Com Bruno Gissoni, espetáculo “Dzi Croquettes” resgata reflexão dos anos 70

(Foto: Luan Cardoso)

(Foto: Luan Cardoso)

De 1964 a 1985, o Brasil sofreu com o autoritarismo da ditadura militar. Nos anos 70, o regime alcançou o auge de sua popularidade, censurando todos os meios de comunicação do país, além de torturar e exilar qualquer pessoa que não fosse a favor do governo antidemocrático. Em 1972, um grupo de homens criou um espetáculo para confrontar a política da época, onde alternavam números de canto e dança, usando maquiagem e roupas costumeiramente femininas, sem esconder suas características masculinas. O Dzi Croquettes acabou sendo censurado e perseguido pela ditadura, sendo obrigado a se exilar em Paris. A companhia reestreou a peça e se tornou a sensação da capital francesa, impulsionado pelo apoio de Liza Minelli, atuante na proteção e na promoção de grupos minoritários.

O grupo chegou ao fim em 1976, após quatro anos de grande sucesso, principalmente na Europa. As performances criativas, marcantes e cheias de personalidade, influenciaram artistas como Ney Matogrosso e Elis Regina. Foi o coreógrafo americano Lennie Dale (1934 – 1994), um dos integrantes do Dzi Croquettes, que sugeriu à cantora balançar os braços durante a apresentação de “Arrastão” no Festival da Música Popular Brasileira, na TV Excelsior, em 1965. O número, além de conquistar o 1º lugar na competição, se tornou um dos mais icônicos da história da música no país. Anos depois, o longa-metragem “Dzi Croquettes” (2009), que conta parte da história do grupo, se tornou o documentário brasileiro mais premiado no mundo.

Idealizado por Ciro Barcelos, um dos artistas remanescentes do Dzi Croquettes, o espetáculo chega à São Paulo após longa temporada no Rio de Janeiro. A peça preserva o estilo do antigo teatro de revista, que utiliza a sensualidade e o humor para criticar costumes sociais e políticos. Popular no mundo a partir do final do século XIX, o gênero foi responsável por revelar inúmeros talentos, como a cantora luso-brasileira Carmem Miranda, homenageada no espetáculo de Barcelos. Responsável pela concepção e pela direção de “Dzi Croquettes”, o artista se auto promove em números onde é o centro das atenções mas, apesar do talento, conquista o público ao falar sobre os ex-companheiros e destacar uma ou outra história que viveu ao lado do grupo.

Bruno Gissoni é uma espécie de apresentador, um segundo protagonista em um espetáculo onde há Ciro Barcelos e o coro. De longe o melhor ator do grupo, Gissoni contorna com naturalidade e sem deixar transparecer qualquer preocupação, as dezenas de falhas técnicas que atrapalham o andamento do espetáculo. Apesar de relativamente fáceis, o artista se mostra preocupado apenas na execução das coreografias, mas cumpre o que se propõe a fazer com graça e humildade. O coro formado por Rodolfo Goulart, Filipe Ribeiro, Rafael Leal, Paulo Victor Gandra, Julio Aracack, Rogério Nóbrega e Lucas Cândido, embora responsável por partes mais difíceis do espetáculo, parece mal ensaiado e por diversas vezes desorganizado. Destacam-se Rodolfo Goulart e Rafael Leal.

Os artistas são constantemente prejudicados por questões técnicas em “Dzi Croquettes”. A abertura de vozes do coro, por exemplo, se torna uma confusão pela má qualidade dos microfones, que falham dezenas de vezes durante o espetáculo. Os textos ficam incompreensíveis em diversas cenas e o som chega a ficar números inteiros sem funcionar. O monólogo de abertura de Bruno Gissoni pôde ser ouvido graças à perspicácia do ator ao impostar a voz. Por não ter ideia de que momento da frase o som sairia nos altos falantes, o resto do elenco ficou visivelmente perdido, sem saber se falava alto ou baixo. Em um teatro de apenas 300 lugares e privilegiado por contar com artistas tão talentosos, os instrumentos poderiam ser substituídos por microfones de ambiente ou simplesmente descartados.

“Dzi Croquettes” conta com peças primorosas criadas pelo figurinista Claudio Tovar, artista da formação original da companhia, como os belos casacos usados por Gissoni e as comoventes capas em homenagem aos ex-integrantes. A trupe contou com uma série de coreógrafos convidados como Eliane Carvalho, para a cena do flamenco; Neuza Abbes, para o número do tango; e Rafael Leal, para a dança afro. Rodolfo Goulart é o responsável pela direção coreográfica. Destaque para o envolvente número de sapateado. No repertório foram incluídas canções de bandas contemporâneas como Ira, Mamonas Assassinas e Titãs, sem deixar de lado inesquecíveis refrões como o famoso “Dzi Croquettes, as internacionais”, apresentado para as novas gerações através do documentário de 2009.

(Foto: Luan Cardoso)

(Foto: Luan Cardoso)

Prestes a completar 45 anos desde a estreia, o Dzi Croquettes segue em defesa não só das minorias, mas do direito que cada ser humano tem em ser repeitado. As mesmas mensagens gritadas aos quatro ventos em meados dos anos 70, são repetidas incansavelmente pelo grupo que acredita não ser tarde demais para fazer a diferença, embora riem pela situação política e social do Brasil continuar praticamente a mesma. Independente das falhas técnicas, “Dzi Croquettes” é um espetáculo de amor e de esperança, que preza pela liberdade de expressão com leveza, bom humor, sensualidade, talento e uma quantidade de histórias infindáveis e interessantíssimas, que precisam ser conservadas.

“Dzi Croquettes” está em cartaz no Teatro Augusta (Rua Augusta, 943 – Cerqueira César), em São Paulo. Quartas e quintas às 21h. As entradas custam de R$40,00 (meia) a R$80,00 (inteira) e podem ser encontrados no Compre Ingressos. O espetáculo é indicado para maiores de 14 anos e tem duração de 90 minutos. Até 15 de dezembro. Retorna em 2017. Estrela1 Estrela1