“Cinderella”: elenco transforma caos em apresentação magnífica

Para muitos, não foi uma noite de Contos de Fadas. Na terça-feira, 22, convidados amargaram mais de duas horas na fila para retirar os ingressos da estreia VIP do musical “Cinderella”, em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo. Com todas as entradas distribuídas e dezenas de pessoas do lado de fora, a produção resolveu abrir as portas da casa para que o público se acomodasse onde conseguisse. Com o caos instaurado, cadeiras dos corredores foram arrastadas para dentro da grande sala e, quem não foi embora, acabou por assistir ao espetáculo de pé ou sentado nas escadas. Com uma hora e meia de atraso, parte do público que trabalhava no dia seguinte ou que amargava o cansaço das crianças que esperaram horas por um lugar, abandonou o musical antes do fim. Quando as luzes se acenderam, uma grande parcela dos disputados assentos estava livre.

“É normal convidar mais pessoas do que a capacidade do teatro, pois muita gente costuma não aparecer”, justificou-se Douglas Carvalho, um dos sócios da Fabula Entretenimento, empresa responsável pela montagem de “Cinderella” no Brasil. Renata Borges frisou o pedido de desculpas aos patrocinadores, sem os quais não seria possível levantar o espetáculo. “Nem as nossas famílias se sentaram ao nosso lado”, queixou-se. No Facebook, a diretora executiva comemorou a grande procura pelos ingressos. “Todos queriam estar na VIP”, escreveu após agradecer a presença dos convidados e desculpar-se mais uma vez pela super lotação. Ao público, não importava se era uma pré-estreia, uma estreia VIP ou uma apresentação regular de “Cinderella”. O convite foi aceito por dezenas de razões positivas que rodeiam a montagem brasileira e que, felizmente, se sobressaem a qualquer contratempo.

Cinderella-com-Bianca-Tadini-e-Bruno-Narchi-em-Sao-Paulo

(Foto: Setor VIP / Cíntia Carvalho)

“Cinderella” é a única obra de Rodgers & Hammerstein escrita para a televisão. Em 1957, o musical estrelado por Julie Andrews atraiu mais de 100 milhões de espectadores. Douglas Carter Beane escreveu um novo roteiro para a obra e o musical estreou na Broadway, em 2013. Após as desistências dos diretores Ernesto Piccolo e Ulysses Cruz, a experiente dupla Charles Möeller e Claudio Botelho assumiu a direção e a versão brasileira, respectivamente. “A peça não é machista, muito pelo contrário”, afirma Möeller sobre a adaptação. “Hammerstein sempre falou sobre assuntos tabus como racismo e a defesa da mulher. Foi um revolucionário”, completa lembrando obras como “A Noviça Rebelde”, “O Rei e Eu” e “Carrossel”.

Estrelado por Bianca Tadini (Cinderella), Bruno Narchi (Príncipe Topher) e Totia Meireles (Madame), “Cinderella” conta com um elenco de mais de 30 atores, cantores e bailarinos. Bianca é uma princesa. Sua voz afinada e extremamente doce comprova que apenas seu talento é maior que sua beleza. Excelente ator, Bruno se mostra seguro, mas conquista a torcida da plateia com a bondade comovente de seu personagem. Totia merece os louros que recebe por sua atuação primorosa. No palco, a artista é implacável como o humor ácido de sua personagem. A atriz – que substituiu Cássia Kis Magro – pode se orgulhar por mais um trabalho espetacular. Além do trio de protagonistas, destacam-se entre os coadjuvantes Ivanna Domenyco (pela simpática Marie) e Giulia Nadruz (pela exagerada, porém entregue, Gabrielle).

A orquestra regida pelo maestro Carlos Bauzys possui 17 músicos que se dividem em 24 instrumentos e incluem trompetes, violinos e uma harpa. Os efeitos especiais contam com cenas em 3D que se estendem do palco à plateia. A transformação de Cinderella em princesa impressiona e conquista aplausos emocionados do público. Idealizado por Rogério Falcão, o cenário é deslumbrante, digno dos grandes espetáculos da Broadway. Para a execução de lugares como a floresta, o vilarejo, o palácio e o salão de baile, foram necessárias cinco equipes com dezenas de profissionais. Para a criação dos 180 figurinos, Carol Lobato trouxe materiais de Paris e trabalhou com mais de 50 especialistas. Os vestidos das personagens Cinderella e Madame, os inúmeros acessórios e, claro, os sapatinhos de cristal merecem atenção.

>> Visto por mais de 15 milhões de pessoas, “We Will Rock You” chega ao Brasil

Cinderella-com-Bianca-Tadini-e-Bruno-Narchi-em-Sao-Paulo

(Foto: Setor VIP / Cíntia Carvalho)

“Cinderella” está em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, às quintas (21h), sextas (21h30), sábados (16h e 20h) e domingos (17h00). Os ingressos custam de R$25 (meia) a R$180 (inteira) e podem ser encontrados no Ingresso Rápido. Baseado na fábula francesa “Cendrillon”, de Charles Perrault, o musical não tem o apelo infantil que a clássica animação da Disney. Apesar do número de efeitos e da imediata identificação infantil, Cinderella é uma personagem politizada em um espetáculo com duração de 160 minutos. Até 05 de junho. Imperdível.