Cláudio Curi, Roney Facchini e Zé Henrique de Paula falam sobre “Ou Você Poderia Me Beijar”

Roney Facchini e Cláudio Curi

Roney Facchini e Cláudio Curi

É chocante pensar que a delicadeza de “Ou Você Poderia Me Beijar” foi criada por Neil Bartlett para a Handspring Puppet Company, ou seja, para ser encenada por bonecos: “É o trabalho mais instigante que participei em meus 31 anos de carreira”, conta o ator Roney Facchini. “Foi muito louco passar o texto de boneco para um grupo de atores”. Roney interpreta com o experiente Cláudio Curi, o casal na maturidade: “Eles são mostrados em três fases da vida: aos 80 anos, aos 50 e na juventude aos 19 e 20 anos”, explica Curi.

“Ou Você Poderia Me Beijar” não é simplesmente uma história de amor. A ação da peça se passa na África do Sul e começa em 2029, quando o personagem B recebe a notícia de que está em estágio terminal causado por sua enfisema pulmonar. Em meio à corrida legal para que A não fique desamparado após a morte do companheiro, lembranças de seus encontros, suas lutas, inseguranças e conquistas são contadas de forma lúdica e tocante. No cuidadoso programa, o diretor Zé Henrique de Paula usa a frase de Stephen Fry, em seu documentário “Out There”, para resumir o principal intuito do espetáculo: “A história já nos ensinou que o progresso pode ser revertido”.

O diretor Zé Henrique de Paula

O diretor Zé Henrique de Paula

Com exclusividade ao Setor VIP, o casal da ficção e a direção de “Ou Você Poderia Me Beijar” falaram sobre a escolha e o processo de ensaio da peça, sobre planos futuros, trabalhos do passado e muito mais. Completam o elenco Felipe Ramos, Thiago Carreira, Marco Antônio Pâmio, Rodrigo Caetano e Clara Carvalho. O que não é contado no bate-papo, você pode conferir de sexta à domingo no Teatro do Núcleo Experimental.

Confira o making-of de “Ou Você Poderia Me Beijar”:

Setor VIP: “Ou Você Poderia Me Beijar” é uma peça que fala sobre amor. Como é para você falar sobre? Porque optou estar no espetáculo?

Cláudio Curi: É uma delícia! Ainda mais tendo um caso com Roney Facchini (risos) Fazemos um casal que é mostrado em três fases da vida: aos 80 anos e 60 anos juntos, aos 50 e na juventude quando se conhecem aos 19 e 20 anos. A ação da peça alterna cenas do passado, do presente e na velhice quando o personagem do Roney está morrendo de enfisema. É muito difícil pois fala de perda, sabe? Da dificuldade de você lidar e aceitar isso, principalmente nas questões legais, casar, fazer testamento para deixar o companheiro amparado. Mas é uma história de amor que fala também de preconceito, relação homossexual…

Roney Facchini: Hoje em dia quero estar acompanhado de bons colegas de trabalho. Estava fazendo um longa metragem com um ator que é fixo do grupo, Sergio Mastropasqua, e por problemas pessoais ele precisou sair do projeto. Já havia recebido alguns convites do Zé e nunca pude. Ele me chamou para fazer a primeira montagem de “Cândida” (2008), me mandou o texto de “Casa/Cabul” e nunca conseguimos acertar datas. Quando li o texto não entendi nada e viemos para o espaço. Foi incrível e muito engraçado. A peça é escrita para bonecos e o trabalho de adaptação do Zé foi incrível. Esse trabalho foi muito instigante porque tudo foi acontecendo aos sustos. Quando viemos fazer a leitura ninguém falou que íamos montar e de repente começávamos semana que vem. Não deu nem para piscar! (risos) É tão difícil, tão raro encontrar um grupo de atores e diretores como esse e um espaço incrível, nas condições que o Núcleo oferece, é sensacional.

Setor VIP: Como escolhe o tema de suas peças?

Zé Henrique de Paula: Procuro peças que sejam instigantes à primeira leitura. Alguns dos atores que estão aqui hoje fizeram a leitura dessa peça, como o Pâmio e a Clara. Logo no primeiro encontro alguma coisa acontece, você tem uma sensação, uma intuição, às vezes racional e às vezes emocional de que aquela peça precisa ser montada quase como se, usando uma linguagem mais poética, a peça te escolhesse. Existe um conjunto de assuntos que a gente como grupo de artistas gosta de falar e são assuntos que tem a ver normalmente com tolerância, preconceito, minorias, às vezes de maneira mais pesada como em “Casa/Cabul” (2001) e em “As Troianas – Vozes da Guerra” (2009), às vezes de uma maneira mais leve, mais lírica, mais poética como em “Senhora dos Afogados” (2007) e em “Ou Você Poderia Me Beijar” (2014).

Cláudio Curi: Essa peça me chamou a atenção porque é o trabalho mais diferente e mais instigante que fiz como ator. Fui convidado pelo Zé e fiquei atraído de cara.

Setor VIP: Trabalhar com diferentes gerações deve ser um trabalho difícil, mas muito interessante…

Zé Henrique de Paula: Temos um grupo de aproximadamente 20 atores que trabalham com bastante regularidade conosco e a maioria na faixa dos 30 anos. Tento sempre mesclar essas pessoas com atores de fora, mais velhos e mais veteranos na hora de fazer os elencos. A troca que isso proporciona é sempre muito proveitosa para todos. É um intercâmbio de experiências que renova a nossa própria maneira de pensar o teatro. Com “Ou Você Poderia Me Beijar” é um prato cheio. Eu precisava ter a dupla das três gerações juntas. Foi sopa no mel. (risos)

Roney Facchini: Nas últimas cinco montagens estive com atores dos mais jovens aos mais experientes. Em “Hamlet” (2012), com o Thiago Lacerda, tinham atores dos 20 até o (Antônio) Petrin de 70 e poucos. Meus amigos são muito jovens e estar com eles me deixa mais jovem. Gosto disso. Jovens nunca me irritaram, me irritam mais os mais velhos.

Setor VIP: Dividir o palco com alguém famoso nacionalmente por seu trabalho na televisão, como o ator Thiago Lacerda, tem seus prós e contras?

Roney Facchini: O Thiago Lacerda é um homem de teatro. Ensaiávamos nove horas por dia, ele emagreceu 14 quilos e fez um Hamlet deslumbrantemente bem. Ele é um homem de teatro que faz televisão. Aqui é igualzinho “Hamlet”. Fiz produções muito difíceis pela falta de dinheiro, mas fazemos por amor ao teatro. Aqui fomos agraciados com uma produção carinhosíssima, impecável, como em “Hamlet”. Não tem diferença nenhuma. Me dei melhor com o Zé, do que com o Ron Daniels, um grande diretor especialista em Shakespeare que nos dirigiu em “Hamlet”. Ele chegou da Inglaterra e não entendeu o que estava acontecendo no teatro brasileiro. Ele veio para montar a peça aos moldes do país onde a cultura é abençoada, atores de teatro tornam-se sir e lady e nós temos péssimas condições econômicas e de divulgação no Brasil. Ele não entendeu isso. O Zé é um cara super consciente do momento que estamos passando. Essa peça é oportuníssima. Uma peça gay, sobre o amor e que mostra que todo mundo é igual.

Os jovens Thiago Carreira e Felipe Ramos

Os jovens Thiago Carreira e Felipe Ramos

Setor VIP: Foi fácil trabalhar com o Zé?

Roney Facchini: O Zé Henrique tem a fama de ser a pessoa mais doce do mundo. Diretor de teatro, e eu sou diretor, é um pouco histérico. Ele é um bicho em extinção, um gentleman. Trabalhei com diretores que a plástica é muito importante, mas não como o Zé faz, ele é um artista plástico e muito talentoso. Já esperava isso. Vi muitas peças do grupo. Fiquei apaixonado.

Cláudio Curi: O Zé Henrique de Paula é o diretor mais interessante que tive contato na minha carreira. Fiquei muito feliz com esse convite, principalmente por ser essa peça.

Setor VIP: Você esteve no musical “A Bela e a Fera” que ficou em cartaz no Teatro Abril (atual Teatro Renault), sente diferença ao se apresentar em um teatro de mais de mil lugares para um espaço mais aconchegante?

Cláudio Curi: Tem diferença, claro. De 1500 para 60 lugares é muito diferente, mas é maravilhoso. Aqui o público está dentro do palco e é muito prazeroso. Nos musicais há um distanciamento muito grande. Esse teatro é lindo, é uma graça e essa proximidade muito interessante.

Setor VIP: Consegue sentir a resposta do público em um espaço menor?

Cláudio Curi: Olha, eu não vejo ninguém! (risos) Meus colegas até comentam que vêem, eu não! (risos) Nada pode te tirar a concentração do que você está fazendo em cena. Se você pensar em qualquer outra coisa, tiver uma pequena distração você perde uma deixa, uma fala, interrompe a sequência e a fluidez do espetáculo.

Setor VIP: Quando você sentiu que era o momento de abrir o seu espaço?

Zé Henrique de Paula: Uma das coisas mais incríveis a respeito da cidade de São Paulo, que é uma cidade que às vezes pode ser muito cruel com a gente, é a quantidade de produção teatral que existe aqui. Existe espaço para o teatro experimental, para o teatro comercial, para comédias com atores de televisão e para os grandes musicais. Como existe um número grande de produções e o número de salas não cresce acompanhando a produção, é quase um vestibular você conseguir um teatro. (risos) Você passa por curadoria, seleção, edital e começamos a perceber que talvez a gente precisasse escapar um pouco dessa ciranda de correr atrás do espaço. Nós tínhamos uma sala de ensaio, mas acabávamos ensaiando uma peça genérica porque não sabíamos para que teatro íamos. Sem a especificidade do espaço a gente ensaia de maneira genérica e agora isso acabou. Desde o dia 1, essa peça foi ensaiada aqui. Isso para eles é completamente diferente. Isso cria uma apropriação que é extremamente preciosa.

Setor VIP: Tem vontade de trabalhar com alguém ou com um texto específico?.

Zé Henrique de Paula: Sou muito fiel e muito leal, então tenho vontade de continuar trabalhando com todo mundo que trabalhou comigo. (risos) Não no sentido de não experimentar coisas novas ou colaboradores novos, mas quando penso nesse elenco, por exemplo, tenho vontade de trabalhar com todos eles e pensar em projetos para eles, em textos que abarquem as capacidades deles, mas guardo uma pilha de textos em um criado mudo e acontece uma coisa muito curiosa, geralmente leio, percebo que tem algo excitante ali, mas preciso de um tempo. O texto precisa ficar no criado mudo em baixo de outras peças. Tem algumas coisas rondando, outras em cima do criado mudo e com certeza alguma dessas será a próxima.

Setor VIP: E tem saudade de algum espetáculo?

Zé Henrique de Paula: Saudade da primeira peça do Núcleo Experimental que se chamava “R&J” (2006), que era “Romeu & Julieta” feita com quatro garotos, dois deles estão no Núcleo desde então. Thiago Carreira inclusive faz “Ou Você Poderia Me Beijar”. Não vi a montagem dirigida pelo João Fonseca que ficou em cartaz ano passado aqui em São Paulo mas é uma peça que tenho muito carinho por ser a primeira, ter dado o pontapé inicial nessa formação da companhia e também porque é uma história incrível e que deve ser montada periodicamente para que novas plateias sempre vejam “Romeu & Julieta” montado de alguma maneira. Temos que fazer os clássicos como Shakespeare, Tchekhov e Nelson Rodrigues para formar um público que a gente sabe que no Brasil não é uma coisa muito fácil de acontecer.

Roney Facchini: Despertou em mim uma vontade de voltar a cantar porque a preparadora vocal daqui é fenomenal (Fernanda Maia). Fiz só um grande musical e fiquei 4 anos em cartaz, “Almanaque Brasil” (1993). Fiquei com saudade do “Almanaque”, mas cantar não é uma coisa natural para mim, então tenho que trabalhar muito.

Marco Antônio Pâmio e Rodrigo Caetano: o casal aos 50 anos

Marco Antônio Pâmio e Rodrigo Caetano: o casal aos 50 anos

“Ou Você Poderia Me Beijar” está em cartaz no impecável Teatro do Núcleo Experimental (Rua Barra Funda, 637 – Barra Funda). Sextas e sábados às 21h e domingos às 19h. Os ingressos custam de R$20,00 (meia) à R$40,00 (inteira) e podem ser encontrados no Compre Ingresso. Até 27 de abril.