Daniel: “Estou muito feliz e vivendo um momento único”

Em 1977, a Rádio Brotense recebeu em seu estúdio, localizado em um dos andares do Cine São José, em Brotas, no interior de São Paulo, um menino de apenas oito anos de idade. Era a primeira apresentação do cantor Daniel. Inaugurado em 1956, o único cinema da cidade fechou e reabriu diversas vezes, finalizando suas atividades definitivamente em 1994. Dez anos depois, o artista sertanejo adquiriu o prédio e o reinaugurou em 2009, mais moderno e preservando a arquitetura original.

Marco na história da cidade, o Cine São José tornou-se o cenário perfeito para Daniel encerrar as comemorações de seus 30 anos de carreira. Pouco antes da chegada de 2015, o cantor subiu ao palco para cantar suas canções favoritas, entre clássicos de cantores e compositores que admira e músicas que desenharam sua história profissional. “Daniel in Concert em Brotas” transformou-se em “Trilha Sonora”. “Tentamos adequar o nome para levar o show para a estrada, ficaria estranho o nome ‘em Brotas’ em outras localidades”, conta.

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Antes da estreia, Daniel acompanha os ajustes finais de perto, conversa com a equipe entre uma e outra entrevista e não tenta disfarçar o carinho pelos profissionais ao seu lado. Cumprimenta a todos, inclusive os que não são do seu time. Com o inseparável violão ao seu lado, o cantor bate um papo com o Setor VIP, conta histórias, faz piadas e transforma a passagem de som em um show particular espetacular. “Sempre gostei de fazer um trabalho eclético, desde a época com o João Paulo. Cantávamos um repertório vasto de outros artistas”, explica em relação à escolha do setlist.

A estrutura gigantesca, criada com exclusividade para a segunda fase do projeto, precisou ser montada um dia antes: “A nossa vontade é levar o show para outras localidades, mas não sei como isso vai ser feito”, conta. O início do espetáculo representa sua terra natal e cada uma das canções possui um cenário diferente. No palco, quase 30 músicos compõem a impecável orquestra. “Big Band”, como o próprio artista prefere se referir aos colegas. Daniel mostra-se diferente e se apresenta no melhor estilo crooner. “A gente ama fazer música, independentemente do estilo. O ‘The Voice’ fortaleceu isso ainda mais em mim, a vontade de fazer algo diferente”.

“Como vocês querem fazer as fotos, sorrindo ou triste?”, brinca. “Falando sério, com pedestal ou sem? Com o microfone?”, questiona disposto. “Vamos passar uma para ficar mais natural?”, oferece simpático. Vazia, a casa de shows ecoa o talento de Daniel por todos os cantos. A passagem de som estende-se de uma para três músicas. “Cantei para vocês. Gostaram?”, pergunta após interpretar os sucessos “Chuvas de Verão” (José Augusto), “Apenas Mais Uma de Amor” e “Toda Forma de Amor” (Lulu Santos). “É muita responsabilidade interpretar canções famosas de outros artistas”, confessa. “Fizemos um repertório com músicas que gosto de cantar desde a infância e que ainda não tínhamos mostrado para o público. Sou fã de muita gente, não nego”, diz à vontade.

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Daniel com o diretor do show Marcelo Amiky

“‘Menino da Porteira’ é muito especial para mim, uma das primeiras canções que cantei. ‘Romaria’ faz parte das minhas origens, da minha essência. ‘Voa Liberdade’, do Jessé, tem um significado absurdo, comecei a cantar essa canção em 1980, na época dos grandes festivais, quando ele participou com ‘Porto Solidão'”, detalha minucioso. “Todas as músicas tem alguma particularidade, cada uma dessas canções marcou um momento especial da minha vida”, entrega emotivo antes de cantarolar um trecho de “Sonhos” (Peninha) e de “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” (Raul Seixas). “São artistas únicos, assim como Michael Jackson, que está presente no repertório através da versão ‘A Paz’, composta pelo Nando, do Roupa Nova”.

Questionado sobre canções que julga não terem alcançado o sucesso merecido, o cantor Daniel relembra os últimos momentos ao lado do parceiro João Paulo. “Gravei uma canção chamada ‘Muda’, no último projeto com o João Paulo. Aquela época foi muito tumultuada, tínhamos lançado o trabalho há um mês quando ele partiu”, relembra. “Sabia que tínhamos que trazer essa música à tona de algum jeito. Às vezes, canto composições do Peninha e acho que foram feitas para eu cantar. Não sei se é porque estou mais velho e as emoções estão mais à flor da pele, mas esse tipo de canção me conquista”, confessa emocionado antes de afirmar que gostaria que a faixa tivesse uma nova oportunidade de se eternizar.

“Selecionamos quase 60 canções. Sou fã de muita gente, não nego!”, conta sobre o processo que, segundo o cantor, levou apenas 20 minutos. “No DVD estarão 27 músicas, no show ficaram 33, que podem virar 35…”, brinca com a fama de improvisos e participações que rondam o universo da música sertaneja. Apesar do repertório incomum, hits de várias fases da carreira de Daniel estão presentes: “Quase todos. Canções com o parceiro, músicas de 1995, 1996…”, diz. “Vamos pegar o público de surpresa. O show é totalmente diferente. Ou vão amar ou vão odiar”, preocupa-se modesto antes de concluir: “Estou muito feliz com o resultado”.

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Na sexta-feira, 11, com quase uma hora de atraso, Daniel subiu ao palco do Grupo Tom Brasil (antigo HSBC Brasil), em São Paulo, para mostrar ao público o show “Trilha Sonora” pela primeira vez. “Muito obrigado por esse carinho! É muito importante estar aqui nessa noite especial. É um momento único na minha vida”, agradece. “Tenho a oportunidade de amadurecer e poder estar nos palcos da vida, com vocês. Ser recebido dessa forma é difícil, conquistar isso não é fácil. Chegar até aqui é muito complicado e quero agradecê-los do fundo do meu coração porque sozinho nada seria possível”, discursa seguro e emocionado. “Hoje estou vivendo uma fase diferente de todas as que já vivi ao longo da minha vida”, confessa depois de interpretar a famosa “Como Vai Você” (Roberto Carlos). “Cantei aqui em um momento difícil”, relembra. Durante a turnê “Amor Absoluto” (2006), o cantor estava com um dos braços imobilizados por causa de uma cirurgia no ombro, resultado de um grave acidente de carro.

“Alguma dessas músicas certamente faz parte da vida de vocês”, diz antes de interpretar canções como “Impossível Acreditar Que Perdi Você” (gravada por Fábio Jr.), “Tantinho” (de Carlinhos Brown) e “Amor I Love You” (de Carlinhos Brown e gravada por Marisa Monte). “Não tenha vergonha de dizer ‘eu te amo'”, pede antes de ouvir centenas de “eu te amo” do público. Em “Cheia de Charme” (Guilherme Arantes), Daniel desce na plateia para cumprimentar alguns dos admiradores presentes. De seu repertório, a animada “Dá Me Dá Me” é um dos momentos mais marcantes da noite. “Tem alguma regra que não podemos passar de três horas de show?”, brinca. “Se eu estiver extrapolando vocês me falam? Se tem um cara que gosta de cantar, ele está em cima desse palco!”.

De Tom Jobim e Vinícius de Moraes, “Eu Sei Que Vou Te Amar” é o primeiro improviso da noite. “Falar de amor é tão bom, né?”, suspira. Do “The Voice”, Liah Soares aparece para dar voz às canções “Só Pensando em Você” e “Asa Branca”. “Você disse que é um cara que gosta de cantar, você é um cara que sabe cantar”, elogia antes de deixar o palco. O sertanejo prepara-se para um de seus momentos favoritos. “Tem uma canção que eu não poderia jamais deixar de fora desse repertório, uma canção que faz bem a alma e ao coração, um presente divino”, desmancha-se antes de “Romaria”, canção de Renato Teixeira, participação especial do show de sábado (12). Carregando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, a filha mais velha do cantor, Lara, participa rapidamente das apresentações: “Pode beijar a boca do papai, filha. Do pai pode, só do pai!”, brinca Daniel arrancando risos do público. José Camilo, pai de Daniel, também marca presença com as canções “O Último Julgamento” (Milionário e José Rico) e “Um Pouco De Minha Vida” (Tião Carreiro e Pardinho): “cantar com pai é bom, mas cantar com filho é melhor ainda!”, orgulha-se. Rick, ex-Rick e Renner, sobe ao palco para cantar “Filho do Mato” (Chico Rey e Paraná) e “Hoje Eu Sei”, “Não Precisa Perdão” e “Nelore Valente”, todas da época da parceria de Daniel com João Paulo.

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>> Confira trechos da apresentação de Daniel no canal oficial do Setor VIP no YouTube!

“Dona do Meu Destino” (Zé Henrique), “Primavera” (Tim Maia), “Será” (Renato Russo) e “Embora” (Renato Teixeira) conduzem a apresentação ao final. “Gita” (Raul Seixas) conquista o título de melhor interpretação da noite, onde Daniel não economiza nos impressionantes vocais. “Recentemente fui convidado para ser embaixador das APAEs do Brasil”, conta. “É tão gostoso fazer alguma coisa por alguém e a APAE contribui na vida de milhares de pessoas. O amor transforma o mundo. Precisamos de mais amor, mais dedicação ao outro, se doar. Vamos fazer cada um a sua parte”, pede antes de “A Paz”, versão da canção “Heal The World”, de Michael Jackson. Com as crianças no palco e um vídeo de algumas visitas do cantor em filiais da associação, Daniel foi aplaudido de pé com veemência e muita emoção.

Para o encerramento do espetáculo, um medley de “Declaração de Amor” (“Você vai ouvir minha declaração de amor…”), “Estou Apaixonado” (“Estou apaixonado e esse amor é tão grande…”), “Adoro Amar Você” (“Ah eu adoro amar você, como eu te quero eu jamais quis…”), “Eu Só Quero o Seu Amor” (“Eu só quero o seu amor no meu coração, seu amor é mais que uma paixão…”) e “Os Amantes” (“Meu amor, se eu pudesse te abraçar agora…”), agita a plateia que canta cada palavra e se prepara para dançar na íntegra a divertida “A Jiripoca Vai Piar”, antes de brigar por uma das dezenas de rosas que Daniel, atencioso, distribui ao público.

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