Celine Dion: “René sempre esteve comigo e isso não mudará”

Dia 23 de fevereiro de 2016. Ingressos esgotados. Mais de quatro mil pessoas esperam em silêncio. As luzes se apagam. “Entendi que minha carreira era de certa forma sua obra-prima, sua música, sua sinfonia. A ideia de deixá-la inacabada o teria machucado profundamente. Percebi que se ele algum dia nos deixasse, eu deveria continuar sem ele, por ele”. Imagens da infância, da adolescência, da banda “Les Baronets”, do casamento e da família de René Angélil são projetadas no telão. “Obrigada e tenham uma ótima noite”, ouve-se nas caixas de som em sua voz. Discretamente as cortinas se abrem. Celine Dion está parada ao centro, toda de preto, e é aplaudida de pé.

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(Foto: Denise Truscello)

No dia 14 de janeiro, dois dias antes de completar 74 anos, René faleceu. O empresário lutava contra um câncer na garganta desde 1998. No início dos anos 80, após ouvir a fita demo de Celine, Angélil hipotecou sua casa para produzir o seu primeiro disco, “La Voix du Bon Dieu” (1981). Dion tinha apenas 13 anos. No dia 17 de dezembro de 1994, o casal se une em uma celebração digna da realeza. René-Charles Dion Angélil e os gêmeos Eddy e Nelson são frutos do relacionamento que durou quase 30 anos. As duas últimas apresentações da temporada de Celine Dion em Las Vegas foram canceladas. Dois dias depois, seu irmão Daniel também perderia a batalha contra a mesma doença.

A canção escolhida para o retorno é “With One More Look at You”, conhecida na voz de Barbra Streisand, e suplica por “te ver mais uma vez”. “Ensaiei essa canção em meu closet e ficou muito melhor do que isso”, confessa enquanto seca suas lágrimas e suspira diversas vezes, tentando controlar a emoção. “Durante toda a minha vida só tive olhos para o meu marido, que esteve ao meu lado noite após noite. As pessoas achavam que eu cantava olhando para ele, o que não é verdade. Para vê-lo bastava eu fechar os olhos e eu o enxergava estando sentado na plateia, no balcão, na coxia ou em casa cuidando das crianças. Ele sempre esteve no palco comigo e nada mudará isso nunca”, afirma emocionada durante seu discurso de abertura.

“Confiava tanto em René que nunca tive a chance de me preocupar com nada, agora questiono a mim mesma. Será que devo deixar as crianças brincarem com esses brinquedos? Essa música está muito rápida? Essa música está muito devagar? Estou falando muito?”, brinca esboçando um sorriso discreto pela primeira vez. “É maravilhoso dizer que, mesmo ele não estando fisicamente comigo, ele está mais presente do que nunca. René era meu melhor crítico. Ele nunca dizia o que eu queria ouvir, ele dizia o que eu precisava ouvir. Noite após noite, quando voltávamos para casa após um show e ele ficava em silêncio, eu sabia que ele estava pensando em como me dizer algo sem machucar o meu ego de artista, mas tinham coisas que ele precisava dizer para o meu crescimento profissional, sempre da forma mais gentil. René foi o único homem da minha vida e todos os dias ele fazia com que eu me sentisse em nosso primeiro encontro. Isso não é incrível?”, conta visivelmente abalada.

“Nós somos um e nada mudou. Seremos sempre um. Posso não ouvir mais sua voz, mas penso nele e converso com ele o tempo todo. Sinto e sei que ele me ouve. De um jeito ou de outro, sei que ele me mandará um sinal mostrando ou não sua aprovação. E agora, consigo senti-lo me dizendo para parar de falar e começar a cantar”, diz arrancando sorrisos e aplausos do público. “Muito obrigada por estarem comigo essa noite”, agradece antes de fazer uma declaração de amor em francês para René. “E se vocês não se importarem, vamos voltar no tempo e dar início ao show!”, finaliza antes do grande sucesso “Where Does My Heart Beat Now”.

Em 2002, Celine Dion anunciou sua residência em Las Vegas. Seriam 600 shows: cinco apresentações por semana, durante três anos. O espetáculo “A New Day…” estreou no The Colosseum, no Caesars Palace, no dia 25 de março de 2003. O teatro que custou por volta de 70 milhões de dólares foi reformado para recebê-la e a modernização custou mais de 90 milhões de dólares. A temporada foi prorrogada e terminou em dezembro de 2007. A artista lucrou mais de 400 milhões de dólares e entreteve mais de três milhões de pessoas com suas maiores canções, como “Because You Loved Me”, “It’s All Coming Back To Me Now” e “The Power of Love”, músicas executadas durante o primeiro bloco da apresentação. No dia 15 de março de 2011, a cantora retornou aos palcos com o espetáculo “Celine”, cancelado sem previsão de retorno em agosto de 2014, para cuidar da saúde de René. A pedido do marido, Dion voltou aos palcos em 2015, tendo a residência interrompida mais uma vez após a tragédia familiar.

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(Foto: Denise Truscello)

Cantando “(If You Can’t Sing It) You’ll Have to Swing It (Mr. Paganini)”, de Ella Fitzgerald, usando um vestido amarelo, com as cortinas vermelhas fechadas e um piano preto na boca de cena, Celine Dion usa todo o seu poder de sedução para transformar o espaço em um cabaré. “Vocês sabem que sempre gosto de incluir músicas francesas no show?”, provoca antes de “Quand ça Balance”, de Michel Legrand. “Como toda mãe, tenho orgulho em mostrar meus filhos, e acho que tenho a música perfeita para isso. Imaginem essa tela como o maior iPad que vocês já viram na vida”, brinca antes de mostrar as crianças durante “The First Time Ever I Saw Your Face”, de Ewan MacColl. Acompanhada por uma orquestra de 30 músicos, a artista interpreta a emocionante “Beauty and the Beast”, canção tema da clássica animação “A Bela e a Fera” (1991).

“Nos últimos anos tive o imenso prazer de cantar ao lado de grandes artistas como os Bee Gees, Barbra Streisand, Luciano Pavarotti, Andrea Bocelli e muitos outros. Eu sei, é maravilhoso!”, brinca quando é interrompida por uma chuva de aplausos. “Essa noite tenho o prazer de mostrar para vocês um dos momentos mais especiais”, anuncia antes de deixar o palco. No telão, Celine Dion e Elvis Presley dividem os vocais em uma apresentação de “If I Can Dream” para o American Idol. O número criado em 2007, mescla as imagens da artista com uma apresentação de 1968.

Com um vestindo brilhante, levemente rosado, Celine surge no meio do público. O caminho até o palco dura mais do que a canção “Immortality”. “Por favor, me esperem para terminar a música”, pede gentilmente à orquestra que aguarda a última nota. Atenciosa, a artista tira fotos e cumprimenta parte do público que se aglomera a sua volta. “Estou quase aí”, diz entre muitos agradecimentos. “Não vamos deixar as pessoas do balcão com ciúme, se não terei que subir até o céu e tirar fotos com todos eles”, brinca. “O único problema é que as pessoas pisam em meu vestido e eu realmente não consigo voltar ao palco”, diz arrancando risos da plateia. “Você pode colocar no meu camarim?”, pede entregando uma flor e um presente para uma das pessoas de sua equipe. “Coloque-a na água e cuidado para não derrubar, pois é frágil”, indica atenciosa. “Estou falando tanto essa noite que o show provavelmente terá quatro horas de duração. Peguem seus telefones e cancelem seus compromissos”, diverte-se. “Tenho cantado as mesmas músicas por muito tempo… e é culpa de vocês! É um bom problema para se ter. Gostaria de cantar algumas de forma um pouco diferente”, diz sentando-se próxima ao público. “A New Day Has Come”, “That’s The Way It Is” e “I’m Alive” são apresentadas em formato acústico.

“Incredible” antecede um dos momentos mais emocionantes da noite. Em “All By Myself”, Celine não consegue conter as lágrimas e interrompe a canção no meio com as mãos cobrindo o seu rosto. Ao final, é aplaudida de pé por incontáveis minutos. Usando um vestido prata com detalhes brancos, embalada pelas canções tocadas pela orquestra durante o intervalo como Bruno Mars e Michael Jackson, a artista interpreta a animada “Kiss”, do cantor Prince. Com uma iluminação em tons de roxo e uma tempestade nos telões de alta definição, Celine dá voz ao clássico “Purple Rain”. Com o final da apresentação se aproximando, chega o momento de “Love Can Move Mountains”, “River Deep, Mountain High” e “The Show Must Go On”, da banda Queen, música que atribui uma definição diferente ao espetáculo.

Com a voz embargada, Celine retorna ao palco e demonstra a maior dificuldade da noite. “My Heart Will Go On” quase não sai. “As músicas tem um novo significado para mim”, confessa em determinado momento. “Definitivamente, esse foi o show mais difícil de toda a minha vida e eu preciso agradecer vocês por estarem ao meu lado”, agradece emocionada. “Na minha geração, a palavra ‘amor’ não é dita. Nós tínhamos vergonha de dizê-la. Em contrapartida, René dizia ‘eu te amo’ todos os dias. Para a mãe, para o irmão, para os filhos, para os amigos. A primeira vez que o ouvi dizer ‘eu te amo, mãe’, fiquei perplexa. Percebi naquele momento que me faltava algo. Eu trouxe a expressão ‘eu te amo’ para a minha família. Se eu pudesse, contaminaria o mundo com essas palavras tão poderosas, que hoje eu posso dizer com certeza de meus sentimentos: eu amo vocês”, declara-se. Com um único foco de luz em sua direção e com as cortinas fechando lentamente, Celine praticamente declama os versos de “Over The Rainbow”. Um doce e sincero “amo vocês” são as últimas palavras da noite. Uma foto de Celine e René abraçados preenche o espaço.

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Aos 47 anos e quase 50 discos, Celine Dion é considerada uma das maiores cantoras do mundo. Com sua voz poderosa, se tornou a artista canadense que mais vendeu na história e uma das artistas recordistas de vendas de discos, com mais de 200 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. O espetáculo “Celine” fica em cartaz no Caesars Palace, em Las Vegas, até 2019 e é imperdível. Mais informações: www.celineinvegas.com.

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