Barcelos e Gissoni falam sobre carreira, preconceito e Dzi Croquettes

(Foto: Reprodução)

Nove atores, cantores e bailarinos formam o elenco do mais novo espetáculo “Dzi Croquettes”. Ciro Barcelos – integrante original do grupo e idealizador do show – e Bruno Gissoni dividem os holofotes. O primeiro como o protagonista, o segundo como uma espécie de apresentador. Poucos minutos antes de subirem ao palco para uma das últimas apresentações de 2016, os atores batem um papo rápido e exclusivo com o Setor VIP.

“Me desculpe, mas estamos super atrasados”, explica Ciro em relação aos poucos minutos disponibilizados para a conversa. Usando um vestido de paetês na cor vermelha – primeiro figurino do espetáculo – e maquiado de maneira extravagante, o artista fala rápido para fazer valer o tempo, e responde todas as perguntas com a convicção e a segurança que só a experiência é capaz de proporcionar.

Sorridente e atento, Bruno mostra que a pouca experiência – principalmente se comparado à Barcelos – o preparou para que o astro fale o que pensa, sem se preocupar com o que os outros vão achar. Vestindo apenas uma cueca preta, o ator se mostrou à vontade e extremamente confiante com seu corpo, com sua posição no espetáculo e com a postura adotada no trabalho, diferente de tudo o que fez. Até agora.

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Os números presentes no atual espetáculo foram inspirados no primeiro show do Dzi Croquettes?
Ciro Barcelos: Não, é outro espetáculo, mas com a mesma temática, mesma espirituosidade e mesmo conceito. No final, a gente abre uma janela para aquele lugar, uma lembrança, digamos. Há números que fazíamos naquele espetáculo, mas revisitados, com novas coreografias e cantados diferentemente, porque na época nós usávamos a voz de cantores, como Elis Regina. Hoje o elenco canta ao vivo.

E para a escolha dos atuais artistas, você se inspirou em seus antigos colegas?
Ciro Barcelos: Sim, me inspirei em todos! O espetáculo está dentro do mesmo universo conceitual como o Dzi é na sua origem. Toda a inspiração é a matriz.

Há algum número, peça do cenário ou do figurino que vocês destaquem como preferido?
Bruno Gissoni: Escolher um só? (pensativo) O Flamenco é incrível e a apresentação das putas também. No início, faço um apresentador e me divirto muito! (pensativo) Ah, tudo! (risos) É muito difícil escolher! Mas os melhores para mim, os que me dão mais tesão em fazer, são esses dois.

Ciro Barcelos: O momento do Cassino da Urca, com as vedetes e a Carmem Miranda é o meu número favorito. Ele remete ao Dzi original. Dentro de todo o figurino belíssimo criado pelo Claudio Tovar, acho que esse também é um grande momento.

O teatro não possui equipamentos de última geração, o que coloca o elenco em situações que precisem driblar certos imprevistos. A estrutura simples foi uma opção ou aconteceu inesperadamente?
Ciro Barcelos: Tecnologicamente falando, eu gostaria de ter equipamentos mais apurados, mas o Dzi não é para esses grandes teatros ou para a estética desses grandes musicais americanos, por exemplo. Ando na contramão. O Dzi é underground, subversivo. Isso fica bem claro no palco e no meu texto. Ele subverte por que se mantém fiel a essa linguagem. É teatro e não musical, é diferente. É teatro musical brasileiro, teatro musicado, diferente dos musicais americanos.

Essa estética aproxima o público que não teve a possibilidade de conhecer a formação clássica do Dzi Croquettes ao que o grupo era, o que é muito rico culturalmente…
Ciro Barcelos: Nós não temos patrocínio, então trabalhamos dentro do que podemos. É claro que eu adoraria… (pensativo) Acho que ao mesmo tempo tem uma coisa que conta muito: artisticamente o Dzi é muito forte. A tecnologia não existe, mas ela é derrubada e suplantada pela técnica humana, pelo talento humano que está no palco, porque são todos muito bons, o figurino é muito bom e, modéstia à parte, eu sou muito bom! (risos) Tudo que falta nos grandes musicais faz as pessoas virem e ficarem muito emocionadas. Muitas vezes o público vê e sai frio. Aqui as pessoas saem mexidas, porque o humano é muito forte, o artístico é muito forte.

Bruno Gissoni: Não tenho faculdade. A única experiência que tenho de teatro é toda de vida, de palco. Fiz teatro antes de fazer novela. O que me motiva nessa profissão é o desafio e as histórias a serem contadas, as personagens a serem vividas e o Dzi me ofereceu tudo isso. Aqui aprendi a dançar, a cantar minimamente bem… (risos) Mas pelo menos me arrisco a ter um contato mais profundo com a arte brasileira e com a sua história também. O Dzi é a faculdade que eu vivo, não é nada teórico e ao mesmo tempo é completamente.

Essa é a parte mais enriquecedora de estar nesse projeto?
Bruno Gissoni: Sim. O grande desafio é: o que vem depois do Dzi? Porque o Dzi é tão rico em todos os aspectos e esse negócio de nos desafiarmos sempre… (pensativo) O que pode ser mais desafiador que o Dzi? (pausa) Essa é a nossa nova busca, nossa nova proposta. Eu e o Ciro estamos começando a dar início a uma nova peça, porque o Dzi me enriquece muito.

Já existia uma relação entre vocês antes do Dzi?
Bruno Gissoni: Foi um encontro, na verdade. Eu sabia que o Ciro era amigo da minha família, mas eu não sabia até que ponto. Eu estava fazendo “Dança dos Famosos”, ele foi ser jurado e no backstage fui falar com ele. Disse que era fã do trabalho dele, que tinha assistido Dzi e me ofereci para fazer. Depois fui descobrir que ele era um grande amigo do meu tio, da minha mãe, da minha família toda!

Ciro Barcelos: Peguei ele no colo! (risos)

Bruno Gissoni: Me pegou no colo! (risos) Então eu entendi que era um encontro, um reencontro de vida, e senti um relacionamento antes, mas eu não sabia que existia.

Vocês sofrem algum tipo de preconceito?
Ciro Barcelos: Ainda tem gente que levanta e vai embora. Acho que a gente vive hoje uma época pior do que aquela. (sério) Naquela época a gente detectava o inimigo de longe, porque ele estava vestido de verde. Nós, as pessoas que iam ao teatro, estávamos procurando quebrar esse preconceito que só havia por parte daquele politicamente correto militar. Hoje não, hoje o inimigo está do nosso lado, é um lobo em pele de cordeiro. Apesar da “liberação sexual”, tudo virou guetos e classificações e, de certa forma, o tal do armário, que eu não sei como é lá dentro porque eu nunca estive, é hoje bem mais claustrofóbico do que o armário daquela época, se é que existia armário. Eu acho que não.

Bruno Gissoni: O preconceito que eu sofro é mais da classe artística do que do público. Sou muito rotulado. Minha carreira dentro da Rede Globo é muito rotulada por fazer personagens que são mais românticos, galãs… (pensativo) Eu nunca me coloquei nesse lugar. A emissora me colocou esse rótulo, o que não tem problema nenhum, é trabalho, mas quebrar essa forma, esse ponto de vista de dentro da classe, que é o maior preconceito… (sério) Mas é natural, não julgo, é um pré-julgamento natural. O Dzi está me ajudando muito a quebrar isso, acho que as pessoas dentro do meio acreditam mais no meu trabalho agora.

>> Com Bruno Gissoni, espetáculo “Dzi Croquettes” resgata reflexão dos anos 70

(Foto: Reprodução)

“Dzi Croquettes” está em cartaz no Teatro Augusta (Rua Augusta, 943 – Cerqueira César), em São Paulo. Quartas e quintas às 21h. As entradas custam de R$40,00 (meia) a R$80,00 (inteira) e podem ser encontrados no Compre Ingressos. O espetáculo é indicado para maiores de 14 anos e tem duração de 90 minutos. Até 15 de dezembro. Retorna em 2017. Estrela1 Estrela1