova” (2000), “Deus é Brasileiro” (2003), “A Dona da História” (2004) e o recém lançado “Quando Eu Era Vivo” (2014) são grandes êxitos cinematográficos que dividiu com artistas como Marília Pêra, Marco Nanini e Marieta Severo. No teatro, em mais de 30 espetáculos, Antonio Fagundes ficou conhecido como um dos atores mais emblemáticos da história cultural do país. Dirigido por Bibi Ferreira, Jorge Takla, Ulysses Cruz, Flavio Rangel, Antônio Abujamra e Gerald Thomas, o artista deu vida à personagens marcantes como nas recentes “Últimas Luas” (1999), “Sete Minutos” (2002), “As Mulheres da Minha Vida” (2005), “Restos” (2008), “Vermelho” (2012) e a atual peça em cartaz “Tribos” (2013), onde Fagundes recebeu o Setor VIP para uma rápida conversa.

Vestindo parte do figurino do espetáculo, com um cachimbo detalhadamente desenhado na boca de sorriso largo e tímido, mas com ar de ator veterano, Fagundes me cumprimenta e se senta ao meu lado. Tomando cuidado para que a fumaça não incomode, o astro segura o instrumento atrás da cadeira cada vez que se dirige a mim. Falando firme e baixo, Antonio não pestanejou para responder nada. O olhar de senhor realizado e feliz é inegável. Aos 64 anos, ele tem do que se orgulhar. Em pouco mais de 10 minutos, tremi e gaguejei por estar frente à uma lenda e tentei aproveitar o tempo da melhor maneira possível. Ao se levantar, perguntou onde a entrevista sairia. Agradeceu de forma carinhosa e formal. “Foi um prazer”. Meu, é claro.

"Deus é Brasileiro" (2003)

“Deus é Brasileiro” (2003)

Apesar de muito interessante, “Tribos” está sendo bem recebida principalmente pelas sessões acessíveis às minorias com problemas visuais e auditivos. Essa ideia estava nos planos desde o início?
Não, não, nós gostamos primeiro da peça. “Tribos” é muito moderna, de dramaturgia diferente, ela vai montando… Você viu o espetáculo?

Vi.
Ela vai montando a história muito devagar, depois da terceira cena você vai entender a primeira. Outra coisa é que todos os personagens são muito fortes, mesmo o meu e o da mãe (interpretada pela atriz Eliete Cigaarini) que são personagens menores. Isso é uma coisa muito boa para o ator. Para a direção era um desafio porque esse texto sempre foi feito em arena e a gente queria fazer no palco italiano então mudamos a estrutura dele. Primeiro foi um contato digamos, teatral mesmo. (sorri) Isso que apaixonou a gente. Aí começamos a aprofundar o tema, quando a gente começou a estudar o texto, percebemos que nós estaríamos errados se a gente não tentasse abrir a possibilidade de comunicação da peça e fomos atrás de tradutores, da empresa que cede os tablets para podermos fazer a acessibilidade e acabou virando quase um movimento. A partir de agora nós pretendemos fazer essa acessibilidade em qualquer espetáculo que formos montar pelo menos uma vez por mês.

Apesar de uma vez por mês, a iniciativa das sessões acessíveis tem sido muito comentada na mídia e no meio teatral…
Acho que a gente não tem tanto deficiente auditivo para fazer todos os dias. É sempre um ruído diferente e você pode talvez prejudicar o ouvinte, fazer uma vez por mês é uma medida boa porque dá para a pessoa se programar e para ela saber que todo último sábado do mês vai ter esse espetáculo para ela. Não sei se precisa fazer todo dia, mas levar em conta isso é importante e essa talvez seja a semente boa que estamos plantando para as outras companhias.

Desde “Vermelho” o Bruno mostra-se um ator extremamente competente, mas a reação do público e da crítica é algo incerto. Como pai, houve a preocupação de ver seu filho no palco?
Jamais colocaria o meu filho em uma situação dessa se não soubesse que ele estava pronto. Seria ruim para mim e principalmente ruim para ele se ele estivesse fazendo apenas por ser meu filho, acho que a partir de “Vermelho” ele se divorciou de mim nesse sentido. (risos) Mas fico mais feliz ainda porque ganhei um excelente colega de trabalho.

Entre 1991 e 1992, a Rede Globo autorizou que trabalhasse na TV Cultura com o seriado “Mundo da Lua”. O programa formou um público…
Forma ainda, né? Porque passam duas vezes por ano! (sorri)

Como é para você saber que seu trabalho não é em vão e ajuda na formação de gerações?
Espero que não só esse! (risos) Quando você trabalha com o público infantil e com o público infanto juvenil, você deixa marcas de uma forma que você não deixa quando trabalha com o público adulto. O público adulto está mais calejado, tem mais informação, então as coisas não são tão novas. Ele pode até se modificar com um espetáculo, mas tem outras coisas na vida dele acontecendo. Criança e adolescente não, porque está no momento de descoberta e o “Mundo da Lua” tem essa linguagem moderna, sem deixar de ser infantil, sem deixar de brincar com a imaginação da criança. Não é à toa que reprisam todo ano duas ou três vezes, foi uma série muito bem cuidada, não sei quantos episódios são, mas são mais de 20, 30 episódios… Fiz um outro programa na TV Cultura que também marcou muito mas aí em uma outra faixa, chamava “É Proibido Colar”, um programa de auditório onde havia uma competição entre três escolas, mas era uma competição cultural, as escolas apresentavam balés, peças de teatro, gente cantando, gente compondo, então era bem interessante e marcou muitas pessoas porque pegava exatamente o começo da adolescência, então é muito bom! Espero não parar por aí, espero poder fazer outros programas que marquem assim.

Em algum momento da sua vida você decidiu que a atuação seria sua profissão. Se lembra de quando tomou a decisão?
Isso aconteceu quando me profissionalizei, ou seja, quando fui atrás de poder viver disso. Até então tinha feito teatro estudantil, teatro amador, teatro infantil, mas era mais um hobby, enquanto estudava eu fazia essas coisas. Com a primeira peça que fiz profissionalmente decidi que era isso que ia fazer e não me arrependi. (sorri)

Você faz teatro há muitos anos e fez peças bem diferentes ao longo da carreira. Tem saudade de algum dos seus trabalhos a ponto de querer remontá-lo?
Remontei acho que duas ou três peças… (pensativo) Foi bom ter remontado, mas a remontagem te deixa um gostinho de querer reproduzir o que era e já passou aquela época. Acho isso ruim, por mais que você faça diferente, por mais que você crie em cima, a impressão que dá é que você está dando meio passo para trás. Para o público não é assim porque se daqui a 20 anos a gente remontar essa peça, vai ser novo para muita gente que nem tinha nascido ainda, mas para nós não é, então procuro evitar. Tem peças que amei fazer e que ficaram no meu imaginário e no imaginário de quem viu, não vale a pena refazer.

Embora sua carreira seja longa e você tenha tido a possibilidade de fazer diversos papéis e trabalhar com muita gente, você tem algum sonho em montar algum espetáculo específico ou trabalhar com alguém com quem ainda não teve oportunidade?
Sempre fico preocupado quando vejo um colega meu dizer “meu sonho é fazer ‘Hamlet'” porque fico imaginando que o dia que ele fizer “Hamlet” ele vai ter que se matar porque acabou o sonho dele e ele não fará mais nada. Por causa disso não tenho um sonho, tenho 1.800! (risos) Enquanto você tem 1.800 sonhos, você tem todos. Só o (William) Shakespeare escreveu 37 peças com 20 personagens cada uma, então tenho muita coisa para fazer ainda.

Em "Tribos" com a atriz Arieta Corrêa

Em “Tribos” com a atriz Arieta Corrêa

“Tribos” está em cartaz no Teatro TUCA que localiza-se na Rua Monte Alegre, 1024 em Perdizes, São Paulo. Os ingressos custam de R$30,00 (meia) a R$70,00 (inteira). Acerte o seu relógio, pois o espetáculo começa rigorosamente no horário marcado: sextas e sábados às 21h30 e domingos às 18h. Entradas em Ingresso Rápido e na bilheteria do teatro. Mais informações em www.tribos2013.com. Imperdível!

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