Deborah Evelyn: “Produzir o próprio espetáculo é um grande sonho”

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Minutos antes do horário marcado para a entrevista, Deborah Evelyn aparece no saguão do Teatro Vivo, em São Paulo. No colo, a filha de uma admiradora que recebeu nome e sobrenome em homenagem à atriz. Fotos e autógrafos depois, a carioca – que não disfarça o gracioso sotaque e nos cumprimenta com dois beijos – recebe o Setor VIP com exclusividade em seu camarim para uma conversa, seguida por uma rápida sessão de fotos. Deborah chegou pronta. Tanto para a entrevista, como para o ensaio.

“O que vocês querem fazer? Como vocês preferem?”, pergunta antes de decidirmos começar pelo bate-papo. Extremamente agradável e visivelmente preocupada em deixar a equipe à vontade, a atriz se mostra diferente de sua personagem em “Estranhos.com” que, entre características mais profundas, é uma mulher desconectada das novidades tecnológicas do mundo. “Deixa eu ver se é a mesma coisa que eu tenho!”, diz enquanto procura uma informação na caixa de entrada de seu e-mail. Pelo celular, manda um áudio para um dos grupos que participa no Whatsapp. “Por favor, me reenviem aquele e-mail da Laura e do Johnny…”, solicita enquanto debatemos informações que saíram sobre o espetáculo na internet.

Deborah estreou na minissérie “Moinhos de Vento” (1983), de Walter Avancini, ao lado de estrelas como Carlos Augusto Strazzer, Renée de Vielmond e Raul Cortez. Contratada pela Rede Globo desde o início, a atriz reúne inúmeros papéis importantes na televisão como as recentes Beatriz, de “Celebridade” (2003); Judith, de “Caras & Bocas” (2009); e Kiki, de “A Regra do Jogo” (2015). No teatro, esteve em clássicos como “O Mercador de Veneza” (1996), de William Shakespeare; “As Três Irmãs” (1998) e “O Jardim das Cerejeiras” (2008), de Anton Tchekhov; além da premiada “Baque” (2005), de Neil LaBute; e da bem-sucedida “Hora Amarela” (2015), de Adam Rapp. Com “Baque”, Deborah Evelyn conquistou o Prêmio Shell de Melhor Atriz. Em quase 35 anos de carreira, a artista pôde ser vista no teatro, no cinema ou na televisão todos os anos, sem pular nenhum.

Alguém duvida do seu talento, do seu merecimento ou da sua dedicação?

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Você assistiu alguma das versões internacionais de “Estranhos.com”?
Assisti em Nova York.

Foi esse o seu primeiro contato com o texto?
Foi. Eu vejo muito teatro quando viajo, é um programa que gosto de fazer. Quase todas as produções que fiz na minha vida, fora os clássicos como Tchekhov e Shakespeare, fiz de peças que vi e gostei. Obviamente, não é tudo que vejo, que produzo. Também não vou ver só coisas que eu ache que eu possa produzir. Dessa vez, fui para Nova York para ver a Cate Blanchett fazendo “The Maids”. Tinha pouquíssimos dias e resolvi assistir “Sex with Strangers”. Gostei muito. Achei que era uma peça que se comunicava muito com o público e falava de coisas muito importantes, muito atuais, muito interessantes. Eu me empolguei e vi como o público se empolgou. Ali eu tive a ideia de produzir. Aí a Mônica (Torres) entrou junto e resolvemos fazer. Compramos os direitos da peça diretamente da Laura (Eason), porque ela não tinha nenhum representante, nenhum intermediador no Brasil.

Qual a melhor parte em produzir o próprio espetáculo?
A melhor parte é que você escolhe com quem você quer trabalhar. Do diretor ao colega de palco, do sonoplasta ao contrarregra. Você escolhe todo mundo! Isso é um sonho!

E a pior parte?
Acho que a pior parte é que nós lidamos com problemas o dia inteiro e depois precisamos ensaiar ou fazer a peça, entendeu? Na hora de fazer é mais tranquilo, mas o ensaiar junto com o produzir é complicado. São muitos problemas e na hora que você chega para ensaiar você tem que desligar, se não você não consegue ensaiar direito. É bem complicado, mas sinto que as vantagens são maiores. Você escolhe o texto, você escolhe a equipe com quem vai trabalhar… isso é tão prazeroso! Isso é tão bom!

Você se identifica com sua personagem em algum ponto?
Com o fato dela ser mulher! (risos) Acho que me identifico em vários momentos, mas em vários outros não. Isso é o que eu acho mais interessante nesse texto. Quando assisti e durante os ensaios, várias vezes a gente tinha discussões como “não entendo porque ela fez isso, não entendo porque ele fez isso” e o público passa por isso também, porque é um texto que não deixa nada fechado, não mostra coisas certas e coisas erradas, você realmente vai ter a sua opinião, sobre várias coisas e em vários momentos. Outra coisa que achei interessante no texto, é que ele não apresenta um vilão e uma mocinha ou uma vilã e um mocinho. O jeito com que cada um reage é muito humano. Me identifico com ela como mulher, como profissional, como mulher que acha importante o seu trabalho, mas em vários momentos não, no sentido de que talvez eu agisse diferente dela, sabe? Mas ela é tridimensional. Ela não é só preto no branco. Isso é muito interessante!

Sua personagem julga o fato do personagem do Johnny Massaro publicar um livro contando suas experiências sexuais. Se fosse uma história real, você o julgaria da mesma forma que a Olivia?
Olha, a princípio não, mas eu não li o livro do Will Strange, né? (risos) Acho que a questão não é nem ele ter transado com várias pessoas, a questão é o que ele escreveu sobre, né? (imita sua personagem) “O jeito que você fala dessas meninas, eu não conheço esse cara! Você entra por essa porta e não é ele que eu vejo! Você humilhou essas meninas!”. Agora, ele justifica dizendo que elas sabiam, que ele avisava. “Elas iam atrás de mim muitas vezes, elas tinham o direito de falar e dar opinião!”. Então é complicado, né? A princípio não julgaria. Acho que cada um faz o que quiser, tanto do lado dele, como do lado delas. Por exemplo, acho que elas não foram obrigadas a transar e essa é uma das coisas que eu concordo mais com ele. (risos) Não que eu ache que o livro tenha uma qualidade literária! Isso eu realmente não acho, mas não acho errado o que ele fez.

Você citou algumas falas do texto. Há alguma parte favorita na peça? Essa pergunta pode se estender a uma peça do figurino ou do cenário…
Olha, acho linda a hora que o cenário vira a casa da Olivia! Uma coisa impressionante! Acho que o cenário é muito simples, mas que o (Marcelo) Escuñuela conseguiu, com a simplicidade, falar tudo. Gosto muito quando… (pensativa) quer dizer, cada caso é um caso, mas gosto muito quando o cenário não é realista, não tem uma cama, uma cadeira… quando o cenário fala mais por um outro canal. Realmente acho nosso cenário uma obra prima.

Estamos em um teatro onde o palco é pequeno e para mudar de cenário seria complicado, então ele teve essa solução e com a luz do Tomas (Ribas) toma uma dimensão… é muito bonito! (empolgada) Eu nunca tinha visto de fora, mas o dia que eu pude ver, porque filmaram um pedaço, fiquei espantada! (imita)

É exatamente a reação que a plateia tem, porque a mudança é completamente inesperada. É muito impactante!
É mesmo muito impactante e também acho que ninguém espera! O Escuñuela teve soluções muito criativas e muito artísticas, sabe? Acho lindo aqueles cubos que se mexem! E com a luz junto, porque a luz é tudo, né? (sorri)

Como é trabalhar com o Johnny no teatro?
É um sonho, mas ele não gosta que eu fique elogiando muito! (risos) Já tinha trabalhado com ele em “A Regra do Jogo”, mas ele é… (pausa) ele une duas coisas incríveis: ele é muito jovem, tem 25 anos e essa energia do jovem, mas, ao mesmo tempo, como ator ele é tão maduro! No palco você percebe mais do que na televisão. Ele é muito maduro e, para uma peça como essa, eu precisava de um ator assim, porque somos só nós dois. Sabe o problema de fazer Hamlet? Para fazer Hamlet, tem que ser um ator muito jovem, mas, ao mesmo tempo, maduro. (pausa) Tudo bem, posso estar exagerando na comparação, mas o grande problema de “Hamlet” é esse, porque é difícil achar um ator muito jovem… (pausa)

Eu às vezes fico… (pensativa) passam essas coisas na minha cabeça. Agora está reprisando “A Gata Comeu”, que foi minha primeira novela, e aí os fã-clubes às vezes me mandam umas cenas e eu penso “ai meu Deus!”. (risos) Eu era mais jovem que ele, tinha 19 anos! A maturidade só vem com o fazer, mas ele tem isso, ele é incrível! Ele é muito bom ator e a gente se dá muito bem em cena. É delicioso trabalhar com ele! Realmente delicioso. Foi… (pausa) não foi uma surpresa porque eu o escolhi, mas o teatro é muito mais artesanal, então tem muito mais essa coisa do dia a dia, chega, maquia, passa cena, ensaia… toda sexta-feira a gente passa o texto antes, porque passamos a semana inteira sem fazer. E ele também gosta disso. São coisas que a gente se dá muito bem.

O Johnny faz parte de uma nova geração de atores que tem se destacado. Está de olho em alguém que você imagina que será algum dos nossos grandes atores no futuro?
Além dele? Tem o (Humberto) Carrão, que acho um ótimo ator, muito bom mesmo, inclusive em teatro. (pausa) Tem um ator maravilhoso aqui de São Paulo que se chama Thomas Huszar, também é dessa geração entre 20 e 30 anos. (pausa) E tem a Bruna Linzmeyer, que eu amo! (empolgada) Ela também fez “A Regra do Jogo” e foi minha filha na novela do Gilberto Braga, “Insensato Coração”. Tem muita gente!

Em “Estranhos.com”, os personagens debatem sobre tecnologia e literatura. Qual a sua relação com cada um?
Sou claramente muito mais ligada a literatura do que a tecnologia! Muito mais! (risos) Mas gosto de tecnologia. Não sou completamente desligada, mas não sou obcecada. Por exemplo, tenho um smartphone, que resolvi ter principalmente por causa das músicas. Achei incrível quando lançaram o iPod e eu poderia viajar com todas as minhas músicas sem precisar carregar meus CDs. Porém, não fiz essa mudança com os livros, ainda viajo com os meus sete livros. Um pouco como a Olivia! (empolgada) Mesmo vindo passar um final de semana no teatro, eu trago três livros: o que eu estou lendo e mais dois. Vai quê, né? (risos)

Acho muito interessante o canal para você conseguir descobrir coisas, além da comunicação. Por exemplo, minha filha morou cinco anos e meio na Alemanha, acabou de voltar para o Brasil. Nesses cinco anos e meio, não deixei de falar com ela nem um dia por causa do Whatsapp, porque é de graça e você não paga uma conta de telefone absurda… (imita) Então, por um lado, a tecnologia tem a possibilidade de aproximar muito as pessoas, embora tenha a de afastar, quando você vê duas pessoas em uma mesa em seus celulares, né? (imita) Acho um perigo para essas novas gerações que realmente se viciam a se comunicar só dessa maneira. É preciso um meio termo, como tudo na vida.

E quais são seus livros favoritos?
Ai, tem tantos! Sou louca por “Crime e Castigo”, de (Fiódor) Dostoiévski; “Cem Anos de Solidão”, por exemplo, de Gabriel García Márquez; amo “José e Seus Irmãos” e “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann; e amo muito, muito mesmo Eça de Queiroz. Posso ficar com esses? (risos)

É uma excelente seleção!
(Risos) É difícil escolher, né? São muitos! Vou completar com Valter Hugo Mãe, para falar um autor mais recente que também amo e tem algumas das obras mais lindas.

Na próxima semana vocês estreiam “Estranhos.com” no Rio de Janeiro para um novo público. Uma nova temporada é como se fosse um recomeço ou depois da estreia não há diferença?
Público tem diferença de dia para dia e não só de cidade para cidade. Para mim é uma continuação, porque o teatro tem diferença na mesma cidade, principalmente em São Paulo, que é uma cidade muito grande. Esse teatro tem um tipo de público, se você vai para o Tuca ou para um teatro no Bixiga é um outro tipo. No Rio de Janeiro também, um teatro no centro é uma coisa, vamos para o teatro do Shopping da Gávea ou do Shopping Leblon é outra coisa. Públicos diferentes estão no dia a dia do teatro. A continuidade é descontínua nesse sentido e esse é o grande barato: não ser todo dia igual. E não é todo dia igual porque nós não estamos todo dia iguais, não sei o que acontecerá no meu dia e que me influenciará no jeito que vou fazer hoje, nem com o Johnny e nem com cada um do publico, né? Esse é realmente o barato do teatro e sei que é difícil de entender. “Ah, mas você faz todo dia a mesma coisa”, dizem. Não, não é! O texto é o mesmo, mas fora isso, nada é igual. É incrível, é realmente genial! (sorri)

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(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

“Estranhos.com” tem estreia marcada para 19 de maio no Teatro das Artes (Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea), no Rio de Janeiro. O espetáculo terá sessões sextas (21h), sábados (21h) e domingos (20h). Os ingressos custam de R$25,00 (meia) a R$80,00 (inteira) e podem ser comprados através do Divertix. Inicialmente até 02 de julho. “Estranhos.com” é indicado para maiores de 14 anos e tem duração de 90 minutos.

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