Dedé Santana: “Me arrependo do tempo que não estive com ‘Os Trapalhões'”

(Foto: Divulgação)

A plateia está à meia-luz. As cento e quarenta poltronas estão vazias, mas serão todas ocupadas na sessão que começa em cerca de duas horas. Mesmo sendo segunda-feira, os ingressos estão esgotados. No palco, a iluminação criada por Domingos Quintiliano realça o cenário assinado por Marco Lima. O espaço está irreconhecível. Tablado, paredes e coxias não existem. “Palhaços” se passa no simplório ambiente que os artistas circenses usam para se arrumar e descansar entre as apresentações. Com direção de Alexandre Borges, o texto escrito pelo dramaturgo brasileiro Timochenco Wehbi (1943-1986) não surpreende a plateia pelo ineditismo, afinal, conta mais uma vez a história do espectador que visita um palhaço em seu camarim e que se desaponta ao tomar conhecimento da decadente realidade do artista.

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, “Palhaços” tem os ingressos de todas as sessões disputadíssimos. A qualidade do trabalho da equipe técnica – da direção à operação de luz e som – repara a escolha do texto e compensa a ida do público ao teatro. E não para por aí. O espetáculo traz no elenco um dos mais populares artistas do Brasil. Dedé Santana se apresenta em circos desde a infância, mas deu início à sua meteórica carreira ao lado de Renato Aragão no longa metragem “Na Onda do Iê-Iê-Iê” (1966). “Os Trapalhões” levou mais de cento e vinte milhões de espectadores aos cinemas. Didi, Dedé, Mussum (1941-1994) e Zacarias (1934-1990) marcaram principalmente os jovens das décadas de 70, 80 e 90.

Atrasado por conta do trânsito da capital paulista e pelo excesso de cuidados com a garganta (o artista havia acordado rouco pelo esforço nas sessões de sábado e domingo), Dedé se desculpa e explica que estará menos disposto do que de costume para conceder a entrevista. Conversa. Acompanhado por seu companheiro de cena Fioravante Almeida, o astro se dedicou por cerca de trinta minutos ao bate papo exclusivo com o Setor VIP. Antes de se sentar, Dedé Santana pede que o contra regra confira a posição dos inúmeros adereços de cena, explica que está participando de um documentário sobre a vida de Mussum e discute a impossibilidade de marcar mais compromissos em sua agenda completamente cheia. Entre muitos característicos “rapaz”, o humorista fala sobre “Palhaços” e suas experiências com “Os Trapalhões”.

(Foto: Divulgação)

Em “Palhaços”, ambos os personagens passam por situações que vocês devem ter passado na vida de vocês. Há alguma cena que retrate algum momento real ou que vocês se identifiquem de maneira mais pessoal?

Dedé Santana: Para mim é a cena que mostro a fotografia da minha família. Mostro meu irmão, minha mãe… essa é a cena que mais me emociona e a que eu mais me identifico.

Fioravante Almeida: A cena final, em que o palhaço dá um sacode no meu personagem. Sempre quis ser artista, fui muito parecido com meu personagem. Eu era um moleque do interior, sem muita noção de arte e tomei muito sacode do Antunes Filho e no Teatro Oficina para virar um artista. Reflito um pouco sobre minha carreira nesse trabalho, ser artista não é o que as pessoas imaginam. Não é só glamour e mulher boa, como diz o Dedé.

Dedé Santana: Não é só palhaçada e mulher boa! (corrige) Os caras pensam que como você é artista, vive de palhaçada e mulher boa! (risos) Acham que não temos conta para pagar, que não temos problemas amorosos… e não é assim!

Fioravante Almeida: Legal você perguntar, porque me faz pensar que talvez seja uma das partes da peça que eu mais goste. Tem uma hora que o personagem do Dedé fala que o mundo aqui dentro do circo…

Dedé Santana: …é pior do que o mundo lá fora. (completa)

Fioravante Almeida: Essa consciência do micro e do macro, de como a gente está sempre em uma situação limite para fazer arte, bate muito pra gente.

Dedé Santana: Eu passo uma situação na peça parecida com uma que passei na vida real. O personagem do Fioravante quer ser palhaço e viajar com o circo, uma situação real que acontece. Aos 17 anos, o Beto Carrero chegou querendo ser artista no circo do meu pai, queria ser um cowboy brasileiro. Lembro que meu pai falou que ele poderia ser vaqueiro ou boiadeiro, porque cowboy é americano. (risos) No fim, ele acabou sendo o cowboy brasileiro mesmo. (risos)

O circo acabou perdendo espaço no Brasil…

Dedé Santana: Bastante, principalmente com a retirada dos bichos. Os bichos eram um fascínio! (empolgado) Ainda mais quando o circo chegava nas cidades do interior e faziam desfiles com as jaulas com leões, elefantes… aquilo era uma festa! Hoje não tem mais isso, né?

Você acha que se o teatro ou a televisão investissem em artistas circenses, a arte se manteria viva?

Dedé Santana: Não, o circo é o circo. O circo tem uma magia única. Eu sei porque se vou fazer um show em uma cidade é uma coisa, se faço o mesmo show no circo é outra coisa. A tenda do circo é propaganda. Quando arma na cidade é um circo, né? (brinca) Só que eles foram perdendo espaço por falta de recursos financeiros, os artistas foram mudando para o Cirque du Soleil e para outras companhias… (pausa) Las Vegas tem não sei quantos brasileiros. O meio mais popular de arte no Brasil é o circo, que cobra R$10,00 de entrada. Com esse valor só nós no CCBB cobrando R$20,00! (risos) Ninguém aguenta ficar no Brasil. (pausa) Muita gente vem assistir a peça e me diz que nunca pensou que me veria tão pertinho… rapaz! (emocionado) Vem gente de todo lugar!

“Palhaços” mostra a decadência do artista. Vocês devem ter passado por momentos bastante difíceis na carreira. Já pensaram em mudar de foco frente às dificuldades?

Dedé Santana: Nunca pensei em desistir. Tentei fazer outras coisas, mas nunca larguei o circo. Quando meu pai nos trouxe para estudar em São Paulo, trabalhei como verdureiro, engraxate, ajudante de mecânico, cortador de camisa… fui carvoeiro, de carregar saco de carvão na cabeça, mas nunca desisti de ser artista. (sério) Meu grande sonho era ser piloto, mas eu não pude realizar porque precisava de muito dinheiro para bancar os estudos e nós não tínhamos condições. Era muito caro para ser piloto, então decidi ser artista. Queria ser diretor de cinema. Fui para o Rio de Janeiro, passei fome, dormi na praia, mas nunca desisti, sempre insisti. Nunca tive preguiça de trabalhar.

Não se arrependeu de não ter sido piloto, né?

Dedé Santana: Não! (risos) Fui para o Rio de Janeiro especificamente para fazer cinema e acabou que foi a última coisa que fiz. Graças à Deus foi um sucesso.

E fez muito! Não dá para reclamar, né?

Dedé Santana: Não! (risos) Acho que foram sessenta e dois filmes.

Fioravante Almeida: No meu caso, tive sorte. Nasci em São Paulo, mas fui para o interior. Voltei com o sonho de ser ator. Um dia soube de um curso com o Raul Teixeira, no Antunes Filho. De lá, caí no Teatro Oficina. Eu nem sabia o que significava. Estudei muito. Quando fui fazer “Os Sertões”, o Zé Celso me mandou ler “A Guerra do Fim do Mundo”, porque era mais fácil. Acabei lendo “Os Sertões” cinco vezes. Corri atrás porque não tinha preparação, sofri muito com isso, mas me esforcei para provar que era capaz. Fiquei 10 anos no Teatro Oficina, mas passamos por muitas dificuldades. Na época não existia Lei Rouanet. De repente, vendíamos uma peça para o Sesc e todo mundo pagava seus aluguéis. Sou um cara que vive de teatro e graças à Deus aprendi em um lugar muito especial como é a batalha de fazer teatro. Vou ficar triste em certos momentos, mas vou sempre lutar. (pausa) Como é aquela história do Mussum?

Dedé Santana: O Mussum dizia que queria ser bom comediante. Mesmo eu dizendo que era, o levei para uma escola. A escola foi fazer circo. Depois de uns meses falei que ele estava muito bom e ele respondeu “compadre, ninguém é bom naquilo que faz, a gente só tem tempo”. (risos)

Fioravante Almeida: Ou inventa o tempo! (risos)

Qual o trabalho mais marcante na carreira de vocês até agora?

Fioravante Almeida: “Palhaços”! (risos)

Dedé Santana: Com “Os Trapalhões” foi “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” (1987). Não acreditava que a gente pudesse fazer aquilo. O diretor Roberto Farias nos convenceu que éramos os próprios personagens. Quando vi o Mussum de Jesus Cristo, o Zacarias fazendo o padeiro e o Didi fazendo o João Grilo, o próprio cara do Nordeste… (pausa) Na cena final, ele levava uns tiros e morria nos meus braços. Fiquei tão impressionado com a cena que eu chorava de verdade. Foi marcante.

Depois de tanto tempo de carreira, você ainda tem dúvida de que seus projetos sejam sucesso de público?

Dedé Santana: Tenho, sempre tenho. (sério) Sempre dá uma friagem na garagem! (risos)

Fioravante Almeida: Nessa peça ele o Dedé teve medo porque não tem público de teatro. Trabalhei com a Eva Wilma, sabia que ele teria público só por seu histórico. O Dedé é uma pessoa mitológica, as pessoas viriam só por ele ser quem é. Ele fica preocupado todo dia!

Dedé Santana: Sempre pergunto como está a venda dos ingressos! (risos)

“Os Trapalhões” marcou pelo menos quatro gerações. Vocês são considerados artistas fundamentais da cultura popular brasileira. Como você vê o seu trabalho no grupo?

Dedé Santana: Agradeço muito à Deus por ter convivido no meio desses caras. Às vezes preciso parar e pensar para lembrar que sou um deles. Às vezes não me considerava um deles, eu era fã. Sempre fui fã do Mussum, ele era o rei do improviso! Eu que o levei para o grupo. O Zacarias era excepcional, um ator fora de série, e o Renato é muito engraçado! Às vezes, gravando uma cena, ficava assistindo eles e o diretor precisava me lembrar que eu estava em cena! (risos) Ficava assistindo… (emocionado) Agradeço à Deus por esses momentos que passei com eles. Às vezes, vendo alguma coisa que me mandam, penso que eu poderia ter sido mais agarrado com eles naquela época, poderia ter feito mais coisas… (emocionado) Me arrependo do tempo que eu pude estar com eles e não estive. Sinto muita falta. (sério)

O público te enxerga como parte fundamental do grupo, cada personagem tinha uma característica diferente…

Fioravante Almeida: Você era o esperto, sempre o que se dava bem…

Dedé Santana: Todo mundo diz que eu era o galã de “Os Trapalhões” e sempre respondo que é claro que eu era, os quatro eram tão feios, que eu era o melhorzinho! (risos) Quando voltei de Portugal, três ou quatro anos após a morte do Mussum, eu pegava uns vídeos para assistir e chorava. (emocionado) Minha filha entrava no quarto, me via chorando e falava para eu desligar a televisão. Eu tirava a fita, mas chorava lembrando deles… (pausa) Gostava muito deles. (pausa) O que sinto mais falta é da convivência. O Mussum brigava o tempo inteiro com o Didi. Um botava apelido no outro, era uma implicância! (risos) Quando o Renato começava a fazer piada em cima do Mussum, ele virava para mim e falava que se eu risse ele me daria uma porrada. (risos) “Ri, seu filho da puta, que eu lhe dou uma porrada. Ri das merdas que o cearense tá falando!” (risos) Eu ria de cair da cadeira! (risos) Me lembro de uma vez que estávamos no ônibus e o Renato olhava para fora e olhava para mim. O Mussum fingia que estava dormindo, mas falava “ri que te dou uma porrada, circense viado!” (risos) Estava doido para olhar para fora para saber o que que era, quando dei uma olhadinha estava cheio de urubu voando! (risos) Quando o ônibus parou, o Didi desceu primeiro gritou “Mussum, a rapaziada veio te dar boas vindas!” e saiu correndo. (risos) “Volta aqui, cearense filho da puta!” (risos) Eu ria muito com esses caras, se ficarmos conversando te conto mais um monte de histórias… (risos)

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(Foto: Divulgação)

“Palhaços” está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro), em São Paulo, sábados (20h), domingos (18h) e segundas (20h). As entradas custam de R$10,00 (meia) a R$20,00 (inteira) e podem ser adquiridas através do site oficial da Eventim. O espetáculo tem duração de 70 minutos e classificação indicativa para maiores de 12 anos. Em comemoração ao aniversário do Centro Cultural Banco do Brasil, as sessões dos dias 21, 22 e 23 de abril serão gratuitas. Até 07 de maio. Estrela1 Estrela1