Daniel Rocha e Hugo Bonemer falam sobre carreira, amizade e “Frames”

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Desde o início de agosto, Daniel Rocha e Hugo Bonemer estão em cartaz com o espetáculo “Frames”, no recém-inaugurado Teatro MorumbiShopping, em São Paulo. “Ambos estão presos no trânsito”, informa Franz Keppler, autor da peça e responsável pela produção ao lado de Bonemer. Antes de uma das sessões, os artistas conversaram com exclusividade com o Setor VIP em um dos lugares que se sentem mais à vontade: o palco.

Hugo fala pausadamente e disfarça quase completamente o sotaque paranaense. Natural de Maringá, o artista conhecido por musicais como “Hair” (2011) e “Rock in Rio” (2012) impressiona pelo sorriso atraente e pela clareza ao expor suas ideias. Pensa muito bem antes de falar, se policia para não cometer nenhum erro e não esquece de retomar assuntos que foram deixados propositalmente de fora da entrevista, após o final da gravação. Em determinado momento, se deita no tablado como se estivesse na sala de sua casa conversando com seus amigos mais íntimos, sempre conectado através do olhar, demonstrando total atenção. Quase um carinho.

Daniel não esconde ser paulista e chega ao teatro correndo, embora seu atraso seja ínfimo e completamente compreensível por qualquer pessoa que conheça o trânsito caótico de São Paulo. Mesmo enquanto recupera o fôlego, permanece parte da entrevista de pé, fala rápido e responde todas as perguntas com empolgação. Divertido, o ator não perde oportunidade de colocar um sorriso no rosto das pessoas à sua volta, bastante diferente da postura dos papéis que interpretou em novelas como “Império” (2014), “Totalmente Demais” (2015) e “A Lei do Amor” (2016). Semelhante aos personagens, apenas a beleza que empresta ao demonstrar seu talento.

Após passar por Salvador, Balneário Camboriú, Lages e Jaraguá do Sul, “Frames” chega ao final da primeira temporada de maneira repentina. Daniel Rocha voltará para a televisão, enquanto Hugo Bonemer viverá o protagonista do musical sobre Ayrton Senna. Na entrevista, os atores contam curiosidades sobre o processo de desenvolvimento do espetáculo, responsabilidade em relação ao público, o que os move na profissão, amizade e muito mais!

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Vocês passaram por algumas cidades antes de estrear a temporada paulista de “Frames”. Essas apresentações serviram como prévias para que vocês testassem o que funciona ou o espetáculo está formado e não há espaço para mudanças?

Hugo Bonemer: Estou doido para fazer mudanças! Sentindo o público depois de um mês de temporada e sentindo a diferença entre cidades, vejo algumas necessidades de mudança, mas não posso fazer sem a direção. São pequenas coisas que já achava durante o processo e que agora estão mais concretas. Em termos de linguagem, estamos um pouco contra a corrente. “Frames” não é uma peça realista, então é natural que o público, habituado basicamente a ver naturalismo na televisão e no cinema, sinta um estranhamento. Estamos sugerindo que a plateia construa uma dramaturgia junto com a gente. Mostramos cenas para a plateia, mas não costuramos a história, entende?

A resposta do público tem sido positiva em relação à proposta?

Hugo Bonemer: Sim. (pausa) Recebo coisas muito legais, mas algumas pessoas comentam que, como a peça começa bastante rápida, não existe uma preparação do público. Às vezes a pessoa ainda está com a cabeça na rua e pode acabar demorando um pouquinho para entrar na peça. Não sei se a direção vai querer manter esse ritmo como uma proposta de fato, para já chegar vomitando informação para que a plateia fique atenta, ou se poderíamos experimentar alguma alteração, como um prólogo. A peça é bem dinâmica, a maioria das nossas marcas sugere duas ou três interpretações propositalmente. As pessoas param de querer entender o que a gente quer dizer e começam a entender que elas são livres para pensar o que elas quiserem. Se conseguirmos proporcionar essa liberdade e se as pessoas saírem daqui achando divertido e interessante conviver com quem é diferente, ficaremos felizes pra caramba! Acho que são raríssimas as pessoas que não entendem a brincadeira.

Daniel Rocha: Nesse sentido, a gente deixa a direção aberta para que as pessoas venham ao teatro, entendam a cena de uma maneira e consigam construir uma história individual. “Frames” tem esse papel. Somos pessoas com universos, com vidas, com frustrações e com desejos diferentes, nada mais natural que pensemos diferente.

Durante a construção do espetáculo, houve uma direção para que vocês soubessem o que cada personagem realmente está vivendo?

Hugo Bonemer: Preciso saber. (pensativo) Preciso ter alguma opinião sobre os personagens. Cada um de nós faz quatro personagens, dois homens e duas mulheres. Tenho opiniões sobre o que acontece, mas até minhas opiniões acabam mudando um pouco de sessão para sessão. Por exemplo, na primeira cena a minha personagem fala de um filho que está escondido embaixo da cama. Na minha cabeça não existe filho nenhum…

Mas essa é uma conclusão particular, que não está necessariamente certa, ou o texto aponta isso?

Hugo Bonemer: Tem gente que acha que é realmente um filho e que ela está o protegendo, tem gente que acha que é um cachorro, porque chamamos cachorro de filho…

São quatro esquetes, essa é a sua preferida?

Hugo Bonemer: Eu gosto muito, mas não sei se preferência é a palavra. Ela é mais difícil porque a gente precisa convidar o público a entrar em todo o restante da peça com a gente, então fico mais atento a essa primeira cena, porque ela vai dizer o ritmo que a peça vai ter depois, sabe?

Assim como “Frames”, normalmente os espetáculos teatrais que você se envolve, como os musicais “Hair” e “Yank!”, possuem entre as características principais debates sociais e políticos, diferente de seus trabalhos na televisão. Você pensa no conteúdo antes de optar por um projeto?

Daniel Rocha: Canta uma música, Hugo? (risos)

Hugo Bonemer: Hoje, sim. Hoje sei o que não quero fazer. Por exemplo, não quero que uma pessoa saia do teatro se sentindo estúpida por ser quem é. No começo do ano fui chamado para fazer uma série de comédia. Em pelo menos cinco episódios meu personagem fazia graça em cima da possibilidade da minha namorada ser transexual. (sério) O salário era maravilhoso e eu ficaria empregado por pelo menos um mês e meio. Fui obrigado a dizer não porque coloquei na minha cabeça que não quero que alguém se sinta diminuído por ser quem é. No fundo é um trabalho e não precisa necessariamente passar por nossas convicções pessoais. Não julgo quem topa fazer, porque é um trabalho, mas quando penso na minha responsabilidade até gosto de dizer não, ainda que eu fique desempregado.

Daniel Rocha: “Yank!” não vai voltar?

Hugo Bonemer: Estão tentando retomar através da forma convencional, inscrevendo o projeto em lei de incentivo e conseguindo patrocínio.

Daniel Rocha: Falaram super bem da peça, né?

Hugo Bonemer: As pessoas gostaram! Ficava gente para fora do teatro!

Daniel Rocha: Não consegui ver, estava fazendo um filme…

Hugo Bonemer: E foi lindo porque foi um projeto muito desacreditado por não poder pagar salário, por acharem que não era o momento de montar… talvez dois anos atrás “Yank!” não deveria ter sido montado mesmo, não por falta de necessidade, mas porque a recepção teria sido muito diferente do que foi em junho desse ano, entende? Muita coisa aconteceu nos últimos anos que contribuiu para que “Yank!” tenha tido uma aceitação enorme. A peça aconteceu no melhor momento que ela tinha para acontecer.

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Vocês entendem a responsabilidade que vem junto com o trabalho que escolheram?

Daniel Rocha: Vim de um diretor de teatro que me ensinou que o ator tem responsabilidade social. Para mim, é a coisa mais importante. “Frames” é, acima de tudo, uma peça de responsabilidade social. Estamos fazendo porque queríamos discutir esses assuntos. (sério) O mundo está tão individualizado que a gente só liga para o que a gente acha. A gente não consegue olhar o outro. É muito difícil enxergar o outro, conversar com o outro, escutar uma opinião divergente da sua e ter a sensibilidade de escutar, assimilar e ter uma discussão pacífica. São poucas as pessoas que vivem esse caminho e a nossa peça fala disso.

Hugo Bonemer: Nem a gente vive esse caminho o tempo todo…

Daniel Rocha: Não vive! E tem gente que não vive nunca! (empolgado) Desde criança somos criados para acertarmos tudo nas provas, passarmos bem de ano, lutarmos para ter um apartamento aos 30 anos… (pausa) A sociedade aponta esse caminho como o único caminho aceitável para sermos verdadeiros vencedores, enquanto outros caminhos não são bem aceitos. As pessoas que passam longe disso não valem muito. (sério) Fazemos essa peça para mostrar que existem diversas maneiras de sermos vencedores e que os caminhos que nos levam podem ser igualmente interessantes.

Hugo Bonemer: Não existe um caminho certo.

Vocês têm esse pensamento hoje, mas imagino que não tinham essa consciência quando começaram, certo?

Daniel Rocha: Não, acho que foi se formando…

Acham que essa percepção veio pela criação que vocês tiveram ou veio conforme a carreira de vocês foi tomando a proporção que tem hoje? Conseguem reconhecer o momento que essa responsabilidade começou a ser levada em conta?

Hugo Bonemer: Acho que é um pensamento mundial, não só nosso. Tenho a sensação de que em algum momento alguém acendeu uma luz, sabe? Alguma coisa aconteceu que de repente… (pausa) Pode ter uma ligação com os atentados de ódio no mundo, que sempre aconteceram, mas que agora a gente fica sabendo muito rápido. Talvez desde os atentados de 11 de setembro ficamos mais atentos ao fato de que a qualquer momento alguém pode pegar uma metralhadora e entrar em um lugar e atirar em todo mundo.

Daniel Rocha: São extremos que…

Hugo Bonemer: Sabe uma coisa que eu não lembrava? Esse shopping já teve um ataque*!

Daniel Rocha: Já! No cinema nos anos 90, eu era criança…

Hugo Bonemer: …e nós falamos na peça justamente sobre uma pessoa que pega uma arma, entra em um lugar e atira em todo mundo. Doido a gente estrear nesse shopping.

*Em 03 de novembro de 1999, Mateus da Costa Meira entrou com uma submetralhadora portátil em uma das salas de cinema do MorumbiShopping, em São Paulo. Durante a exibição do filme “Clube da Luta”, o ex-estudante de medicina atirou contra o público de cerca de trinta pessoas. Mateus foi condenado a 120 anos de prisão pelo assassinato de três pessoas. A pena foi reduzida para 48 anos após constatarem insanidade mental do criminoso.

Daniel Rocha: Eu vim de uma família tradicional, o Hugo pelo menos veio de uma família onde a mãe dele era artista. Meu pai foi militar e por mais que incentivasse a arte dentro de casa, ele não teve um pai que incentivasse na vida dele. Tive uma cultura diferente quando eu era criança. Quando fui me descobrindo ator, descobrindo que eu queria ser ator e viver como artista, fui mudando meu pensamento. Engraçado que quando uma pessoa muda o modo de ver o mundo, vai mudando o pensamento da família junto. As pessoas vão te seguindo, porque é um modo de viver a vida um pouco mais aberto e feliz, quase religioso! (risos) Acho que era isso que Jesus queria! (risos)

Hugo Bonemer: Com a responsabilidade, o humor muda de lugar. O que você achava engraçado de repente não tem nada a ver. Naturalmente, há um momento onde tudo fica sem graça e aí você vai descobrindo o que realmente é engraçado. Na peça, ainda estamos tentando descobrir, ainda não sabemos.

Daniel Rocha: Não sabemos. Todo dia tudo é novo para nós, dependemos das pessoas que estão sentadas na plateia. Às vezes as pessoas riem de algumas coisas que a gente não está esperando, mas elas se identificaram de alguma maneira com aquilo e acharam engraçado, o que é muito bom!

Hugo Bonemer: Cada público vê o humor de uma maneira diferente. Uma coisa que percebo é que existe uma maneira de interpretar, onde você sugere para a plateia que o que você vai falar é para dar risada. Ontem experimentei não fazer isso e foi muito frustrante para mim, porque há lugares em que me sinto recompensado pela risada do público e a plateia não respondeu. Ao mesmo tempo, foi interessante ter experimentado. O momento em que mais acontece isso é durante a cena do trânsito.

Daniel Rocha: A cena do trânsito é a mais engraçada, porque é onde o pessoal mais se identifica, principalmente em São Paulo. Vivemos um trânsito caótico aqui e, às vezes, somos verdadeiros monstros, pessoas horríveis. Nos transformamos nas piores pessoas do mundo no trânsito e é exatamente o que a gente retrata na peça. Duas pessoas que podem ser as piores pessoas do mundo, com problemas e necessidades pessoais, e como elas conseguem ser a mesma pessoa no momento de ódio, ter a mesma reação. Aí a gente vê como somos parecidos com o outro.

O que vocês reconhecem um no outro que destacariam como motivo para essa parceria dar certo, já que vocês trabalharam juntos diversas vezes?

Hugo Bonemer: A gente gosta de chocolate…

Daniel Rocha: …branco! (risos)

Hugo Bonemer: E da lasanha de berinjela do Paris 6! (risos) Acho que o Daniel e eu temos coisas em comum especialmente em relação ao que a gente não quer fazer. O restante nós fomos descobrindo naturalmente. Conheci o Daniel há dez anos em um grupo de teatro aqui em São Paulo. (pausa) Quantos anos você tem mesmo?

Daniel Rocha: 26.

Hugo Bonemer: Temos uma diferença de quatro anos. Nos conhecemos nesse grupo e um tempo depois nos reencontramos na televisão. Nossas carreiras se encontraram em uma novela que fizemos juntos. O personagem que o Daniel fez em “Avenida Brasil” era um papel que eu estava cotado para fazer pelo autor na época…

Daniel Rocha: …mas eu acabei fazendo…

Hugo Bonemer: …depois o Daniel faria a primeira fase de “A Lei do Amor”, mas o personagem dele bombou em outra novela e ele não pode fazer…

Daniel Rocha: …meu personagem em “Totalmente Demais”, na época.

Hugo Bonemer: Aí me ligaram para fazer o mesmo personagem e ele entrou na segunda fase. Brincamos que vivemos nos encontrando em teste, mas não é verdade. (risos)

Daniel Rocha: Nunca nos encontramos em teste! (risos) Até porque não temos o mesmo perfil. Podemos até nos parecer, mas no jeito de interpretar as pessoas entenderam que é totalmente diferente. Demoraram para entender, mas entenderam. Aconteceu uma coisa muito legal durante a divisão de personagens da peça. Tiveram cenas que o Hugo leu e eu faço e outras que eu li e o Hugo faz. O diretor provavelmente enxergou que, embora o Hugo fizesse melhor, me desafiava mais como ator em outro sentido, o que foi ótimo!

Hugo Bonemer: Em resumo, acho que sabemos o que a gente não quer.

Daniel Rocha: Você já falou o que você vai fazer depois ou não pode falar?

Hugo Bonemer: Pode! (risos) Vou fazer um musical sobre o Ayrton Senna.

Então vocês não vão viajar com a peça?

Daniel Rocha: Vamos fazer Florianópolis.

Hugo Bonemer: Foi a última viagem que conseguimos manter, mas ficaríamos com a temporada em São Paulo até o final do ano. O Daniel tem um projeto de televisão e eu o musical do Ayrton Senna.

Daniel Rocha: Decidimos remontar a peça ano que vem. Eu gravo em outubro e novembro, o Hugo estreia em novembro…

Você já está ensaiando o musical?

Hugo Bonemer: Vai ser diferente de qualquer coisa que eu tenha feito, porque nunca interpretei uma figura tão potente. Estou desesperado. Acho que nada é suficiente para contar essa história. As músicas não chegam lá, o texto não chega lá, o ator não chega lá… (risos) Preciso entender qual é o lugar de homenagear sem imitar, de homenagear sem agredir o fã, como deixar claro que estamos juntos homenageando ele e não que o público está me homenageando. Preciso achar essa delicadeza na hora de fazer as cenas.

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(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

“Frames” está em cartaz no Teatro MorumbiShopping (Av. Roque Petroni Jr., 1089 – Jardim das Acácias) em São Paulo, às sextas (21h), sábados (21h) e domingos (19h). As entradas custam de R$30,00 (meia) a R$60,00 (inteira) e podem ser encontradas através do site oficial do Ingresso Rápido. Até 24 de setembro. Em 12 de outubro, o espetáculo fará única apresentação no Teatro Ademir Rosa, em Florianópolis. Informações serão disponibilizadas no site oficial da Blue Ticket. “Frames” tem classificação indicativa para maiores de 14 anos e duração de 60 minutos. Estrela1 Estrela1 Estrela1