Hugo Bonemer: “Eu estava no lugar certo, na hora certa”

Não havia maneira de ser mais atencioso. Prestes a subir ao palco na última apresentação do espetáculo “Rock in Rio – O Musical” no Teatro Alfa, em São Paulo, o ator Hugo Bonemer recebeu o Setor VIP para uma animada conversa. Aos 26 anos, o paranaense prepara-se para despedir-se da peça – que fará sessões populares no Auditório Ibirapuera -, mas não do trabalho. Com um gracioso sotaque, Hugo conversou sobre a temporada de “Rock in Rio”, sua amizade com a cantora e atriz Lucinha Lins, falou sobre sua infância e, claro, música!

Em cena com a cantora e atriz Lucinha Lins

Em cena com a cantora e atriz Lucinha Lins

Formado em Comércio Exterior, filho da bailarina e coreógrafa Márcia Angeli e do agrônomo Christian Bonemer, Hugo merece o sucesso que faz. Depois do grande destaque de seu personagem Claude, no musical “Hair”, ele topou o desafio de dar vida ao encantador Alef em “Rock in Rio – O Musical”. Como não foge ao seu destino, o talentoso ator pode ser visto como o vilão Martin, todos os dias no famoso seriado “Malhação”: “Tenho vontade de fazer tudo, porque é a profissão que eu gosto e que sinto prazer”, conta. Nós torcemos por isso!

Nos bastidores de "Rock in Rio - O Musical"

Nos bastidores de “Rock in Rio – O Musical”

Setor VIP: “Rock in Rio – O Musical” está acabando. Quais os sentimentos no fim da temporada?

Hugo Bonemer: Milhões! Fica uma sensação de “que droga que acabou” e ao mesmo tempo tem uma estafa de ter feito 10 meses do mesmo espetáculo. Fica a saudade dos amigos que fizemos porque sabemos que tem pessoas que ficam para o resto da vida, mas o que acontece muito, principalmente com quem vem de fora da cidade, é que nos apegamos muito fácil. Isso é um clichê do trabalho de ator, mas nós viramos uma família e depois vamos para um outro elenco, viramos família de novo e parece que trocamos de casa o tempo todo. Então é uma sensação estranha, tudo misturado.

Setor VIP: Esse é o seu segundo protagonista seguido em um grande musical, imaginava que tudo aconteceria tão rápido?

Hugo Bonemer: Não podia imaginar que isso fosse acontecer na minha vida da maneira que aconteceu. Quando fiz “Hair”, para mim foi um presente divino, um daqueles momentos da vida que você diz “eu estava no lugar certo, na hora certa”, no corpo certo, com a voz certa, com a cara certa… somos avaliados pelo que nós conseguimos fazer e pelo que nós somos esteticamente, por exemplo, estão fazendo audições para Elis Regina e meninas incríveis, porém altas, não passaram porque o papel pede uma mulher baixa. Então perfil não é necessariamente seguindo um padrão estético relacionado a beleza. Quando acabou pensei “meu Deus, obrigado! Como eu quero viver de novo isso!” e não imaginava que fosse acontecer tão rápido, que fosse pegar um outro personagem super interessante, de grande destaque dentro da história. Tenho o dobro de trabalho no “Rock in Rio”, canto exatamente o dobro de músicas do que cantava em “Hair” e o trabalho corporal é muito mais intenso. Às vezes a vida se assemelha muito a um vídeo-game, tem a fase 1, a fase 2 e você vai encontrando situações a superar. É engraçado, mas parece! E diria que estou na fase 2 dos musicais.

Setor VIP: Após 10 meses, você ainda consegue se emocionar?

Hugo Bonemer: Não sei como é para as pessoas na plateia, mas em cena é muito difícil não se emocionar, porque as músicas… (emocionado) ver a Lucinha Lins cantando para mim “You’ve Got a Friend”, falando “all you have to do is call”… ela é uma pessoa com quem eu tenho uma relação muito amorosa, então vê-la em cena, na frente de 1.200 pessoas dizendo “se precisar liga pra mim”, sabe? As letras batem de um jeito muito forte, é muito difícil não se emocionar.

Setor VIP: O Alef é um personagem diferente, no começo ele não tem falas e só se expressa através da música. Foi difícil construir o personagem?

Hugo Bonemer: Não, estudei para isso e me preparei para passar no teste. Quando entrei sabia que estava preparado para o que precisassem. Tinha noção de que podia aguentar o tranco e tenho aguentado. Não fiquei doente nenhuma vez durante esses 10 meses de temporada. No “Hair” (2011/2012) eu não consegui, faltei só uma vez, mas fiz muitos espetáculos doente, sem contar para ninguém. No “Rock in Rio” não faltei, mas não fiquei doente. Percebi que me cuido mais hoje e talvez minha musculatura também esteja mais preparada.

Em cena como Claude, no musical "Hair"

Em cena como Claude, no musical “Hair”

Setor VIP: São quase 50 canções distribuídas em mais de 20 cenas e você está presente em pelo menos metade delas, tem algum número preferido?

Hugo Bonemer: Agora “Freedom”, por uma questão super egocêntrica que é a apresentação do meu personagem! (risos) Mas se pudesse escolher um em que eu não participe, com certeza escolheria “Kiss”, que é o número da Liv e do Mathias que é muito bonitinho! Eles cantam muito bem, são as duas melhores vozes da nossa peça. O Bruno Sigris tem uma voz que não dá para explicar de onde vem, ele tem grave, tem agudo, mistura tudo de um jeito que vou conseguir fazer daqui 5 anos de aula de canto! (risos) A Lyv (Ziese) é sensual, maravilhosa… ah, cara! Com certeza seria esse número!


http://www.youtube.com/watch?v=qMmzEXQ6VHY

Setor VIP: O que você sentia no começo da temporada é diferente da sensação no final?

Hugo Bonemer: No começo queremos acertar, queremos que a peça seja um sucesso, torcemos para a ideia que concebemos durante dois meses de ensaio seja aceita. Foi aceita no Rio de Janeiro e agora em São Paulo? Será que a cabeça do pessoal será tão diferente a ponto de rejeitarem a nossa peça? São 180 peças em cartaz na cidade, será que vai ter público? Tudo isso passa pela nossa cabeça no começo. No final não muda muita coisa, mas as perguntas são: será que a temporada vai se estender? Será que vai voltar? Será que vai para outra cidade? (risos) Nós queremos tudo isso e na maioria das vezes isso não acontece porque as produtoras que trabalham com musical, depois de tanto tempo, estão captando recursos para o próximo, a empresa que patrocinou está em outro projeto… pode até ser que o “Rock in Rio” volte no ano que vem, mas a nossa produtora já está com três outros espetáculos na sequência que estão determinados faz dois anos. Acho que peguei uma fase boa, por isso que digo que “estava no lugar certo, na hora certa”, porque peguei uma fase em que queriam lançar um ator novo para fazer “Hair” e em um momento em que as pessoas estão aceitando musicais mais do que nunca. Antigamente, um ator de musical não era visto como um bom ator, hoje vejo todo mundo correndo atrás de aula de canto e de dança independente do que estiver fazendo. Hoje é um trabalho mais valorizado artisticamente e financeiramente. E que produzam muito mais! Também não vamos ficar apegados, é bom, mas bola pra frente! Que venham outros projetos grandes e que deem emprego para muita gente. Tem muita gente bem preparada por aí.

Setor VIP: Você faz teatro desde os 6 anos, algum dia teve dúvidas do caminho que seguiria?

Hugo Bonemer: Não, mas parei de comentar durante uma época. É uma profissão que envolve muitos mistérios e muitos mitos relacionados ao glamour. Como minha mãe é bailarina, sempre tive para mim que ser ator é uma profissão como qualquer outra. Não sei dizer quais são todos os mitos, mas às vezes percebo no olhar, em uma pergunta, em uma maneira de falar que existem muitos que rondam e circundam esse universo e o que pude perceber desde muito cedo é que existe um lugar que é um pouco negativo, quando dizia no meu círculo de amigos que queria ser ator, a reação não era a mesma de quando alguém dizia que queria ser dentista ou qualquer outra coisa. Por precaução parei de dizer e inclusive fui fazer outras coisas. Tive um plano B para minha vida, que foi meu plano A durante 5 anos: me formei em Comércio Exterior e fui estagiário. Ía de terno e gravata para uma empresa aqui em São Paulo, trabalhei em várias áreas dentro da empresa, desde a recepção até a tesouraria. Fui assistente do diretor financeiro até começar a desenvolver o site da empresa e é por isso que eu sou ator, não consegui me decidir o que quero fazer e aqui eu consigo ser um hippie, um cara traumatizado faz 15 anos e que não fala, depois um vilãozinho que sofre por amor e vai ficar infernizando a vida da menina, um traficante e por aí vai. E é tudo muito divertido! Tenho a possibilidade de poder ser o melhor que posso na minha vida, seguindo uma série de coisas que acredito, mas quando quiser brincar de fazer alguma coisa diferente, é na minha profissão que uso minha loucura, minha imaginação… ela vai toda para o palco.

Setor VIP: Qual a sua lembrança mais antiga em relação ao teatro?

Hugo Bonemer: Lembro de assistir minha mãe. Ela fazia uma peça em que era uma secretária que morria e passava pelo inferno e pelo céu. Era uma viagem, como toda peça. Me lembro que em determinado momento aparecia o capeta e eu era criança! Quando acabou a peça, o ator veio falar comigo, eu chorava muito e queria bater nele por ele ter feito o que fez com a minha mãe, dizia que minha mãe não tinha que ir para o inferno e sim para o céu, estava desesperado! (risos) Tinha 4 ou 5 anos e essa lembrança é muito clara, o espaço, a peça… foi muito forte ver a minha mãe passando por tudo aquilo. Ela dizia: “Filho, é tudo de mentira” e eu respondia: “Não me interessa eu tô com raiva dele”. (risos)

Com os pais, Márcia Angeli e Christian Bonemer

Com os pais, Márcia Angeli e Christian Bonemer

Setor VIP: Você é filho da bailarina e coreógrafa Márcia Angeli, acha que suas escolhas sofreram influência por estar próximo à arte desde cedo?

Hugo Bonemer: Sim, pouquíssimo tempo depois, minha mãe estava gravando uma voz em casa que seria usada em uma peça, como bailarina ela sempre fez teatro-dança e era dublado, por mais que fosse a voz da mesma pessoa, eles não faziam ao vivo por uma série de razões técnicas, ela estava fazendo a voz de uma criança de 10 anos dizendo que não ía escovar os dentes ou algo do tipo, eu estava brincando bem próximo e comecei a imitá-la. Quem trabalhava com ela na época foi quem tornou-se minha primeira professora de teatro, Rô Fagundes: “Porque você não põe seu filho para fazer a voz?”. E fiz. Foi tão legal assistir a peça e ouvir minha voz! E tive várias outras influências, comecei a perceber que assistia aos filmes e tinha vontade de fazer aqueles papéis, não conseguia me colocar como espectador que assiste e comenta, assistia e pensava “nessa história quem eu queria ser?”, assistia um filme de super-herói e pensava “eu quero ser o super-herói”. Quando a gente fica com uma vontade na cabeça algo se movimenta dentro de nós e vamos atrás para que aconteça. Então acabou acontecendo naturalmente.

Setor VIP: Sua carreira é relativamente nova…

Hugo Bonemer: …considero minha carreira a partir de “Hair” que foi quando entrei no mercado, quando começaram a ouvir meu nome e a me ligar para fazer testes. O começo da minha vida profissional se deu dois anos antes de “Hair”, então é relativamente nova. Digamos que desde os 6 anos eu estudo para o mercado de trabalho.

Setor VIP: Além do teatro, você participou do filme “Confissões de Adolescente” para o cinema e faz parte do atual elenco de “Malhação” da Rede Globo. São veículos diferentes, além de um grande passo em sua carreira. Existe a vontade de trabalhar em todos eles?

Hugo Bonemer: Quero trabalhar e os três são muito divertidos! Tenho vontade de fazer um monte de coisas, até de dublar desenho animado! A profissão do ator é muito abrangente, vai desde um espetáculo como o “Rock in Rio”, musical, de entretenimento, como você fazer um filme sobre o desenrolar de quatro histórias adolescentes que é a proposta do “Confissões de Adolescente”, uma ideia super legal, são quatro irmãs em momentos diferentes mas poderia ser a mesma menina, uma dará o primeiro beijo, a segunda terá uma crise de orientação sexual, a outra transará pela primeira vez e a última virará adulta antes do namorado, que é o caso da Sofia e do meu personagem, ela cresce antes do namorado, que continua criança e é o que acontece mesmo com as meninas, elas se desenvolvem antes da gente… então, a profissão vai indo para vários lugares, às vezes você faz coisas para comunicar o público adolescente, às vezes para comunicar o público que é mais abrangente que recebe o titulo de comercial como é o caso do “Rock in Rio”. O espetáculo atinge um público novo, atinge quem esteve no festival em 1985 e quem lembra e gosta das músicas dos anos 70. Dá vontade de fazer tudo, porque é a profissão que eu gosto e que sinto prazer.

Setor VIP: Como você concilia as sessões da peça em São Paulo com as gravações de “Malhação” no Rio de Janeiro?

Hugo Bonemer: Depois que comecei a fazer “Malhação” a coisa complicou um pouco, mas temos um acordo que meu sub (substituto do ator) faz uma vez por semana e como toda semana tem algum dia que gravo, o acordo foi ótimo! Assim, além de ele ter a certeza de que fará o espetáculo, fico com a segurança de que é só avisar. E olha, ser sub é horrível! Vou falar por mim, tem gente que faz na boa e eu fiz muito! Mas é uma sensação injusta de ficar na expectativa de que a outra pessoa falte para você fazer, é muito esquisito! Quando fiz “Bark” (2010), meu primeiro musical em São Paulo, eu era swing (quando o ator substitui mais de uma pessoa) e então você fica na expectativa daquele papel que você quer fazer a ponto de falar para o cara “você não pode pegar uma gripe, por favor? Eu tô louco pra fazer!” (brinca). Ao contrário do “Rock in Rio”, onde os subs e os swings tem lugar, podem participar e se divertir, eu não podia, tinha que ficar na plateia assistindo tudo. Foi uma das coisas mais sábias que fizeram dentro dessa configuração de elenco, dando função para todo mundo dentro da peça. A pessoa se sente parte do grupo. Quando você fica esperando sentado, sabe que a única maneira de entrar é se a pessoa tiver um compromisso ou ficar doente, então você para e faz aquele exame de consciência “compromisso, compromisso, compromisso” (risos) a pessoa tosse do seu lado e você fica ansioso! (brinca) “Pega um evento, ganha muito dinheiro e me deixa fazer uma vez!”. Eles são heróis.

Hugo Bonemer interpreta o vilão Martin em "Malhação"

Hugo Bonemer interpreta o vilão Martin em “Malhação”

Setor VIP: Você deve ter muitos sonhos, pessoas com quem deseja trabalhar…

Hugo Bonemer: …claro que tenho! Mas morro de medo de falar, vai que digam “que saco essa pessoa quer trabalhar comigo”. (risos) Eu quero deixar as coisas acontecerem naturalmente, mas tem muita gente! Ah, que vergonha… vou jogar pro universo: Andrea Beltrão, imagina? Lília Cabral, imagina? Não sabia que tinha o sonho de trabalhar com a Lucinha Lins. O amor dela é desesperador! Ela é uma mãezona, do jeito que ela passa pelo corredor, você sabe que está acontecendo alguma coisa com alguém. Sento no camarim para conversar e ela sempre tem alguma coisa legal para falar… por isso acho que tenho que deixar acontecer naturalmente, se eu pudesse falar hoje, conhecendo a Lucinha, eu diria “quero trabalhar mais uma vez com ela” e com o Guilherme Leme, incrível e um amigão! Mas Andréa Beltrão… Marco Nanini… Pedro Cardoso… quero fazer “A Grande Família”! (risos)

Setor VIP: Que tipo de música você ouve?

Hugo Bonemer: Para mim música tem lugar e tem momento, se estiver na minha casa ouço um tipo de música, em uma festa prefiro outro. Não tenho essa coisa de “eu sou do rock”, embora tenho as minhas preferências para cada ambiente. Em casa, depois de um dia de trabalho, vou ouvir Jack Johnson, Ben Harper, Jamie Cullum, vozes que admiro e que tenho vontade de cantar junto. Se acabei de acordar e vou ter um dia pilhado, coloco Aerosmith, Iron Maiden, Metallica para me dar gás, é o tipo de música para ouvir no carro. Em um momento relax na praia, um rock puxado para o pop como Bon Jovi. Cada momento tem sua trilha sonora.

Setor VIP: E na peça, algum ídolo que você gostaria de ter visto?

Hugo Bonemer: Guns N’ Roses! E os que vou ver esse ano, como o Bon Jovi. Aliás, eu vou todos os dias do “Rock in Rio”, se não for é porque estarei gravando, mas vou fazer o possível para ir… (pensando) estou lembrando das bandas que o Ícaro (Silva) fala! (risos) Oasis, Metallica, Iron Maiden, Angra… vi Sepultura faz duas semanas em Piracicaba (SP), nunca tinha visto ao vivo e é muito legal! Tem bandas de rock mais pesado que as pessoas não entendem “não entendo o que ele fala” (brinca) mas é a energia do show que é animal! Queria ter visto Sepultura no “Rock in Rio”!


http://www.youtube.com/watch?v=DGQB8kv63Ns&feature=share&list=TL2SrLmXJ97jo

O espetáculo “Rock in Rio – O Musical” prepara-se para suas últimas apresentações. De 08/08 (quinta-feira) à 11/08 (domingo), as sessões acontecerão no Auditório Ibirapuera. Os ingressos tem preço promocional (R$20,00) e estão à venda pelo telefone 4003-2330 e pelo site www.ingresso.com, além da bilheteria da casa. Imperdível!