Carmo Dalla Vecchia: “Trabalhei muito para pagar minha escola de teatro”

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Carmo Dalla Vecchia nasceu em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul. Em 1993, se mudou para o Rio de Janeiro. A estreia na televisão aconteceu na minissérie “Engraçadinha” (1995), na Rede Globo. Nos últimos 20 anos, o artista passou pelas redes Bandeirantes, Record e SBT. Na maior emissora do Brasil, alcançou o grande público com papéis importantes em novelas como “Cobras & Lagartos” (2006), “A Favorita” (2008), “Cordel Encantado” (2011), “Joia Rara” (2013), “Império” (2014) e “A Regra do Jogo” (2015). “Ele disse que não quer falar porque não é simpático”, brinca Paula Capovilla, uma das colegas de elenco de Carmo no espetáculo “Forever Young”. Foi nos bastidores da peça que o artista recebeu o Setor VIP com exclusividade. “Estou fazendo um musical, vou dizer que estou poupando a voz”, diverte-se.

“Forever Young” é o 15º espetáculo teatral de Dalla Vecchia. Em sua experiência pelos palcos, o ator interpretou textos de José Wilker (adaptação de “Cinderela”, 1999), Gianfrancesco Guarnieri (“A Luta Secreta de Maria da Encarnação”, 2001), Jean-Baptiste Molière (“O Doente Imaginário”, 2002), Neil Simon (“O Estranho Casal”, 2009) e William Shakespeare (“Caesar”, 2015). “Me pergunta o nome do autor? Achei que não guardaria, mas guardei. Falava achando que estava errado e estava falando certo!”, brinca em relação ao nome do suíço Erik Gedeon. Segurando o celular com um microfone “para que o som fique mais claro”, Carmo se prepara para, a partir de novembro, se apresentar em cidades como Curitiba, Fortaleza, Salvador, Recife e Campinas. Em janeiro de 2017, “Forever Young” desembarca no Rio de Janeiro.

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Setor VIP: Você se inspirou em alguém para compor o seu velhinho em “Forever Young”?
Não. (pensativo) Tem algumas coisas que estão em meu repertório, de algo que já vi na minha vida, de histórias que vi na minha vida. Acho que a terceira idade tem uma inocência que, às vezes, remete a uma criança e até ao cachorro, porque o animal tem uma coisa espontânea, natural. Aquele olhar de quando você fica meio perdido me remete muito à criança, tem coisas na infância que não entendemos direito e imagino que na terceira idade chega uma hora que você não enxerga mais tão bem, que sua locomoção não é tão boa mas, ao mesmo tempo, tem uma sabedoria muito grande, então determinadas coisas não interessam mais. Carregam um pouco desse olhar meio infantil, mais inocente, que acho que a natureza tem e as crianças tem. Meu avô era um cara muito bem humorado também, como esse personagem é. Era um cara que sempre foi muito brincalhão e talvez eu tenha trazido algumas coisas dele, além de algumas coisas do meu próprio corpo. Por exemplo, já tive uma pequena lesão no joelho, o que me deixou durante muito tempo caminhando mal, então lembranças de determinadas circunstâncias como essa me ajudam a lembrar. Minha maior dificuldade não foi a parte mecânica, mas buscar essa inocência deles.

No espetáculo vocês cantam apenas rock. São canções que fazem parte da sua vida?
Conhecia todas, com exceção da música que canto, “Buona Sera, Signorina”. É um grande sucesso de uma espécie de Roberto Carlos da Itália, não me lembro o nome dele*, mas ele canta essa música em inglês. Acho que é a música de todo o repertório que nenhum de nós conhecia. Muitas delas, de certa forma, fizeram parte da trilha sonora da minha vida como “I Love Rock’n’Roll”. Inclusive, eu tinha várias versões de “Forever Young”. Sempre gostei.

*O ítalo-americano Louis Prima (1910-1978).

Como foram os ensaios do musical?
É o primeiro musical que faço e eu tinha uma grande preocupação com a questão da música, principalmente com meus dois números principais. Apareci no ensaio com as letras decoradas e, quando comecei, percebi que o problema não seriam os solos, e sim a abertura de vozes para o coro. Não sabia como fazer aquilo. Minha vontade era sair correndo. O que eu tô fazendo aqui? Como se abre voz? Como se estuda coro? Desenhava bolinhas com setas para cima e para baixo. Não tinha noção. Aí vi a Paula (Capovilla) com um pianinho e baixei o aplicativo no meu celular. Decorei onde era o ré e a partir do ré eu sabia onde era todo o resto. (risos) A tecnologia me ajudou muito. Uma semana depois, quando percebi, sabia os coros. (sorri)

E você já tocava guitarra?
Sempre fiz aulas de guitarra, de violão e de canto esporadicamente. Não de uma forma consistente, mas sempre fiz. Isso me ajudou nesse processo inteiro. Eu não iria fazer o solo de guitarra, mas acabou que eu era uma das pessoas que também sabia tocar, levantei o dedo e aí me vi nessa situação, eu que nunca tinha cantado, muito menos feito um solo de guitarra, inventei algo que era mais complexo que cantar: um solo de guitarra ao vivo.

Tocar é mais difícil que cantar para você?
Eu nunca tinha feito isso, aí o solo de guitarra ficou mais difícil que cantar, entendeu? Cantar ficou um pouco mais fácil, não que seja fácil (risos). O solo era um desafio que chegou para mim doze dias antes de estrearmos. Nesse sentido foi difícil, entendeu? Mas ao mesmo tempo, todas as pessoas do elenco do musical sempre me trataram com muito afeto, com muito carinho e me deram sempre muita segurança a respeito do que nós estávamos fazendo, Confesso que de todas as estreias que tive, foi a que me senti mais seguro, mais calmo, mais aconchegado, mais acarinhado por um elenco.

Você participou da “Dança dos Famosos” no Domingão do Faustão. Entre cantar e dançar, qual é mais difícil?
Nossa! Os dois são difíceis! Na “Dança dos Famosos” não aprendemos a dançar, aprendendemos uma coreografia, porque cada semana é um ritmo. Não posso dizer que aprendi a dançar samba em uma semana, aprendi uma coreografia de samba. No caso da música, é um aprendizado de uma forma diferente, você tem que conquistar um determinado relaxamento, uma determinada postura vocal para conseguir emitir aquilo que está ali, acho que é uma conquista maior. Na “Dança”, se você me chamar para ir em uma gafieira, não vou saber fazer nada. É uma coreografia que aprendi para fazer lá. E lá eu tinha que representar aquilo muito bem, essa é basicamente a diferença, mas era muito difícil porque tem uma característica do teatro que é ao vivo, mas na TV para milhões de pessoas. Confesso que até hoje quando escuto aquelas baquetas da “Dança dos Famosos”, fico muito nervoso. Não gosto nem de assistir de tão nervoso que fico. Era uma competição que acabamos levando à sério e quanto mais você segue, menos você quer sair, porque se torna um desafio e algo que você vai conquistando durante o tempo. Era muito gostoso. Tenho recordações muito gostosas daquela época.

Quando você se mudou do Rio Grande Sul para o Rio de Janeiro, foi especificamente para estudar na Casa das Artes de Laranjeiras?
Exatamente. Cheguei no Rio de Janeiro em uma sexta e na segunda-feira começavam as aulas.

Sofreu preconceito na área por ser modelo?
Não sofri preconceito porque quando a Rede Globo me chamou para fazer a Oficina de Atores, eu já estava fazendo CAL, então fui pelo viés da escola de teatro, não foram em uma agência de modelos procurar. E, na verdade, sou um modelo que não deu certo, né? Eu queria ser modelo, não queria ser ator, só que não dei certo como modelo e tive que ser ator. (risos) Sou de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. No interior de Minas Gerais, por exemplo, você vai em uma cidade chamada Muriaé e muitas vezes as pessoas conhecem o mundo inteiro. O interior do Rio Grande do Sul é um lugar em que normalmente as pessoas viajam muito pouco, é um povo que não tem tanto esse hábito de viajar. É diferente de alguns outros estados. Para mim foi muito difícil. Não conhecia ninguém que morava no Rio de Janeiro e ninguém que morava em São Paulo. No interior do Rio Grande do Sul existe uma faculdade de Artes Cênicas e quando a pessoa se forma, faz o quê? Que mercado existe? Se você quer ser ator, você tem que ir embora e sair da sua casa quando se é muito jovem é uma ideia meio… (sério) solitária. Não esqueço da primeira vez que saí de Santa Maria, quando peguei o ônibus que levava 24 horas até o Rio de Janeiro… eu era um… (emotivo) cara, era uma mudança radical na minha história querer ser ator, sair de lá, ir para o Rio de Janeiro por uma carreira que você não sabe se vai acontecer. Acho que o fato de eu ter vindo de muito longe… (pausa) Eu disse “vou estudar”. Sempre me sustentei. Trabalhava como vendedor para pagar minha escola de teatro. De certa forma, me ajudou muito porque percebi que essa grande energia que tive que mover na minha vida para querer, para realizar um sonho, acompanha até hoje as minhas realizações. Muitas vezes via pessoas com mais facilidade do que eu de conseguir determinadas coisas, que não se dedicavam tanto porque era fácil. Como para mim era muito difícil, eu tinha duas opções: ou dava certo ou eu tinha que voltar. E voltar eu não queria. (sério) Quando morei na Argentina, conheci uma expressão que eles usavam e eu achava ótima: “si o si”. Sim ou sim. Então não tinha como não dar certo. Acho que isso fez com que eu tivesse uma energia, que eu promovesse ações na minha vida que fizeram com que minha carreira desse certo e com que eu pudesse sobreviver a partir dela. Sem dúvida nenhuma, esse grande passo, essa grande distância, essa energia toda, esse dínamo tão pesado que tive que manter para sair do interior do Rio Grande do Sul, procurar uma cidade tão distante, onde eu não conhecia ninguém e atrás de um sonho, fez com que a energia contida em mim para a realização de sonhos fosse maior do que as pessoas que estavam estudando na CAL do meu lado, por exemplo, que moravam com os pais, tinham a roupa lavada e não precisavam trabalhar.

De onde surgiu a ideia de se tornar ator? Se lembra do que te chamou atenção?
Não lembro, mas sei que desde criança, uma prima minha chamada Evelyn ficava imitando minhas feições e me dizia que eu tinha que ser ator. (risos) Acho que o ator é uma pessoa que tem uma necessidade muito grande de aplauso e do afeto alheio. (sério) Pela minha história afetiva, tive essa necessidade de que o outro gostasse de mim. Sou budista há 20 anos e, através da minha prática, consegui transformar essa realidade e sair desse lugar para ser a pessoa que começa a ter ideias e quer transmitir pensamentos para as pessoas que possam levar à evolução delas e o meu também.

Destacaria algum trabalho como o seu preferido?
Geralmente o último. Não tenho apego por coisas que fiz, não. Para mim o que interessa é o presente. Isso tem muito a ver com a minha prática também. Quer saber como foi o seu passado? Olhe para o seu presente. O presente é consequência das causas que você criou no seu passado. (empolgado) Quer saber como vai ser o seu futuro? Olhe para o seu presente. No presente estão as causas que você vai criar para construir o seu futuro. O que interessa é o que está acontecendo agora!

Você gosta de viajar?
Gosto. Gosto de ter a chance de fazer amigos e de conhecer costumes diferentes, até para poder olhar para o meu país com olhar mais positivamente crítico. Você só pode pensar se poderia ser melhor ou pior, a partir do momento que você viu outro lugar que é diferente do seu. Se não, você fica sem critério. Viajar faz com que você dê valor a vários aspectos e critique tentando ver o que poderia fazer para melhorar. Viajar é interessantíssimo.

Quais são os seus lugares favoritos no Rio Grande do Sul?
Acho que um dos melhores lugares é Gramado e Canela. É o Rio Grande do Sul para exportação, a imagem idílica que as pessoas tem e acho um lugar realmente muito interessante. É a questão climática do Rio Grande do Sul preservada dentro de hotéis com calefação, coisa que não é a realidade no interior. Os Pampas Gaúchos também são muito bonitos!

Você viveu muito tempo na Argentina por conta das gravações da novela “Chiquititas”. Como foi a experiência?
É uma pena a distância que brasileiros e argentinos têm. Somos irmãos, moramos ao lado um do outro e a nossa relação é muito pequena. Nós, por exemplo, não ouvimos música argentina. Sabemos mais ou menos quem é Fito Paez e olhe lá! Você vai ao shopping center na Argentina e está tocando Caetano Veloso. Seria tão interessante se nós pudéssemos consumir um pouco mais a cultura deles também, só que nós somos muito grandes, temos muita cultura por todos os lugares. Quando estive na Argentina, não tive a chance de conhecer, porque gravávamos “Chiquititas” e não tínhamos tempo para nada, era muito puxado gravar a novela, uma realidade bem difícil. Não viajei quando morava na Argentina, conheci apenas Buenos Aires, que acho uma cidade linda, muito gostosa e tem uma gastronomia muito bacana! É uma pena que os dois países sejam tão distantes…

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(Foto: Divulgação)

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“Forever Young” está em cartaz no Teatro Fecomercio (Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista), em São Paulo, às sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (15h e 18h). As entradas custam de R$ 25,00 (meia) a R$ 100,00 (inteira) e podem ser encontradas no site oficial do Compre Ingressos. O espetáculo tem duração de 90 minutos e classificação indicativa para maiores de 10 anos. Até 30 de outubro.