Bob Wilson surpreende com impecável espetáculo “Garrincha”

(Foto: Julian Mommert)

(Foto: Julian Mommert)

Considerado um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, Manuel dos Santos (1933-1983) é homenageado no espetáculo “Garrincha”, em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A peça é a décima produção encenada pelo diretor americano Bob Wilson no Brasil, mas a primeira com tema, produção e elenco nacionais. São 16 artistas, incluindo Bete Coelho, Lígia Cortez e Luiz Damasceno, atores convidados pelo próprio dramaturgo. Somam-se ao elenco, seis músicos, que interpretam ao vivo as canções do espetáculo, compostas em processo colaborativo. A trilha sonora possui versões de obras conhecidas como “Nervos de Aço”, de Lupicínio Rodrigues; “O Gato e o Canário”, de Pixinguinha; e “É Com Esse Que Eu Vou”, de Pedro Caetano. Além das composições, o espetáculo possui citações de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto, Mário de Andrade, entre outros.

São 15 cenas, incluindo o prólogo e o epílogo. Cada uma delas possui uma transição, na maioria das vezes arrastada e cansativa, mas necessárias para as mudanças de cenário. Idealizado por Bob Wilson e criado por Annick Lavallée-Benny, os objetos cênicos são de parar a respiração. Destaque para as cenas “Avião”, “Banheira” e “Libertando os Pássaros”. A iluminação assinada por Wilson e elaborada por John Torres é outro destaque de “Garrincha”, um espetáculo artístico-circense muito mais visual do que profundo. O texto de Darryl Pinckney é praticamente inexistente e o que é falado, é repetido diversas vezes, em uma insistente e marcante maneira de Bob Wilson se fazer presente. Pesquisar sobre a vida do jogador de futebol é fundamental antes de conferir “Garrincha”. Todas as cenas farão mais sentido se o espectador estiver com a história do protagonista na memória.

(Foto: Julian Mommert)

(Foto: Julian Mommert)

Wilson estreou no país com o espetáculo “A Vida e a Época de Joseph Stalin” (1974). 35 anos depois, retornou com “Quartett” (2009), seguido por “Dias Felizes” (2010). Em 2012, “A Última Gravação de Krapp”, “A Ópera dos Três Vinténs”, “Lulu” e “Macbeth” movimentaram o público brasileiro e determinaram a vinda das obras “A Dama do Mar” (2013) e “A Velha” (2014), a última um enorme sucesso estrelado por Willem Dafoe e Mikhail Baryshnikov. A expectativa é que a parceria entre o Sesc e a Change Performing Arts permita que “Garrincha” possa ser levado para outras cidades.

“Garrincha” é um espetáculo moderno e tecnológico. O cenário é formado por figuras geométricas e cores vivas. Os figurinos e as maquiagens parecem ter sido inspiradas nas grandes produções da companhia canadense Cirque du Soleil. Assinado por Carlos Soto, as peças utilizadas pelo elenco são deslumbrantes, com destaque para as usadas pela personagem Elza Soares, cantora e ex-mulher do campeão da Copa do Mundo de 1958 e 1962. O espetáculo teatral inédito mistura a brasilidade de Garrincha com o talento e a criatividade únicos de Bob Wilson. “Garrincha” é uma aula para quem admira um trabalho impecavelmente bem feito, com dezenas de referências importantes do Brasil e do mundo e uma significativa importância cultural.

(Foto: Julian Mommert)

(Foto: Julian Mommert)

“Garrincha” está em cartaz no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, às quintas (21h), sextas (21h), sábados (21h) e domingos (18h). Há sessão no feriado, dia 26 de maio, às 18h. Os ingressos custam de R$30,00 (meia) a R$60,00 (inteira) e podem ser encontrados no site oficial do Sesc. Há entradas no valor de R$18,00 para comerciários e matriculados no Sesc. A peça tem duração de 120 minutos e não é permitida a entrada após o início do espetáculo. Até 29 de maio.