Eva Wilma: “Não sou de televisão, teatro ou cinema: sou atriz”

Assistir ao espetáculo “Azul Resplendor” não é um prazer pelo simples fato de ser uma peça boa. Aliás, muito boa! É um prazer porque o texto do autor peruano Eduardo Adrianzén é engraçado e emocionante sem ser comum ou piegas. Um prazer também porque o cenário de André Cortez e o figurino de Simone Mina são modernos e se encaixam perfeitamente em cada ocasião. E um grande prazer pela impecável atuação de Luciana Brites, Felipe Guerra, Luciana Borghi, Dalton Vigh, Pedro Paulo Rangel e Eva Wilma. A última, uma das maiores damas da atuação nacional.

Foto de divulgação de "Azul Resplendor"

(Foto: Divulgação)

São mais de sessenta trabalhos na televisão, entre os principais estão “Alô, Doçura” (de 1954 a 1963), “Mulheres de Areia” (1973), “Malu Mulher” (1981), “Anos Rebeldes” (1992), “História de Amor” (1995), “A Indomada” (1997) e “Mulher” (de 1998 a 1999). No teatro, são quase trinta, como “Black-Out” (1967), “Querida Mamãe” (de 1994 a 1996) e “O Manifesto” (de 2007 a 2008). Além disso, são dezenas de filmes e mais de cinquenta prêmios durante 60 anos de carreira. Fôlego? Ela tem de sobra! “Realizo ‘Azul Resplendor’ com o mesmo entusiasmo de ‘Uma Mulher e Três Palhaços'”, fala sobre o primeiro trabalho como atriz nos palcos, apresentado no Teatro de Arena entre 1953 e 1954.

Não há como não ficar boquiaberto com seu talento. Aos 79 anos, Eva Wilma ainda surpreende no palco. Considerada uma das maiores estrelas de seu tempo, a personagem de Eva – achou que estávamos falando dela, né? -, Blanca Estela Ramírez, deixou os palcos no auge de sua carreira. Reclusa, vive só, até ter sua vida modificada por uma visita inesperada. Com seu impressionante monólogo no início do espetáculo até sua última fala no encerramento da entrevista, a atriz nos prova, com palavra por palavra, porque merece o sucesso que tem. “Não fica nervoso!”, disse Eva ao receber o Setor VIP em seu camarim: “Ela te deixará tranquilo muito rápido. É uma pessoa muito especial”, diz Adriana Monteiro, assessora do espetáculo. Não tínhamos dúvida e, se você a tem, tire suas conclusões após a matéria abaixo.

No camarim da peça "Azul Resplendor"

(Foto: Gustavo Lillo / Setor VIP)

Setor VIP: Além de ter uma carreira muito bem-sucedida, o que você tem da sua personagem?

Eva Wilma: Uma das coisas que existe em comum comigo é o texto, que contém a coisa que mais gosto: o humor crítico. A possibilidade da gente rir de nós mesmos. Outra coisa que existe em comum é que é a personagem mais difícil disso tudo, porque ela não faz muita dissertação sobre a profissão como todo mundo faz, ela tem as verdades dela e… vou falar para você uma coisa: é a terceira personagem que faço que anuncia que vai morrer no final (risos), eu não quero fazer mais nenhuma por enquanto, essa está de bom tamanho! A primeira foi em “Querida Mamãe”, da Maria Adelaide Amaral, que foi muito bom fazer junto com a Eliane Giardini e a segunda foi “O Manifesto”, junto com o Othon Bastos.

“O Manifesto” também estreou no Teatro Renaissance…

…estreou aqui e depois a gente correu. Fizemos o espetáculo no Rio de Janeiro e em várias outras capitais.

Qual a sensação de estar no palco após 60 anos de carreira? Se sente diferente?

Me sinto experiente. Me sinto bem e muito mais segura do que no começo. Nunca deixei de fazer o exercício teatral. Eu comecei no (Teatro de) Arena e fiquei durante dois anos. Aquilo é o exercício teatral ao vivo, não precisa ser nem no palco. Aprendi muito e nunca parei de voltar ao teatro. Faço questão de dizer, faço televisão porque aprendo com televisão, gosto e acho útil também porque te projeta no país todo e teu público vai mais ao teatro. Nunca deixei de esporadicamente voltar ao trabalho teatral que, para mim, é onde o ator evolui. Se você ficar muito tempo só na TV aberta, inevitavelmente você corre o risco de te rotularem.

Fazer o mesmo papel sempre…

…você dá certo em uma personagem e aí vai repetir a personagem. No cinema, quem realiza pra valer é o diretor, só que no trabalho teatral, embora você dependa da partitura que é o autor e do maestro que é o diretor, na hora do “vamos ver” o ator é absoluto em cena e é a grande escola onde você evolui, onde você tem a oportunidade de todas as noites mergulhar novamente em tudo aquilo que você estudou para realizar o personagem. Nunca é tudo igual.

Você deve receber inúmeros convites de trabalho. Como é a escolha do projeto que decide participar?

Geralmente eu produzi. No meu primeiro casamento quem produzia era o John Herbert (1929 — 2011, foram casados de 1955 até 1976), que fez grandes produções, inclusive um dos trabalhos mais bonitos que participei. Era uma peça em que eu interpretava uma cega. Trabalhei quatro vezes com o Antunes Filho, ele foi um dos meus principais mestres. No segundo casamento, casei com um engenheiro (Carlos Zara, 1930 — 2002, casou-se em 1977 até 2002) que entendia de tudo de produção e além do mais era um ator e um diretor e nós conseguimos fazer vários trabalhos de teatro durante dois anos. Inclusive consegui a façanha de fazer turnê teatral ao mesmo tempo em que gravava novela para a televisão.

Era complicado?

Era. Mas é aquela fase em que o jovem fala “ralei”, sabe? E eu ralei, mas só prazerosamente (risos).

Profissionalmente, falta algum sonho a ser realizado?

Quando a gente chega nessa fase da vida, a gente vive intensamente o dia de hoje, cada dia, intensamente. Quando esse texto me foi trazido pelo (Renato) Borghi, eu mergulhei e falei: “É esse!”. Eu estava com dois outros projetos em andamento, quando acabar esse daqui – que eu espero que dure bastante! – aí vou voltar aos outros projetos. Quando for chamada de novo para um trabalho na televisão eu vou analisar e vou querer fazer. E para o cinema também! Tenho a maior satisfação de ter participado do “Cidade Ameaçada” (1960) do Roberto Farias e do “São Paulo S/A” (1965) do (Luís Sérgio) Person. Então, sempre digo assim: “Eu não sou de televisão, de teatro ou de cinema, eu sou só atriz” e quero evoluir sempre, quero aprender sempre e quero ter principalmente sempre prazer em fazer o que eu estou fazendo. O reconhecimento do público que se manifesta, inclusive as pessoas mais simples, é muito bonito, é muito agradável, porque é para o público que a gente faz o trabalho.

Você sente saudade de algum personagem em específico?

Todos os que citei dão saudade! Da personagem do “São Paulo S/A”, da personagem cega do “Black-Out”, da personagem do “Querida Mamãe”, da personagem de “O Manifesto”… todos dos quais mergulhei intensamente para mim são inesquecíveis e esse que eu faço agora é resultado de todos eles.

Algum a ponto de querer remontar?

Tem um que penso em remontar, que é um dos projetos que eu estava… é um projeto de um autor que é quase de vanguarda e quem dirigiu foi um diretor que a gente chama de “Senhor Teatro” que é o Flávio Marinho, que já foi crítico e que atualmente é diretor. Um espetáculo que tenho certeza… (emocionada) é só achar o parceiro ideal.

Quais são as lembranças mais emocionantes de sua carreira?

O Teatro de Arena tem coisas muito emocionantes. Fomos fazer o espetáculo no Palácio da República para o então Presidente e foi aquele espetáculo que proporcionou ao curador conseguir a sede e é essa a sede que está lá até hoje do jeitinho que a gente inaugurou. Eu brinco que a gente bateu prego lá dentro (risos) e é um pouco verdade isso, sabe? A gente conseguiu aquele espaço e ele está preservado e ainda leva o nome de outro grande mestre que é o Eugenio Kusnet, também aprendi muito com ele*.

*Em 1954, o Teatro de Arena apresentou-se com a peça “Uma Mulher e Três Palhaços” para o Presidente da República, Café Filho, no Palácio do Catete no Rio de Janeiro e ganharam sua sede própria, preservada exatamente igual até hoje. Nos anos 2000, foi renomeado para “Teatro Funarte de Arena Eugenio Kusnet”. Eugenio (1898 – 1975) foi um importante ator, diretor e professor russo, radicado no Brasil.

Esses são momentos que se eu fosse te descrever… (emocionada) o que vivenciei na peça “Black-Out”, o que vivenciei em vários momentos da carreira, aí começo a te contar as turnês de quando eu ainda era bailarina, pelos teatros do Brasil inteirinho e que tive oportunidade de voltar várias vezes… são momentos inesquecíveis para mim.

A peça “Azul Resplendor” está em cartaz no Teatro Renaissance (Alameda Santos, 2233 – Jardim Paulista), em São Paulo, às sextas (21h30), aos sábados (21h) e aos domingos (18h). Os ingresso custam de R$ 40,00 (meia) a R$ 80,00 (inteira) e podem ser encontrados no Ingresso Rápido. Mais informações no site oficial do espetáculo.