Felipe Pezzoni: “Nunca sonhei com fama, sonhava em cair na estrada”

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

Faz sol em São Paulo. A temperatura lembra o clima do último trabalho da Banda Eva. “Sunset” (2015) foi gravado na capital paulista. “Foi o pôr do sol mais lindo que vi na minha vida”, confessa Felipe Pezzoni, atual vocalista do grupo. Depois de cantores como Ivete Sangalo, Emanuelle Araújo e Saulo Fernandes, o baiano comanda uma das mais marcantes bandas de axé do Brasil. Felipe recebeu o Setor VIP para um bate papo exclusivo, horas antes de subir ao palco. Com grande parte de suas tatuagens à mostra, vestindo uma camiseta listrada azul e branca e uma camisa amarrada na cintura da mesma tonalidade da calça jeans, o cantor se mostra uma pessoa simples e completamente pé no chão durante a quase uma hora de conversa.

Última apresentação antes de merecidas férias, a Banda Eva se apresentou no Clube Pinheiros, em São Paulo, em clima de carnaval. Relembrando grandes sucessos das diversas fases do grupo baiano, os músicos executaram canções como “Eva”, “Beleza Rara”, “Levada Louca”, “Alô, Paixão” e “Arerê”, da fase comandada por Ivete Sangalo; e “Não Me Conte Seus Problemas” e “Circulou”, do período com Saulo Fernandes. No show, Pezzoni interpretou músicas de outros artistas como “Sina” (Djavan), “Descobridor dos Sete Mares” (Tim Maia), “Não Vá Embora” (Marisa Monte), “Sou Praieiro” (Jammil e Uma Noites), “Amei Te Ver” (Tiago Iorc) e “Baile de Favela” (MC João), mostrando a diversidade da Banda Eva, uma das marcas registradas da música baiana e do carnaval de Salvador.

Antenado, o cantor transmitiu parte da entrevista através do Instagram Stories, ferramenta que permite o compartilhamento de imagens que ficam disponíveis por apenas 24 horas. Na rede social, o cantor possui cerca de 120 mil seguidores, bem diferente de seu antecessor, Saulo Fernandes, que possui quase 700 mil, e bem distante da mais famosa vocalista do grupo, Ivete Sangalo, que acumula mais de 15 milhões de pessoas somente no Instagram. “É um trabalho de formiguinha”, afirma em determinado momento, sem demonstrar qualquer descontentamento ou arrependimento com a profissão que escolheu. Pudera, o cantor é apaixonado pelo que faz e segue à risca uma das frases que dissemina nas apresentações ao lado da Banda Eva: “aproveita que a vida passa depressa”.

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

Qual foi o seu primeiro contato com música?
Meu pai curtia muito Djavan, então ouvia muito em casa. Depois veio a paixão pela percussão, meu pai tocava como hobby e em casa tinham muitos instrumentos. Desde muito novo demonstrei vocação para a música percussiva e com o passar dos anos a paixão foi aumentando. Com 13 anos, comecei a tocar em banda de amigos. Me lembro que na época teve um amigo secreto na escola e eu ganhei um CD da Banda Eva com a Ivete Sangalo. Nem tínhamos o toca CD, porque era algo muito atual, muito moderno na época. Tive que esperar meu pai comprar um som com toca CD para eu ouvir. Eu me apaixonei. Tocava todas as músicas na percussão, sabia de cor. É muito louco, mas muito legal. Foi uma referência percussiva muito boa para mim. Com 15 anos, comecei a cantar e não parei mais.

Seu pai chegou a ser músico profissional?
Não. Gostava, tocava direitinho, mas abandonou a música. Ele tocava em roda de amigos e alguns inclusive se profissionalizaram. Um foi para o Chiclete (com Banana), mas ele não. Ele teve filhos, precisou correr atrás do prejuízo e largou. Continuou como hobby.

Você sempre gostou de música baiana?
Quem nasce na Bahia recebe essa injeção de energia, de tudo que a música baiana representa. Então, como bom baiano, sempre amei axé e a música baiana, mas tive outras referências, como tenho hoje, e estou sempre na busca, pesquisando coisas novas. Além de me entreter, busco novas influências para poder agregar conhecimento no nosso trabalho, no nosso som.

E você pulava carnaval nos tempos de adolescência?
Sim, sempre curti muito! Vou roubar um samba: “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé”. Sempre me identifiquei com a música baiana. O axé é uma música tão contagiante, tão bacana… (reticente) Tem o bom axé e o axé que também não é muito legal… (pensativo) claro que você vai se identificar com uma banda ou outra e temos que respeitar.

Você fez parte de inúmeras bandas antes de entrar para o Eva. Em que seus trabalhos anteriores contribuíram para o desenvolvimento do atual?
Em absolutamente tudo. Cada projeto me serviu de aprendizado e eu pude absorver alguma coisa de interessante para a minha formação como pessoa e como profissional. Cantei todo tipo de música e cada banda me deu bagagem para eu poder me entender e entender o que eu queria propor musicalmente na minha carreira de uma forma geral. Todo segmento, qualquer música que você escute, tem alguma coisa positiva para acrescentar à sua luta, à sua personalidade.

Ficou com medo de entrar para a Banda Eva?
Pra caramba! É muito difícil você lidar com uma substituição, embora eu visse como uma mudança de ciclo. O Saulo foi seguir o caminho dele e eu precisava da oportunidade. Alguém tinha que dar continuidade a essa obra. Só não tive mais medo porque minha vida foi toda dedicada à música, foi a única coisa que fiz na minha vida. Nunca quis ser outra coisa se não cantor, músico, artista… e o histórico do Eva também dava uma amenizada, porque as pessoas percebem que o Eva é como uma escola, que impulsiona e revela artistas para o país. Só pensava que se eu fizesse minha parte, daria certo. E graças à Deus temos trabalhado bastante. Independente da marca, é um trabalho de formiguinha. Não adianta uma marca se não tiver um trabalho bacana e convincente. Não daria certo. Foi um trabalho de formiguinha e está sendo um trabalho de formiguinha. A busca é constante, não para.

O público do Eva parece ser extremamente receptivo, sem preconceitos e acostumado com mudanças. Você sentiu pressão por parte dos admiradores do grupo?
Tendemos a não aceitar muito bem mudanças. Mudanças são traumáticas e a época da transição foi muito traumática. As pessoas achavam que o Eva tinha acabado, então é muito difícil aceitar. Nós sabíamos e entendíamos. Tivemos que ter paciência. Parei de acessar redes sociais porque o primeiro momento foi muito complicado. Depois não, as pessoas começam a assimilar, entender que o mundo não vai acabar, que o Saulo tem o trabalho dele e está trilhando sua carreira brilhantemente, e que a música baiana só tem a ganhar porque chega mais um representante. Nós não tivemos culpa de nada e o tempo é o melhor remédio para que as pessoas entendam.

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

O carnaval é um evento onde, normalmente, as pessoas estão muito felizes. Ao lado da Banda Eva e de outros artistas do nosso país, você é um dos protagonistas dessa festa. Tem um gosto especial fazer as pessoas felizes?
É o nosso propósito de vida, uma atividade que entendemos que é uma missão. Estamos o tempo todo batendo nessa tecla, porque às vezes podemos fugir um pouco da parada… (pensativo) É um meio que desperta muito… (pensativo) É muito glamour e para você se perder é muito fácil. Estamos o tempo todo nos cobrando, lembrando que o nosso propósito, que a missão que nos foi confiada, que o que tem que estar em primeiro plano é a música. Todo o resto vem bem depois. Queremos propagar nossa música, tudo o que ela representa e proporcionar alegria para as pessoas. A fama é consequência, não estamos em busca disso.

É difícil manter os pés no chão?
(Pensativo) Não acho muito, porque tive uma boa base familiar. Ninguém é “o cara”, até porque ninguém faz o trabalho sozinho. Somos uma banda e, sem a banda e sem a produção, não sou ninguém. Acho que a ralação da minha vida, a minha busca para poder viver de música, foi muito grande e muitas pessoas teriam desistido. De verdade, não foi fácil. Isso me dá uma cabeça muito boa, diferente de um cara que dormiu e do nada acordou famoso. Ralei pra caramba para estar onde estou, então valorizo.

Em algum momento pensou em desistir?
Não pensei em desistir, mas chega um momento em que você acorda meio depressivo, pensa quando é que as coisas vão começar a acontecer e passa pela cabeça se não é a hora de seguir por outro caminho. É difícil, mas eu sabia que era isso que eu queria para a minha vida e que eu só seria feliz se fosse seguindo essa carreira.

E você é feliz?
Completamente.

A Banda Eva te levou para diversos lugares do país e, provavelmente, para cidades que você nunca imaginou tocar. Ao recordar bons momentos, quais são os primeiros lugares que vem à cabeça?
No contexto geral, sempre sonhei em rodar o Brasil. Dormir em um lugar e acordar em outro, propagar minha música, meu som. Sempre foi o que almejei. Nunca sonhei com fama, sonhava em cair na estrada. Normalmente conhecemos apenas o aeroporto e um restaurante da cidade, às vezes ficamos um pouquinho mais e conseguimos curtir. São Paulo foi a primeira cidade que nos acolheu de forma mais calorosa, além de ser um lugar onde todo mundo quer tocar. Depois, Rio de Janeiro que é uma cidade incrível e estamos sendo abraçados de uma forma sensacional. É muito bom tocar no país inteiro!

Se hoje a Banda Eva acabasse ou se você saísse, quais são os momentos que você lembraria dessa história com mais orgulho?
São muitos! São quatro anos que vivi o que eu não vivi a minha vida inteira! É muito intenso! Você trabalha muito, mas você vive muito. Tem gente que vive uma vida inteira e não consegue viver esses quatro anos que eu tô vivendo no Eva. É muita coisa, é muita informação para ser processada. Acho que o primeiro carnaval vai ficar na minha memória para sempre, porque sempre foi meu sonho. Cantava axé há muitos anos, só que nunca tinha tocado nos circuitos. É difícil entrar. Fui passar por isso muito velho, no sentido de que há muito tempo queria passar por essa experiência. O primeiro ano que fiz Barra e Campo Grande vai ficar gravado na minha memória para sempre. (emocionado) Eu queria muito aquilo. (empolgado) Sabe quando você quer muito uma coisa? (sorri) Durante o carnaval, eu fazia shows no interior da Bahia e, geralmente, não tinha shows na quinta e na sexta, então curtia os circuitos, algo que se tornou angustiante para mim. Eu via a galera passando e pensava que eu não devia estar no camarote ou na pipoca, devia estar em cima do trio, cantando… (pausa) Sempre foi um sonho, quando realizei esse sonho… (emocionado)

Esse carnaval foi o de 2013, quando você cantou com o Saulo, ou o de 2014, oficialmente à frente do Eva?
2014. Apesar que 2013 também foi muito especial. Foi aquele momento de transição. O momento em que o Saulo passou o bastão foi mágico para mim. Quando terminou, fui para a van e comecei a chorar sem parar, porque ali caiu a ficha do que estava acontecendo. Até então eu não tinha assimilado muita coisa.

A Banda Eva é um grupo que deixou muitas coisas marcadas para o público brasileiro, como Ivete Sangalo que se tornou uma das maiores artistas do país…
E vai ser sempre, não vai existir outra!

O que você quer deixar marcado na música brasileira?
Quero trazer algo novo. É muito bom que a Banda Eva tenha um repertório de grande canções, grande clássicos da Música Popular Brasileira, mas trazemos para a nossa realidade, que é completamente diferente do que fazia a Ivete. Não é melhor, nem pior, é diferente. Contamos a mesma história, do nosso jeito de contar histórias. Não temos medo. Ousamos desde o primeiro ano, como quando tocamos “Não Precisa Mudar” em blues. Temos essa ousadia com muito respeito, respeitando a obra do Eva. Queremos passar uma mensagem boa, deixar um legado bacana, assim como nossos antecessores, e levar música boa pra galera. (empolgado) Quero escutar uma faixa do nosso primeiro CD daqui dez, vinte anos e pensar “caramba, olha que bom o que fizemos!”. Quero que meu filho daqui a não sei quantos anos fale com orgulho do pai dele. Não cantamos música de baixaria, são músicas românticas e positivas. É isso que prezamos.

O axé acaba abraçando todos os gêneros como o sertanejo, o forró e o funk. Tem vontade de fazer um projeto paralelo para cantar outro tipo de música?
Talvez sim. Depende. Tenho uma veia muito pop e muito rock. O legal é que conseguimos colocar isso dentro do que já fazemos, não tenho essa dependência de querer fazer alguma coisa paralela porque é oposto ao que faço, o nosso axé é muito pop, tem muita influência de tudo o que gostamos. Temos um projeto que é o “Sarau do Eva”, onde colocamos canções mais lado B e coisas que gostamos de escutar em casa, nossos ídolos. No show tocamos com a pegada que a gente se amarra em fazer. Nosso samba-reggae já é diferente, com riff de guitarra e influência de música eletrônica. Fazemos do jeito que a gente ama.

Como imagina o seu futuro profissional?
Gosto de viver o presente. Acho que estamos semeando uma parada legal e quando fazemos uma coisa com verdade, amor, comprometimento e responsabilidade, tendemos a colher bons frutos. É o que estamos fazendo. Trabalhamos bastante, mas curtimos cada momento, com liberdade para colocar nossas loucuras para fora. O resto é consequência.

Baseado nos baixos números de vendagem de discos e maior busca por shows, no alto consumo de música pela internet, na popularização de artistas novos e na desvalorização de artistas considerados antigos por parte da nova geração, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, como você vê o futuro da música?
Não sei como será. Está tudo muito rápido. O mercado fonográfico sofreu uma mudança brusca, está tudo muito dinâmico, você tem que estar atento a tudo que chega e se adaptar, se reinventar em meio a essa tecnologia louca e desenfreada. A música vai existir sempre, vai ter seu espaço sempre, mas… (pensativo) claro que fico preocupado. Tenho um sobrinho que não conhece Gil e Caetano. Ele ouve apenas os MCs que a molecadinha gosta e que eu não tenho nada contra, mas ele precisa ter outras referências, ouvir outras coisas. O mais legal é que as músicas antigas sempre voltam. Por exemplo, Bruno Mars tem influências como o Jackson 5 e é perceptível na sonoridade do trabalho dele, e isso acontece com a nossa música e vai continuar acontecendo.

Acabamos de lançar uma série na internet que se chama “Sarau Sessions”. Soltaremos no canal músicas de nossos ídolos, interpretadas por nós. A ideia surgiu a partir do “Sarau do Eva”. Soltamos o primeiro vídeo, “Sina”, do Djavan, e está bacana, moderno. É uma outra roupagem, mas com uma pimentinha da Bahia. (risos) O adolescente de 15 anos que ouvir vai se identificar porque tem elementos que escuta diariamente com os ídolos dele. Faremos esse resgate, trazendo referências lá de trás, como Cassiano e Marisa Monte. Às vezes me deparo com gente que fala que ama a nossa música “Não Vá Embora”, porque não sabe que a música é da Marisa. É compreensível, porque é de outra geração, mas esse é o legal do “Sarau”, que vai trazer um bocado de gente boa para resgatar ou trazer para o nosso tempo com uma outra linguagem. Bebemos o tempo todo nessa fonte que é inesgotável.

Além do show de estrada, a Banda Eva viaja com o “Sarau Sessions”?
Sim. O “Sarau” nasceu na Barbearia Corleone, em São Paulo. Era uma coisa completamente despretensiosa. Queríamos fazer um som, relax, intimista… Como somos amigos do pessoal da Corleone, resolvemos fazer a primeira edição no espaço. A galera curtiu, os contratantes começaram a nos procurar e rodamos o país inteiro com o “Sarau”. É um projeto delicioso de fazer, porque fazemos três horas, na Corleone chegamos a fazer mais de quatro! São músicas antigas do Eva que não conseguimos tocar em shows normais e algumas lado B que curtimos.

Há alguma música que você gravou achando que tinha potencial para ser um grande sucesso e não agradou?
Às vezes nos deparamos com uma música linda, que achamos que vai bombar e a resposta não é como você imaginávamos. Tem uma música nossa que chama… (pensativo) Vou me lembrar… (pensativo) Se ela fosse tão forte me lembraria! (risos) Fizemos um clipe lindo, bem conceitual, porque a música é conceitual e não teve a resposta esperada, mas está tudo certo também. Alguém gostou daquela música, mas não dá para esperar que toda música bombe e seja um grande sucesso. O Eva nunca foi de fazer tantos sucessos, com exceção da fase de Ivete. Por exemplo, o Eva nunca foi de ganhar música do carnaval. Que eu me lembre, uma das músicas que chegou a concorrer foi “Circulou”, no penúltimo ano do Saulo. O Eva nunca se preocupou em ter música chiclete, sempre se preocupou mais com a mensagem do que com o prêmio. É um caminho mais bacana, porque aquela música vai perdurar, você vai ouvir daqui a dez anos e com certeza ela será relevante para alguém.

Se arrepende de alguma coisa até agora?
Não me arrependo de nada. Qualquer coisa que você passe, de bom ou de ruim, vai te servir de aprendizado. Minhas escolhas ruins me fortaleceram de alguma forma e formou o meu caráter profissional, me deram maturidade para poder lidar com esse meio que é muito difícil. Serviram como experiência.

Você nasceu e morou a vida toda em Salvador. Qual o seu lugar favorito da cidade?
Tem muitos lugares! Gosto muito do litoral, as praias de Salvador são lindas, as praias da Linha Verde são maravilhosas! A parte litorânea é a minha preferida, porque sou rato de praia, surfo… mas Salvador é linda!

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

A Banda Eva é formada por Felipe Pezzoni (voz), Marcelinho Oliveira (teclado e violão), Jorginho Sancof (guitarra), Cuca (percussão), Hugo Alves (percussão), Ton Carvalho (metais), Cristiano Ferreira (baixo) e Esso Brumom (bateria). O grupo está em período de férias até o dia 28 de abril, mas abre exceção para participar do evento de gravação do DVD de Wesley Safadão, no Eden Roc Resort, em Miami Beach, no dia 14 de abril. A agenda da banda será retomada a partir do dia 29, com shows marcados no Guarujá (SP) e em São Paulo (SP). Para mais informações sobre datas, horários e vendas de ingressos, acesse o site oficial da Banda Eva.