Canções usuais e clichês compõem roteiro de “MPB – Musical Popular Brasileiro”

(Foto: João Caldas)

Uma empresa americana resolve investir na produção de um espetáculo no Brasil. A ideia é que o show, composto por canções nacionais, atraia os gringos que visitam o país. Todos os clichês fazem parte do musical: florestas, carnaval, sexo, mulheres seminuas e homens de torsos nus. À beira de um ataque de nervos, o diretor aceita o desafio de montar a peça em uma semana pelo dinheiro, mesmo que o estresse do trabalho prejudique sua saúde. A assistente de direção é atraída pela beleza física de um dos coristas e promete ao rapaz um número de destaque após levá-lo para a cama. No meio da enxurrada de esteriótipos são executadas canções usuais como “Brasil” (Cazuza) e “Asa Branca” (Luiz Gonzaga). Com direção de Jarbas Homem de Mello, “MPB – Musical Popular Brasileiro” cumpre temporada no Teatro das Artes, em São Paulo.

Com a intenção de discutir sobre “a cara da cara do Brasil”, o texto assinado por Enéas Carlos Pereira e Edu Salemi perde o sentido ao não se aprofundar minimamente em nenhum dos diversos assuntos abordados na história. “Não é não!”, solta Clara (Giulia Nadruz) quase que imperceptivelmente fazendo alusão à campanha contra o assédio sexual. A mesma personagem pede que Dino (Marcelo Góes) não se refira às passistas como “mulatas”. Dentro do mesmo tema, Jura (Érico Brás) briga com Gero (Reiner Tenente) ao ser questionado sobre a melhor forma de ser chamado. “Negro ou preto?”, pergunta. “Pelo nome”, responde antes de encerrar o assunto com uma piada. Somadas, as citações não duram cinco minutos. Em determinado momento, o personagem de Érico Brás discursa durante alguns segundos sobre a importância do envolvimento da população na política, uma das cenas mais constrangedoras do espetáculo.

Em outra situação, um dos personagens afirma que o Brasil não é só samba e destaca inúmeros outros gêneros musicais do país como a bossa nova, o chorinho, o rock, a jovem guarda, o funk e o sertanejo, uma discussão importantíssima principalmente em um espetáculo sobre música popular brasileira. Uma das bolas que bateu na trave – fazendo alusão ao único clichê não citado na montagem. Entre as mais de cinquenta canções do repertório estão um rock (“Brasil”), um número da jovem guarda (um medley de “Eu Sou Terrível” com “Se Você Pensa”), nenhum funk e nenhuma música sertaneja. Além disso, todos os artistas lembrados já tiveram suas biografias contadas ou canções utilizadas em recentes espetáculos como “Tim Maia – Vale Tudo” (2012); “Gonzagão – A Lenda” (2012); “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, O Musical” (2013); “Elis, a Musical” (2014); “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” (2014); “Gilberto Gil, Aquele Abraço – O Musical” (2016); e “Alegria Alegria” (2017), só para citar alguns.

(Foto: João Caldas)

Embora roteiros sobre bastidores de espetáculos tenham se tornado triviais desde a explosão de obras como “42nd Street” (nos cinemas em 1933 e nos palcos a partir de 1980) e de “A Chorus Line” (1975), “MPB – Musical Popular Brasileiro” poderia conquistar um destaque na programação cultural da cidade se produzido de maneira a chamar a atenção do público positivamente. Além de Jarbas Homem de Mello, a equipe criativa conta com nomes indiscutivelmente talentosos como Miguel Briamonte (direção musical), Kátia Barros (direção de movimento e coreografia) e Fabio Namatame (figurino). Talvez o figurinista mais competente da atualidade, Namatame escorregou nas escolhas para as dezenas de figurinos utilizadas no espetáculo. Todas as produções parecem criadas com materiais de baixa qualidade e as combinações de cores não são utilizadas nem em desfiles de carnaval, onde muitas misturas incomuns costumam ser perdoadas. As coreografias de Kátia Barros parecem ensaiadas para um espaço maior. É comum perceber um ator na frente do outro, abaixando os braços para que o outro consiga passar ou até tentando evitar encontros que tornariam as cenas ainda mais desastrosas.

Adriana Lessa é a protagonista Suzete, uma artista renomada escalada para protagonizar o espetáculo montado dentro de “MPB – Musical Popular Brasileiro”. A atriz substitui Danielle Winits, que saiu da peça para participar do musical “Os Produtores”, ao lado de Miguel Falabella e Marco Luque, com estreia prevista para 19 de abril, no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. Embora ótima atriz, Lessa não consegue alcançar com afinação as notas das canções mais graves, mas contorna de maneira satisfatória as músicas com tons agudos. Marcelo Góes é prejudicado pelo texto que tenta emplacar uma história de amor entre seu personagem Dino e a cantora Suzete. Sem tempo para se aprofundar em qualquer assunto, o texto atropela as cenas românticas e não permite que o público se apaixone e torça pelo casal.

Giulia Nadruz (Clara) salva o espetáculo com sua enorme presença de palco, seu perfeito tempo de comédia e sua inacreditável voz. Carismático e extremamente natural, Érico Brás (Jura) é o responsável por um dos momentos mais gostosos do musical, quando pede que o público o acompanhe cantando trechos de alguns dos mais populares sucessos da música brasileira. Apesar de possuir algumas das piadas mais sem graça do texto, Reiner Tenente (Gero) se mostra entregue, esforçado em fazer seu trabalho da melhor maneira possível e demonstra sintonia com Brás, seu principal parceiro de cena. Além de provido de uma beleza impactante, tanto o coro masculino, quanto o feminino, é afinado e o responsável por alguns dos poucos números que emocionam. Destaque para o trabalho de Leandro Naiss e Oscar Fabião.

Outro ponto positivo da obra é a banda formada pelos músicos Carol Weingrill (maestrina e teclados), Raphael Coelho (percussão), Renato Farias (trombone), João Lenhari (trompete e flugelhorn), Rodolfo Schwenger (teclados), Jorge Ervolino (guitarra e violão), Luciano Lobato (bateria), Amilcar Lobosco (saxofones, flauta e clarineta) e Peter Mesquita (contrabaixo).

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(Foto: João Caldas)

“MPB – Musical Popular Brasileiro” está em cartaz no Teatro das Artes (Av. Rebouças, 3.970 – Pinheiros), em São Paulo, quintas (21h), sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (20h). As entradas custam de R$35,00 (meia) a R$100,00 (inteira) e podem ser adquiridas através do site oficial da Tudus. “MPB – Musical Popular Brasileiro” tem duração de 105 minutos e classificação indicativa livre. Até 15 de julho. Estrela1