“Forever Young” reúne Marcos Tumura, Paula Capovilla e Jarbas Homem de Mello

Em cartaz no Teatro Fecomercio, em São Paulo, a peça “Forever Young” tem chamado a atenção do público pela mistura improvável dos artistas que formam o elenco do espetáculo. Figuras conhecidas da televisão como Claudia Ohana, Carmo Dalla Vecchia e Fafy Siqueira dividem o palco com grandes nomes do Teatro Musical Brasileiro. Marcos Tumura esteve presente em praticamente todos os espetáculo de Claudia Raia, além de estrelar musicais como “Miss Saigon” (2007). Uma das mais talentosas cantoras do Brasil, Paula Capovilla conquistou os espectadores com a encantadora Lucy, de “Meu Amigo Charlie Brown” (2010), mas se tornou popularmente conhecida após protagonizar o musical “Evita” (2011). “Cabaret” (2010), “Crazy For You” (2014) e “Chaplin – O Musical” (2015) foram alguns dos espetáculos que apresentaram Jarbas Homem de Mello para o grande público.

Juntos, os artistas encantam multidões e somam ao espetáculo, que apesar de aparentemente simples, é recheado de momentos engraçados e muito, mas muito emocionantes. “Recebi o convite dos produtores para atuar em ‘Forever Young’ e a temática me interessou porque gosto muito de artistas idosos. Eles têm uma verdade no gesto, na palavra, uma maturidade que por mais que a gente tente não vamos encontrar, porque é uma coisa de vivência. O convite para a direção veio depois” conta Jarbas ao afirmar que o capixaba Hugo Possolo precisou desistir do projeto por problemas na agenda. “Tive ajuda do ator Rodrigo Miallaret, que ensaiou com a gente durante um mês e meio. Ele fazia minha parte e eu o dirigia pensando em como iria me colocar, mas a maior dificuldade é não conseguir desligar da direção enquanto estou atuando”, conta aos risos imitando sua versão diretora. “Que ritmo é esse?”, brinca concluindo que se diverte, mas que teve medo de não conquistar nem uma direção e nem uma atuação perfeitas por ficar divido entre ambas as funções.

(Foto: Divulgação)

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Em “Forever Young”, o elenco interpreta idosos na faixa dos 90 anos, que vivem em uma casa de repouso. “Nós tivemos a orientação da Renata Mello que explicou que velhinho não tem mais algumas articulações. Então, tive que trabalhar muito em não deixar a mão tão estendida, pois é tudo mais contido”, explica Capovilla. “Aqui a gente pode falar tanto palavrão, é uma delícia! E eu falo muita besteira!”, confessa Tumura enquanto Paula afirma ser completamente diferente de sua desbocada personagem. “Não falo palavrão, não sou do rock, não sou de brigar, não sou ranzinza. Digo que não tenho nada da minha personagem, mas é tudo mentira. É uma visão minha. De repente meus colegas podem falar algo completamente diferente. Encontrei uma amiga minha e ela disse que essa personagem é a minha cara. Pensei: ‘Meu Deus! Temos um problema. Já não sei mais quem eu sou’, conta aos risos. “Ela achou parecidíssima e eu em uma ilusão de que não tinha nada a ver comigo. Falei com toda a convicção e era uma mentira”, diverte-se antes de dizer que sua música favorita do espetáculo é “I Love Rock’n’Roll”.

“Foi um desafio para mim porque não canto rock. Me agarrei em um grande amigo, Alírio Netto, e construímos juntos o que está aqui hoje. É tudo muito incrível e algumas músicas do espetáculo são novas para mim, então estou curtindo conhecer, porque não dá para conhecer tudo nessa vida”, brinca. “Tem uma cena que os personagens fazem monólogos de grandes clássicos do teatro. Você assistiu ao espetáculo?”, questiona Jarbas. “É a minha cena favorita, cada um tem um monólogo pertinente à sua questão, como uma deformidade na perna, estar morrendo ou ter perdido um grande amor. Essa cena me toca muito. São textos tradicionais que, de repente, não teremos outra oportunidade de falar. Já passei da época de fazer alguns personagens…”, conclui. Questionado sobre o detalhe que mais gosta na montagem, o diretor é enfático. “Gosto dos cartazes, mas não do meu. Colocamos porque brincamos com os nossos próprios nomes, como se tivéssemos feito parte dessa geração, mas gosto muito dessa homenagem que é feita, sabe? Todo dia olho o Paulo Autran, o Raul Cortez, a Maria Della Costa e faço uma reverência silenciosa. Acho uma homenagem muito bonita”, finaliza.

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

“A Paula é a maior cantora do país”, elogia Marcos. “Ele ganha R$50 cada vez que fala isso. Tô pagando”, brinca. “Já me deve uns R$300!”, diz aos risos. “Não ouço música, ouço o jornal”, confessa Capovilla às gargalhadas. “Quando comecei a estudar ouvia muito, dormia com o rádio ligado e gravava as músicas que eu gostava em fita cassete. Depois que comecei a cantar, sinto que quando ouço música, a cabeça começa a trabalhar”, afirma. “Tenho a rotina de chegar em casa e ligar o jornal. A gente fica muito dentro do teatro e às vezes não vê o que está acontecendo fora. Já cheguei a saber que pessoas importantes da história morreram três dias depois do acontecido, sabe?”, conta antes de dizer que admira as vozes de Ella Fitzgerald e de Michael Bublé. “E vou homenagear o Frederico Silveira, que brinco que tem a voz de sabonete, que dá vontade de pegar e passar pelo corpo. Toda vez que escuto o Fred… que delícia!”, suspira emocionada. “Ele esteve na primeira montagem de ‘My Fair Lady’ e agora está de volta. Fui assistir e a mesma sensação aconteceu. É uma voz que me emociona”, diz. Em “Evita”, Paula esteve do outro lado e quem se emocionou com sua voz foi o público. “‘Evita’ foi um marco na minha carreira, um trabalho incrível em todos os sentidos. Tentamos captar a essência dela através das biografias, dos documentários e das fotos. Ela foi uma das mulheres mais fotografadas do mundo, então tenho muitos livros com fotos dela. A produção deu toda a condição de trabalho. Trabalhar com o Jorge Takla é muito marcante porque o trabalho dele é primoroso, detalhista. Ele exige qualidade de um botão até o maior dos cenários. Tudo é impecável. Todos os momentos foram bons, em todos os sentidos. Fui muito feliz”, conta antes de se posicionar como alguém que se empenha para fazer a diferença na vida das pessoas. “O artista é um instrumento de Deus para transformar. Às vezes a pessoa não está bem por motivos pessoais, sejam quais forem, e quando assiste uma cena, vê um quadro ou ouve uma música, aquela carga pesada vai embora”, finaliza.

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

“Meu primeiro musical foi em 1986. Esse ano completo 30 anos de carreira, fora a época de Balé Guaíra, em Curitiba”, conta Marcos Tumura. “Nasci em Bauru, mas vivi a vida inteira em Curitiba. Minha família não tem artista, mas sempre gostei muito de música. Quando era pequeno, minha mãe reclamava que eu colocava o disco e cantava mais alto que o cantor. Queria me ouvir cantando com aquele acompanhamento”, explica aos risos. “Quando lançaram o filme ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ (1977), assisti 14 vezes no cinema! Duas ou três sessões seguidas por dia. Era a coisa mais louca do mundo. Sabe quando você fica sem fôlego?”, pergunta. “Consegui um curso de dança e quando falei na minha casa, meu pai quase infartou. Treinava vôlei e inventei que as aulas tinham aumentado uma hora, já que eram nos mesmos dias dos ensaios. Treinava vôlei e fazia aula de dança. Nunca tinha feito nada escondido. Hoje meu pai é meu fã. Está com 80 anos e vem de Curitiba para cá para assistir tudo”, conta orgulhoso. “Fui bailarino durante muito tempo, até que apareceu o primeiro teste para musical. Foi um susto porque em três dias me vi morando no Rio de Janeiro, sem conhecer nada e nem ninguém, mas vi que era aquilo que eu queria fazer. O musical era ‘Splish Splash’ (1986), que foi onde conheci a Claudia Raia”, relembra. A amizade dos artistas se mantém firme. “Não conheço alguém tão dedicada. A Claudia é muito determinada. Ela é a estrela dos espetáculos, mas é a primeira que chega e a que mais quer ensaiar. É muito doido porque ela está em uma posição que pode dizer ‘não vou fazer, é muito trabalhoso’, mas se ela não consegue, aí que ela quer fazer. Claudia é um exemplo independente de ser um ícone”, destaca. Há 30 anos, Marcos Tumura conheceu Claudia Raia no musical “Splish Splash”, que ficou em cartaz no Teatro Ginástico, no Rio de Janeiro, e tinha no elenco Eri Johnson, Raul Gazolla, Suely Franco e Alexandre Frota. “Estava hospedado na casa de uma tia da minha mãe em Ramos. Os ensaios começaram a ir até duas da manhã e eu não tinha como voltar para casa, então o elenco organizou uma lista e cada dia eu dormia na casa de um. Um dia, a Claudia me levou para morar com ela. Na época, ela era casada com o Alexandre Frota e eles me levavam para todos os lugares, então era ‘a mamãe, o papai e o filhinho’. Ela fala que é minha mãe até hoje e ninguém entende”, relembra aos risos.

“O Brasil é por excelência um país musical, acho que por isso a identificação tão imediata com o gênero. Somos o terceiro país que mais monta musicais no mundo!”, conta Tumura antes de destacar algumas de suas experiências nos palcos. “‘Les Misérables’ (2001) foi um divisor de águas na vida de muita gente. Sempre se montou musicais, mas eram produções menores, e ‘Les Mis’ foi o primeiro grande musical que veio para o Brasil. Foi a primeira vez que cantei com uma orquestra. Tudo foi muito especial”, relembra. “Não sabia nada de música, então contava como bailarino. O diretor musical me explicava em oito tempos ao invés de cinco. Ele foi na minha sem titubear”, orgulha-se. “A direção de ‘Miss Saigon’ perguntou se tínhamos um Engenheiro (personagem principal do espetáculo) e a equipe brasileira disse que sim, que eu dava conta porque havia feito o Valjean. Disseram que eu não poderia fazer porque eu deveria ser um ator dramático, então falaram que fiz o Lumière (“A Bela e a Fera”, 2002) e eles ficaram pensando como um ator pode fazer Valjean e Lumière”, diverte-se. “Na época do ‘Miss Saigon’, Cameron Mackintosh deu uma declaração para uma revista falando super bem e fui chamado para fazer o Engenheiro na montagem de Londres, mas não fui porque não falo inglês. Eles falaram que davam um jeito e eu disse que não. Não tem como dar um jeito. Por mais que eu decore o espetáculo, se der alguma coisa errada, não tenho como improvisar. Sou rápido para consertar as coisas, mas sem falar a língua eu falaria em português com certeza”, brinca.

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

(Foto: Cíntia Carvalho / Setor VIP)

Jarbas Homem de Mello vive correndo. Dirige outro espetáculo enquanto trabalha como ator e diretor em “Forever Young”. E o público ainda o quer de volta nos enormes musicais que atuou. “Me perguntam até hoje quando voltam e… não voltam!”, alfineta aos risos. “Desde ‘Cabaret’ aprendi que cada processo é um, não existe um método ou uma fórmula. No ‘Cabaret’, por exemplo, comecei pela voz do personagem. Achei um timbre vocal que me deu um corpo, que me deu uma intenção, que me deu uma personalidade. Em ‘Crazy For You’ precisei encontrar primeiro o corpo daquele cara que sapateava, para depois encontrar a voz”, afirma antes de contar que não se sente saudosista em relação aos papéis que interpretou. “Guardo todos com muito carinho, mas não fico preso. Vou deixar para relembrá-los aos 70, 80 anos…” completa imitando de forma divertida um velhinho lembrando de seu passado. “Gostava de ‘Bang Bang’ e de musical quando era criança”, conta sorrindo. “Achava incrível aquele mundo super fantástico que, de repente, as pessoas começam a dançar e a cantar e vem uma luz, uma fumaça… Sou fã dos musicais dos anos 40, que passavam na ‘Sessão da Tarde’ na minha época, com Gene Kelly, Fred Astaire, Cyd Charise e Debbie Reynolds”, relembra.

“Sempre cantei na igreja e dançava desde criança aquelas danças folclóricas do Rio Grande do Sul. Com 20 anos comecei a fazer aula, atuava e tinha uma banda de rock. Fazia um pouco das três coisas, quando surgiu a oportunidade de fazer teatro musical”, conta. O espetáculo era “Rent” (1999). “Fui assistir ao espetáculo ‘Something Rotten’ na Broadway, porque quem fazia era o Rob McClure, que é quem fez o Chaplin em Nova York. Tinha curiosidade de vê-lo fazendo outra coisa e ele é realmente incrível. Foi muito bom vê-lo, mas sempre vou para ver o espetáculo, não o ator”, explica. “Gostei muito de ‘Billy Elliot’, ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’ e ‘A Cor Púrpura’, mas tive algumas decepções como ‘Um Americano em Paris’, ‘O Fantasma da Ópera’ e ‘Cats'”, conta Jarbas aos risos destacando que ama viajar. “Vou muito para Nova York. Na verdade, nos Estados Unidos eu só conheço Miami porque fui uma vez meio obrigado e Nova York, não conheço mais nada e não tenho muita curiosidade de conhecer também. Na Europa, Itália, Espanha e Inglaterra são os três lugares que mais gosto”, confessa antes de dizer que acompanha a programação do West End e que acha a qualidade da interpretação dos ingleses melhor do que a dos americanos. Antes do fim, o artista afirma ter o sonho de interpretar o protagonista Don, de “Singin’ In The Rain”. “Temos esse projeto para o futuro, vamos ver se conseguimos, porque daqui a pouco não posso fazer mais”, diz aos risos.

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“Forever Young” está em cartaz no Teatro Fecomercio (Rua Dr. Plínio Barreto, 285 – Bela Vista), em São Paulo, às sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (15h e 18h). As entradas custam de R$ 25,00 (meia) a R$ 100,00 (inteira) e podem ser encontradas no site oficial do Compre Ingressos. O espetáculo tem duração de 90 minutos e classificação indicativa para maiores de 10 anos. Até 30 de outubro.