“De Volta Para o Futuro”: o passado que mudou a história do cinema

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Produzido por Steven Spielberg, a primeira parte do filme “De Volta Para o Futuro” chegou aos cinemas de todo o mundo em 1985, decidido a revolucionar a Sétima Arte. Conseguiu. Em uma série de reportagens especiais, o Setor VIP relembrará a trilogia que completa 30 anos em 2015.

“DE VOLTA PARA O FUTURO – PARTE I”

Foram gastos US$19 milhões para produzir o primeiro longa-metragem da trilogia, que rendeu quase US$400 milhões para Spielberg e para a Universal Pictures. O roteiro escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale demorou cinco anos para ser finalizado da forma que o público conhece e, muito antes de chegar às mãos da Universal, a história foi negada por todos os outros estúdios norte-americanos, inclusive pela Disney, que achou o filme forte demais para a família, destacando a paixão da mãe do personagem principal, que no filme não sabe se tratar de seu próprio filho no futuro. Em uma época em que as comédias ácidas adolescentes estavam em alta, os demais estúdios acharam “De Volta” fraco demais.

Com 17 anos, Marty McFly mora em um simples condomínio de casas chamado Lyon Estates, em Hill Valley. Atendendo um pedido do amigo Dr. Emmett Brown, o garoto o encontra no estacionamento do Twin Pines Mall. Ao revelar a construção de uma máquina do tempo, “Doc” é assassinado e McFly foge do dia 26 de outubro de 1985, para o dia 05 de novembro de 1955. Ao tentar retornar para o ano em que vive, o garoto se atrapalha e interrompe o rumo da vida de seus pais. Antes de voltar, o jovem precisa arrumar a confusão ou ele não existirá no futuro.

Algumas modificações no roteiro foram feitas durante o processo criativo. No original, a famosa máquina do tempo no formato de um DeLorean modelo DMC-12, seria um refrigerador. Pensando na criatividade do público infantil, os roteiristas decidiram mudar a escolha, com medo das crianças se trancarem intencionalmente nas geladeiras. A mudança possibilitou uma maior credibilidade à piada da família de fazendeiros que confunde o carro com um disco voador, quando vêem a porta abrindo para cima e tornou muito mais fácil a montagem das cenas das viagens no tempo.

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John Lithgow (da série “Dexter”) foi convidado para interpretar o Dr. Emmett Brown. Com a indisponibilidade do ator, o texto chegou às mãos de Christopher Lloyd que recusou o papel. Sua esposa no período, Kay Tornborg, o convenceu a voltar atrás em sua decisão e dar vida ao carismático “Doc”. Comprometido com a série “Family Ties”*, o ator Michael J. Fox não pode aceitar o convite para interpretar o papel do jovem Marty McFly. Na época, a atriz Meredith Baxter estava de licença maternidade e o produtor Gary David Goldberg não autorizou dividir a agenda de Fox. O ator Eric Stoltz (de “Jerry Maguire” e “Efeito Borboleta”) entrou às pressas no elenco e, após quatro semanas de filmagens e um terço do filme rodado, a equipe decidiu, em conjunto com o inseguro Stoltz, que o papel não era para o artista. Com Baxter de volta à série, Fox estava liberado para o filme. A refilmagem adicionou US$3 milhões ao orçamento inicial de US$14 milhões.

*”Family Ties” ficou conhecida na televisão brasileira como “Caras & Caretas” (Rede Globo). Nos Estados Unidos, a série teve sete temporadas e durou de 1982 a 1989. Por anos foi considerada uma das maiores audiências americanas. Michael J. Fox interpretava o papel principal, Alex P. Keaton.

Com as filmagens finalizadas, a edição cortou quase dez minutos de imagens, incluindo cenas em que McFly vê sua mãe colando em uma prova e seu pai preso em uma cabine telefônica. No roteiro original, a cena que Marty aterroriza George McFly (Crispin Glover) fingindo ser um extra-terrestre chamado Darth Vader (o primeiro filme da franquia “Star Wars” foi lançado em 1977 e na cena o personagem está em 1955) era mais longa do que no resultado final. O mais surpreendente é que, por pouco, a sequência onde Marty toca guitarra e canta a canção “Johnny B. Goode” no baile “Encantamento do Fundo do Mar”, não foi cortada. A cena tornou-se um clássico da história do cinema. A música original de Chuck Berry não foi interpretada por Fox no filme, apenas dublada. O ator teve aulas de guitarra com o músico Paul Hanson para dar veracidade à cena, mas o número foi cantado por Mark Campbell e tocado por Tim May.

Para marcar as épocas, dezenas de marcas famosas aparecem no longa-metragem como Miller (1855), Pepsi (1893), J. C. Penney (1902), Texaco (1903), All Star (1917), Panasonic (1918), JVC (1927), Toyota (1933), Burger King (1954), Calvin Klein (1968) e Nike (1971). O próprio DeLorean começou a ser produzido em 1981, causando um desconforto justificável na população americana de 1955. Além dos produtos, diversos diálogos são responsáveis por alfinetadas leves e piadas que podem passar despercebidas. Muitas delas, acertos dos roteiristas que, até onde se sabe, não podiam prever o futuro. “A moça que liga para um rapaz está procurando encrenca”, diz Linda McFly (Wendie Jo Sperber), a mãe de Lorraine (Lea Thompson), quando a filha ainda é jovem. Em outra conversa afirma que Marty “está brincando, ninguém tem duas televisões”, ao ouvir o rapaz falando sobre o eletrodoméstico. Na lanchonete discute-se a “improvável” vitória de um político negro e a inacreditável eleição de Ronald Reagan. “O ator?”, questiona-se. Além de tocar no baile a música de Chuck Berry – que iniciou sua carreira um ano depois, mas lançou “Johnny B. Goode” apenas em 1958 -, o personagem de Marty coloca para o pai ouvir a banda Van Halen, de 1974. Cheio de referências, “De Volta Para o Futuro” tornou-se uma enciclopédia com o passar dos anos, pois destaca parte da história americana, o crescimento do rock ‘n’ roll e a ascensão dos adolescentes como um importante elemento cultural dos anos 50.

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Ganhador de um Oscar e indicado em várias categorias no BAFTA e no Globo de Ouro – incluindo Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator (Michael J. Fox) e Melhor Canção Original (“The Power of Love”), “De Volta” tornou-se um ícone do cinema. O longa-metragem está na lista dos melhores filmes do mundo em organizações importantes como o The New York Times, a National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, o Writers Guild of America e o American Film Institute.

Para comemorar o 30º aniversário de “De Volta Para o Futuro”, os roteiristas estão trabalhando em um musical que será lançado em Londres sob o título original “Back to the Future”. As canções do filme e as dezenas de referências estarão presentes no palco em meio a canções inéditas e efeitos ainda mais modernos do que vistos anteriormente. O personagem mais aguardado? O inesquecível cachorro Einstein. Vemos vocês daqui 30 anos.