Gloria Groove: “Um ídolo condescendente não chega à transgressão”

Daniel Garcia nasceu em São Paulo em 1995. Após passar parte da infância cantando no coral da igreja, iniciou a carreira em uma das formações do grupo Balão Mágico. Aos 11 anos, participou do quadro de calouros “Jovens Talentos”, no Programa Raul Gil. Após integrar o elenco da novela “Bicho do Mato” (2006), da Rede Record, passou a se dedicar à dublagem de programas como “Doki”, “Hannah Montana”, “Power Rangers: Megaforce” e “Patrulha Canina”.

Gloria Groove surgiu em 2014. Apaixonado pelo reality-show “RuPaul’s Drag Race”, Daniel resolveu adotar o nome artístico. A partir daí, aplicou todo o seu talento para as artes cênicas e para a música nas performances como drag queen. A determinação e o primoroso cuidado que aplica em tudo que realiza colocaram os vídeos “Dona” (2016), “Gloriosa” (2017) e “Bumbum de Ouro” (2018) no meio das canções em destaque no YouTube. Recentemente participou ao lado de Pabllo Vittar do clipe “Joga Bunda”, de Aretuza Lovi, que possui quase 20 milhões de visualizações e se tornou um dos mais recentes hinos LGBT do Brasil.

Poucos dias após ser anunciada como uma das principais atrações do festival Milkshake, Gloria Groove conversou com exclusividade com o Setor VIP sobre seus mais recentes trabalhos, música, família, preconceito, a parceria com o cantor Léo Santana e muito mais!

(Foto: Divulgação)

Uma rápida pesquisa mostra que você possui quase 37 milhões de visualizações em seu canal oficial no YouTube, sendo que “Bumbum de Ouro” é responsável por 14 milhões desses acessos. Ao que você atribui o sucesso da música?
Sinto que “Bumbum de Ouro” é uma daquelas músicas pop que você ouve com a sensação de que já conhecia há muito tempo e mesmo assim fica viciado.

Acha que a popularidade da arte drag facilitou o acesso do público à sua música?
Sem dúvidas o boom global das drags a partir de 2014 tem ajudado e muito na repercussão do nosso som.

Em “Arrasta” você divide os vocais com Léo Santana. Anos atrás era inimaginável um artista de axé music gravar com um artista gay, por exemplo. Você é uma artista que une gêneros impensáveis como a arte drag e o rap. Acha que a música é uma das grandes responsáveis por estar livrando o público do preconceito?
Para mim a música tem essa incrível chance de criar pontes entre lugares improváveis, e essa é uma das melhores sensações de união que você pode transmitir artisticamente.

Como surgiu a ideia de gravar com o Léo Santana?
Quando estávamos desenvolvendo “Arrasta”, eu sabia que iria querer alguém ali comigo. E sempre tive o Léo em mente como primeira opção. Eu só não imaginava o quão generoso e agilizado ele seria ao abraçar o projeto de uma maluca que chamou ele por mensagem direta no Instagram! (risos) Não vejo a hora de mostrar para os fãs o que a gente está aprontando!

Sua mãe cantava em bares quando você era pequena, antes de você começar a cantar na igreja, certo? Pela idade, você provavelmente não a acompanhava nos shows, mas há alguma música ou artista que você ouvia sua mãe cantar em casa que você lembra até hoje? Foi através dela que você teve seu primeiro contato com música?
Minha mãe, Gina Garcia – catou as iniciais? -, é filha de pai pianista e mãe artista de circo, além de ser uma das melhores cantoras que o Brasil tem, mas eu sou suspeitíssima para falar! (risos) São tantas as músicas que ficaram marcadas pela minha admiração em vê-la cantando, mas sou obrigada a citar “Hero”, da Mariah Carey, que foi a primeira que eu quis aprender direitinho aos cinco anos, e também “Through The Fire”, da Chaka Khan, e “Eu Hein Rosa”, da Elis Regina. Amo.

Há artistas que ninguém imagina que você ouça ou algo que você escute exclusivamente para se inspirar em seu trabalho?
Acho que ninguém imagina que eu realmente ouço RBD, Companhia do Calypso, trilhas sonoras da Disney, trilhas sonoras de musicais da Broadway, inclusive “Legally Blonde”… mas para me montar eu gosto de ouvir R&B contemporâneo como SZA, The Weekend, Daniel Caesar, Tinashe, Bryson Tiller e artistas nacionais como Kafé, Tássia Reis, Iza, Flora Matos…

Quais as drag queens que você mais admira?
Sou muito fã de RuPaul, é claro, pelo seu impacto em nossa cultura e sua expertise como marca. Das drags que saíram do programa “RuPaul’s Drag Race” sou maluca por Shangela, Alaska, Adore Delano, Naomi Smalls, Trixie Mattel, BenDeLaCreme e, é claro, minha amiga Latrice Royale. No Brasil, amo minhas irmãs Ikaro Kadoshi, Alexia Twister, LaBelle Beauty, Leyllah Diva Black, Ravena Creole, Chloe Van Damme, Duda Dello Russo… tantas!

Há algo que você viu em alguma apresentação que você gostaria de fazer ou se inspirou para montar algum look, alguma apresentação ou algum clipe?
Tenho o sonho de aprender a fazer algum stunt bem drag no meu show, tipo bate-cabelo, estrelinha, espacate, death-drop… eu chego lá!

De todas as maquiagens, acessórios e figurinos que você usou desde o início da carreira, tem algum que considera icônico e que você ama a ponto de tê-lo guardado ou que gostaria de repeti-lo?
Um look meu que adoraria repetir seria com certeza a felina em “Catuaba”, da Aretuza Lovi.

Como artista, qual o conceito mais errado que você acha que as pessoas mais conservadoras tem de você e como você trabalha para mostrar para elas quem você realmente é?
Acho que o conceito mais errado ao pensar em artistas LGBTTQI é presumir que o nosso trabalho vai ter qualidade inferior a qualquer outro. Sou uma artista que leva a sério o trabalho que faço e gosto de ser respeitada como tal, em qualquer que seja o ambiente.

Do que você mais se orgulha ao se mostrar como realmente é?
Tenho muito orgulho de ser quem sou principalmente porque o ato de não me calar, dá voz e possibilidade a outras milhares de pessoas.

Você se preocupa com as decisões que toma em sua carreira, agora que serve de exemplo para milhares de pessoas que encontram em você uma figura em quem se espelhar? Você tem noção dessa responsabilidade?
Tenho plena consciência da responsabilidade, mas prefiro não deixar que isso brinque com minha ansiedade… a luta não está ganha, ela começa agora que temos uma plataforma para nos unir. Não acho que sendo um ídolo extremamente polido e condescendente eu conseguiria chegar a lugares de transgressão. Meu público espera de mim, acima de tudo, atitude.

Embora drag queens, orientação sexual, transexualidade e muitos assuntos que não eram discutidos estejam constantemente em pauta, você acha que as pessoas tem compreendido e estão respeitando mais as diferenças, mudando comportamentos preconceituosos? O que você vê como fator principal na propagação da opressão, do machismo, da homofobia e da transfobia?
Acredito que vivemos uma fase de tremenda transformação do consciente e inconsciente coletivo, e a discussão sobre sexualidade é parte crucial disso. Vejo que nossos idosos e adultos engatinham para tentar desconstruir conceitos que estão enraizados, e nossos jovens avançam extremamente ligados em cenários e termos que seus pais simplesmente desconhecem. A diversidade passa a ter seus representantes ativos e leva a sociedade a caminhar para uma maior tolerância, embora o principal propagador da opressão em nosso país, e na minha humilde opinião, é uma cultura sexista, machista, racista, misógina, homofóbica e transfóbica que bate de frente com nossos direitos e interesses. Embora sejam tempos cada vez mais sombrios, acredito que a minha missão como artista e militante é ser um dos que acreditam que tudo ainda pode e vai melhorar.

Por fim, você faz parte do line-up da próxima edição do Milkshake, primeiro festival LGBT no Brasil. Está pensando em alguma surpresa para o festival? Já pensou em uma performance ao vivo com o Léo Santana?
Tenho muita sorte de fazer parte de algo tão grandioso como o Milkshake, mas não nego que o trabalho até aqui tem sido árduo. Só posso adiantar que estou preparando surpresas para esse dia, mas que se eu contar não vale mais! (risos) Sou muito fã de todas as pessoas que estão ao meu lado nesse line-up e eu não poderia estar mais ansiosa!

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(Foto: Divulgação)

Gloria Groove tem shows marcados em São Paulo – SP (28 e 29 de abril), Rio de Janeiro – RJ (30 de abril), Palmas – TO (05 de maio), Sorocaba – SP (12 de maio), Belém – PA (19 de maio) e Ribeirão Pires – SP (26 de maio). No dia 02 de junho, a cantora sobe ao palco do Milkshake Festival, em São Paulo, ao lado de artistas como Daniela Mercury, Pabllo Vittar, Preta Gil e Wanessa Camargo. Para mais informações, acesse o site oficial de Gloria Groove.