Débora Falabella: “Minha profissão é extremamente libertadora”

Aos 37 anos, Débora Falabella alcançou um dos postos mais disputados pelas recentes gerações. A mineira, nascida em Belo Horizonte, é uma das mais competentes atrizes da atualidade. Filha do ator Rogério Falabella e da cantora Maria Olympia, Débora sempre esteve cercada pela arte. Irmã da atriz Cynthia Falabella e esposa de Murilo Benício, a artista é mãe de Nina, de sete anos, fruto de seu relacionamento com Eduardo Hypolitho, vocalista da banda Forgotten Boys.

Curiosamente, a menina tem o nome de um de seus mais populares personagens. Com a Nina, de “Avenida Brasil” (2012), Débora conquistou o público brasileiro em sua totalidade. Não há quem discorde de seu talento. Mesmo que a atriz o tenha demonstrado anteriormente em trabalhos como “O Clone” (2001), “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) e “Senhora do Destino” (2004), foi ao lado de Adriana Esteves, com texto de João Emanuel Carneiro, que o país parou – literalmente – para vê-la.

De lá para cá, a mineira teve destaque na televisão em “Dupla Identidade” (2014), e nas peças “Contrações” (2013) e “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” (2015). O teatro é uma das paixões de sua profissão. E foi entre as sessões da curtíssima temporada de “Mantenha Fora do Alcance do Bebê”, em cartaz no Teatro Porto Seguro, em São Paulo, que a atriz respondeu com exclusividade às perguntas do Setor VIP. Durante o bate-papo, Débora Falabella transmite seriedade e a responsabilidade com que exerce seus compromissos profissionais.

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(Foto: Claus Lehmann)

(Foto: Claus Lehmann)

Setor VIP: “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” é uma peça difícil de falar sobre, pois é um texto curto e qualquer informação pode entregar o espetáculo, mas o que mais te atraiu no espetáculo?
Débora Falabella: Essa é a primeira peça que faço fora da minha companhia, que é o Grupo 3. O que me atraiu nesse projeto foi o texto, que é um texto contemporâneo, de uma autora nova, que me interessa muito, que é a Silvia Gomez, e é um texto que eu já conhecia. E a vontade também de trabalhar com um diretor novo chamado Eric Lenat, daqui de São Paulo, que eu também acho muito interessante. Era um texto que me instigava, que me dava vontade de dizer.

Porque começar uma nova peça enquanto ainda estava em cartaz com “Contrações”?
Comecei o processo dessa peça quando eu já estava em cartaz com “Contrações” já devia ter quase dois anos, então não criei junto com “Contrações”. Depois fiquei em cartaz com os dois, teve esse momento, mas não que eu tenha feito ao mesmo tempo que “Contrações”. Isso às vezes acontece, faço muito teatro, às vezes fico em cartaz com espetáculos da própria companhia e com espetáculo novo, mas não tem nenhum tipo de problema, ou de influência, ou confusão entre os textos.

Você consegue reconhecer pontos em comum com “Contrações”? E, para você, qual é a principal diferença entre as peças, que faz você continuar com ambas?
O “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” tem muitos pontos em comum com “Contrações”, mas ao mesmo tempo eles são bem diferentes. Eles são parecidos, porque são dois textos contemporâneos, são textos que falam do mundo que a gente vive agora. “Contrações” é muito mais relacionado a esse mundo capitalista que a gente vive e que é muito ligado ao dinheiro, e eles se passam em um ambiente corporativo, dentro de uma empresa. Fala um pouco dessa relação de dominação. E o “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” talvez seja um espetáculo que fala um pouco mais da gente de uma forma mais profunda, como nós vivemos nesse mundo hoje? O que a gente tem que provar para as pessoas, para a sociedade, para nós mesmos? Qual foi a liberdade que a gente perdeu no mundo que foi ficando tão robotizado? Onde que a gente perdeu a nossa selvageria? Eu acho que fala um pouco disso. Então, os dois falam desse mundo contemporâneo que a gente vive, por isso que eles me interessam tanto.

Você parece possuir uma consciência grande em relação a como seu trabalho pode contribuir positivamente para a sociedade. Você sempre soube que poderia aproveitar o seu ofício para expor o que acha correto ou essa consciência surgiu em uma determinada época, após um determinado trabalho? Você percebe a real importância e como as montagens modificam o público e, a longo prazo, o mundo à nossa volta?
Acredito que a consciência em relação ao trabalho, e o que eu quero com ele, foi se instalando em mim. Acho que todo artista vai tomando conhecimento disso de acordo com o tempo, a partir do momento que você vai amadurecendo também. Às vezes, a gente começa e não tem essa consciência e isso vai vindo depois, de uma forma muito natural. Eu acho que é muito gratificante entrar em um palco, fazer um espetáculo e conseguir que esse espetáculo atinja alguém, que essa pessoa saia pensando nesse espetáculo. Comigo foi assim, tanto no cinema, quanto no teatro, quanto na TV. Tudo que eu assisti e que me tocou de alguma maneira eu guardo até hoje e isso é importante para a minha vida, não só relacionado ao meu trabalho, mas relacionado à minha vida pessoal e aos meus valores. Então, acho muito importante a mensagem que passamos com um projeto, acho muito gratificante e acho que é uma troca mesmo do público com o artista e isso falando em todos os sentidos, seja essa troca através da consciência, através do riso, através da diversão, do entretenimento ou do fazer pensar.

A mensagem que a peça passa é um fator decisivo na hora de escolher o texto?
A mensagem que a peça vai passar não chega a ser um fator determinante na hora em que escolho o texto. Para essa escolha acontecer, eu tenho que ler o texto e ele tem que me atingir de alguma forma, tem que me afetar, tem que me tocar, porque só assim eu acho que a gente consegue transmitir para o público o que a gente também sente, senão ele pode ser um texto que diga coisas incríveis e importantes, mas que não me toquem e eu não saiba dizer aquilo. Acho que existe uma sinceridade do artista também em relação a isso.

Você começou cedo e acabou formando o seu caráter enquanto formava sua carreira…
Não comecei tão cedo assim. Comecei fazendo teatro nova, mas não era profissional, era na escola, mas mesmo assim não era tão nova, nunca trabalhei quando era criança. Comecei com meus 16 anos a fazer teatro profissional e fui trabalhar na televisão já com 19, 20 anos, que é a idade geralmente que as pessoas começam a sair de casa, começam a estudar e trabalhar. Então, acho que foi uma idade boa de começar, uma idade onde eu tive tempo para tudo.

Qual a importância da sua família durante o seu crescimento pessoal e profissional, para que você se tornasse quem você se tornou? Há algo que sua família tenha te dito e você carregue como lição até hoje?
Tenho uma influência muito grande da minha família, contando que minha família toda é relacionada ao teatro. A minha mãe é música e cantou muitos anos em um coral lírico, meu pai é ator e diretor, e hoje em dia ele escreve também, é dramaturgo. Então cresci nas coxias dos teatros, vendo a minha mãe nas óperas e meu pai no teatro. Tenho uma irmã atriz também, que começou antes de mim e foi uma grande influência para mim. Fora a convivência com os amigos em Belo Horizonte, os amigos do meu pai, as pessoas com quem eu convivi, que também eram muito ligadas ao teatro. Não sei se isso fez com que eu procurasse essa profissão, talvez um pouco, mas a princípio eu tentei até cursar Publicidade e Propaganda, e depois descobri que não tinha muito a ver comigo e naturalmente fui para o teatro. Então, isso aconteceu muito por influência da minha família sim. A família é uma influência muito grande na minha vida.

Você deve ter muitas lembranças, de grandes momentos vividos em seus trabalhos. Pode citar alguns que, quando você pensa, se lembra com carinho, se emociona ou conclui que qualquer esforço tenha valido a pena?
É claro que eu tenho muitas lembranças boas e continuo tendo, espero ainda ter muitas relacionadas ao meu trabalho, desde as pessoas que me param nas ruas para falar de algum trabalho que viram. Eu lembro que quando fiz “O Clone”, que era um trabalho muito forte na época, muitas pessoas me paravam para falar sobre a personagem e, muitas vezes, se identificavam e diziam também sobre os seus problemas. Isso era muito interessante, muito forte.

Há pouco tempo a gente fez um programa de ensaios no interior de São Paulo. Eram apresentações gratuitas onde a gente ensaiava o espetáculo que a gente ia apresentar. Uma espécie de ensaio aberto ao público. As pessoas assistiam, podiam ver como era realmente um ensaio e um processo de criação de uma peça, e foi uma das experiências mais interessantes para mim. Depois de cada apresentação, de cada ensaio, a gente tinha uma conversa com o público e esse público dizia o que achava do espetáculo, tirava dúvidas, e isso contribuiu muito para a montagem do espetáculo, porque a gente ensaiou com o público, foi algo que eu nunca tinha feito na minha vida, e a troca com o público, o que ele dizia, como reagia ao texto, tudo foi importantíssimo para depois esse espetáculo ser montado da maneira como ele foi.

Você gosta de viajar?
Eu gosto muito de viajar. Principalmente pelo Brasil.

Quais os seus lugares preferidos no Brasil?
Um lugar que eu já fui muito, que eu adoro ir e que eu amo, é o Recife. Eu fui filmar em Recife, já participei de festivais, já fui com o teatro e acabei de ir há pouquíssimo tempo. Acho que é uma cidade culturalmente muito rica e ao mesmo tempo muito interessante, acho uma cidade linda, que eu adoro. E a Amazônia, que eu fui agora há pouco tempo também com a minha filha. Fui de férias, não conhecia, nunca tinha tido esse contato, fui pra Nuivarão, que é um lugar muito impressionante. Uma coisa que eu indico ir é na época da cheia e fazer as viagens ali de barco pelas florestas inundadas. Foi uma das coisas mais lindas que eu já vi. E claro que no mundo também adoro viajar.

Sonha conhecer algum lugar específico?
Eu tive a oportunidade agora de conhecer a Índia, foi muito impressionante. Tem lugares que eu amo voltar sempre, que são lugares que fazem parte da minha vida, que eu também já trabalhei, que é Nova York. Eu já tive oportunidade de fazer um filme lá e, para mim, isso foi muito marcante.

Há algo curioso que você goste muito de fazer em todo lugar que passa e que você aconselharia a fazer em seus lugares favoritos?
O que eu mais gosto de fazer quando viajo é andar sem nenhum tipo de guia e sem ter que cumprir qualquer passeio turístico, pegar pelo menos um ou dois dias e ir andando pelas ruas e me perder pela cidade, eu acho que é o mais interessante a se fazer em um lugar que você não conhece.

Você lê muito? É do tipo que pesquisa peças e autores para montar?
Eu leio bastante, gosto de pesquisar peças que não conheço. Isso, inclusive, é um trabalho que a gente faz na companhia, a gente não para de fazer esse trabalho, estamos sempre à procura de espetáculos. Claro que tem muita coisa que eu gostaria de montar, muitos textos clássicos, eu nunca fiz nenhum Shakespeare, por exemplo. Mas eu tenho me interessado muito por autores contemporâneos bons. Eu acho que por ter feito dois espetáculos recentes que falam sobre o agora, sobre o mundo que a gente vive hoje, isso tudo é muito potente. Então eu tenho me interessado muito por textos de autores contemporâneos.

Quais os benefícios que trabalhar com o que ama traz para a sua vida? Você está satisfeita com a sua carreira? Sonha em trabalhar até velhinha ou tem planos de parar?
O que posso dizer é que eu realmente amo fazer o que eu faço. Eu acho que não conseguiria trabalhar com outra coisa, isso está muito dentro de mim, faz parte mesmo da minha vida. É uma profissão que anda lado a lado com a minha vida, não tem muito como separar. E eu acho a profissão do ator extremamente libertadora para o ser humano e é isso que me faz continuar. Estou muito satisfeita com as minhas escolhas até hoje e quero trabalhar até o fim da minha vida se eu puder, se eu conseguir e se tiver saúde pra isso.

(Foto: Claus Lehmann)

(Foto: Claus Lehmann)

O espetáculo “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” está em cartaz no Teatro Porto Seguro (Alameda Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos), em São Paulo, às quartas e às quintas-feiras, às 21h. Os ingressos custam de R$ 20,00 (meia) a R$60,00 (inteira) e podem ser comprados através do Ingresso Rápido. A peça tem duração de 60 minutos e classificação indicativa de 14 anos. Até 15 de setembro.