Jorge Vercillo: “Não abro mão do prazer de andar no meio das pessoas”

Camarim

Do lado de fora é possível escutá-lo tocando violão e cantarolando alguma canção. Mesmo alguns segundos após a demorada passagem de som, Jorge Vercillo não descansa em seu camarim. Ou descansa, mas ao seu modo. Poucas horas antes de subir ao palco do HSBC Brasil, em São Paulo, para apresentar ao público o espetáculo que comemora seus 20 anos de carreira, o cantor contou com exclusividade ao Setor VIP momentos marcantes de sua história: “Quando ‘Samurai’ estourou na rádio em 82, com a gaita do Stevie Wonder e os improvisos jazzísticos do Djavan, mudou a minha vida e me motivou a fazer música”.

Vestindo uma blusa de frio azul marinho, uma calça jeans clara e um sapato preto, o cantor de fala mansa e personalidade forte, está longe de aparentar a idade que tem. Cuidando da garganta com um isotônico, Jorge mostrou-se sorridente, cantarolou por diversas vezes ao falar sobre ritmos, gêneros e canções e demonstrou atenção e carinho com o filho Victor: “Vou ver a quantidade de pessoas que chegaram”, diz após abraçar o pai. “Mas volta logo, tá?”, autoriza zeloso. Perante à decepção do filho mais novo (Jorge também é pai de Vinícius), a versão pai-de-família do carioca o acalma: “Está muito cedo”. Victor não deve ter se decepcionado: o público compareceu em peso. Como sempre.

Talentoso de uma forma quase sobre humana, Jorge tem o poder das notas e uma facilidade incrível para compor: “Acho que por não ter muita expectativa nas letras, elas vem, sejam mais rebuscadas ou mais simples”, conta. “Para mim o que toca as pessoas é o que está dizendo a melodia”. Resultado de muito trabalho, as dezenas de prêmios aos quais concorreu e/ou ganhou incluem indicações ao Grammy Latino: “Prêmios são relativos, não acho que sejam demonstração de respeito ou carinho, mas foi marcante receber os de Melhor Intérprete em 2006 e 2007 por voto popular”.



Setor VIP: Esse show comemora seus 20 anos de carreira. O que mudou?

Jorge Vercillo: Acho que quando a gente começa, cheio de sonhos, temos muitas certezas. Precisamos, de certa forma, de algumas delas. As certezas vão diminuindo, os sonhos continuam, mas vão se renovando porque as possibilidades vão aumentando. A gente se abre para essas novas possibilidades e é bom sentir isso.

Setor VIP: Ainda há algo que te deixe inseguro?

Jorge Vercillo: Há cada vez menos. Fico às vezes quando não estou muito seguro com a minha voz, cansado, em cima do palco chega a atrapalhar, embora na maioria das vezes as pessoas não percebam. O mais importante não é a questão técnica que para nós é primordial, o mais importante para o público é a questão emocional, você passa isso e o público sente porque está ali para se envolver com a música e a música é um grande elemento de união das pessoas.

Setor VIP: A música é mais importante do que qualquer detalhe técnico…

Jorge Vercillo: Está provado. Por exemplo, se fizessem um projeto cultural musical na Faixa de Gaza, em poucos meses iriam se unir palestinos e judeus, porque a música tem esse poder, essa propriedade de unir as pessoas, mas infelizmente não é interessante para a indústria bélica que haja união e paz.

Setor VIP: Existem canções importantes para você que ficaram de fora do repertório?

Jorge Vercillo: Sempre tem! Por exemplo, hoje forcei uma barra e vou tocar um pouco mais, fazer um show um pouquinho maior e vou tocar “Invisível” e “Signo de Ar”, que são músicas que não vinha tocando nesse repertório e que são hits de certa forma. “Invisível” é uma música que tem sido muito lembrada porque é uma bossa nova só que é uma Bossa Nova ternária*, ao mesmo tempo uma canção que gravei com uma levada Pop, então ela é toda híbrida. O Ed Motta sempre fala dessa música e outro dia a Anitta cantou na internet e acabou me lembrando dela. Como o público pede muito, resolvi colocar no show. “Signo de Ar” também é uma Bossa Nova em parceria com o Nico Rezende, um cara que adoro, que é um grande músico e um grande cantor, autor de “Esquece e Vem”, de “Perigo” e vários outros sucessos da Zizi Possi, da Marina Lima. Sempre tem músicas que ficam de fora, ainda mais para mim que sou libriano (risos) e que quero sempre mais!

*Métrica da música, algo como se a canção tivesse três compassos por tempo. Normalmente binárias, a Bossa Nova “Invisível” difere-se das outras por esse motivo.

Setor VIP: Há algum momento no show que mexe mais com você do que os outros?

Jorge Vercillo: Todos são especiais por algum motivo. O público tem curtido muito, por incrível que pareça, o momento voz e violão, onde peço para que cada pessoa da plateia peça uma música. Acabo sorteando algumas e canto quando consigo ouvir o que as pessoas pedem, o que é muito difícil com aquela gritaria. Acabo escolhendo músicas que estão no fundo do baú, músicas que são lado B e que nunca foram trabalhadas.

Setor VIP: Se lembra de todas com facilidade?

Jorge Vercillo: A maioria das músicas lembro a letra e a melodia. Às vezes não lembro a harmonia, aí faço a capela ou uma citação. Algumas não dá para lembrar, mas quando eu lembro, eu toco. Outro momento muito prazeroso para mim é quando canto “Distante”, uma música mais recente e que tocou nas rádios do Rio de Janeiro, se destacou muito e o público gosta. É do meu último disco “Como Diria Blavatsky” (2011), uma balada rock passional, que curto.

Setor VIP: Uma das coisas que mais chama atenção em seu show é a criatividade e qualidade com que as músicas são executadas. Conte um pouco sobre a criação dos arranjos. Você conta com a ajuda de seus músicos?

Jorge Vercillo: Muito! Os músicos são verdadeiros artistas! O artista não é o cantor é a banda! Todos nós podemos ser artistas na vida, é uma questão de postura, de como você vê o mundo. Quando você percebe o seu trabalho, faz sua função com prazer e com amor e se diverte, você está sendo artista. Esse show de 20 anos tinha que ser um show de grandes hits, então uma das minhas preocupações era como eu faria um show de hits sem soar repetitivo. Trouxe um DJ para o palco que participa com batidas de R&B, Disco, Zouk, Hip Hop, Funk, House, sons étnicos, mulheres muçulmanas gritando como em “Líder dos Templários” e tantos outros ritmos deram uma cara nova ao show. Ao mesmo tempo, em algumas leituras a gente se permitiu outras novidades, em “Sensível Demais” faço um dueto com Michael Jackson cantando “Got To Be There”, em “Monalisa” tem uma música incidental do The Police chamada “Message in a Bottle” (cantarola), no meio de “Melhor Lugar” tem a citação da música do Blade Runner que é uma música linda e o filme é fantástico! Essas canções incidentais dão um grande prazer porque é uma curtição nova pra gente. Tudo isso em conjunção com os vídeos, com as projeções, motiva a gente a curtir mais o show e o público tem curtido também, tem apontado esse show como meu melhor espetáculo e fico contente com isso (sorri).

Setor VIP: Você toma conta de todos os detalhes de seu show?

Jorge Vercillo: Sim. É importante a gente ter a noção de que ninguém faz nada sozinho, mas fiz as projeções… (pensativo) Quando você é centralizador, mas tem boas mentes do seu lado, pessoas envolvidas de verdade, dedicadas e com criatividade e competência, a junção ideal, o trabalho passa a ser mais leve, vem muitas ideias boas e você… (pensativo) É como mulher em shopping (imita) “essa sim, essa não, essa sim, essa não” (risos).

Setor VIP: Suas músicas românticas são muito românticas e mexem com as pessoas. Você se considera um homem romântico?

Jorge Vercillo: Não. Engraçado, né? Geralmente as pessoas dão essa atribuição romântica talvez pela densidade harmônica, melódica, pela docilidade das minhas melodias, pela cadência das melodias, no entanto me considero mais um transgressor do que um romântico. Minhas melodias são muito melódicas, para mim uma música tem que ter melodia, a minha voz é uma voz mais harmônica, mais sonora e eu sou uma pessoa que gosta de ser mais carinhoso, de ser bem educado para que a vida seja bem educada comigo, isso é uma questão minha, de DNA, mas o meu discurso como em “Avesso” fala de um romance homossexual, em “Que Nem Maré” quando falo “nada vai me fazer desistir do amor” falo de um amor mais abrangente, quando alguém deixa de jogar lixo no chão isso é uma forma de amor. Claro que tem o romantismo, mas tento passar isso na minha música através de um lirismo, uma busca pela estética, pela beleza universal, simbólica e a beleza do amor em várias dimensões, seja no amor pela natureza, pelo planeta, pela paixão, amor de amigo, através da espiritualidade…

Setor VIP: Um amor mais amplo?

Jorge Vercillo: Isso! Tem essa diversidade. Acho que minha obra marca isso. Esse roteiro e esse show está espelhando, trazendo, mostrando claramente essa diversidade de temas, de ritmos e de estilos que a minha carreira sempre trouxe (empolgado) e que tem a ver com a diversidade racial do Brasil, né? O Brasil tem uma diversidade racial e cultural muito grande!

Assista trecho de “Leve” no show em comemoração aos 20 anos de carreira:

Setor VIP: Quais momento da sua carreira mais te emocionam?

Jorge Vercillo: Deixa eu tentar me lembrar (pensativo). Prêmios são relativos, não acho que sejam demonstração de respeito ou carinho, mas houveram momentos muito especiais no Teatro Municipal do Rio de Janeiro onde, por dois anos consecutivos, 2006 e 2007, ganhei o prêmio de Melhor Intérprete por voto popular. Foi muito marcante, mas os momentos mais significativos são quando as pessoas te param na rua, antes ou depois de um show e contam como a sua música marcou a vida delas, influenciou, mudou a visão, somou ou a consolou de alguma forma. Isso não tem preço, não tem como ser medido. As pessoas dizem que músicas foram tema de casamento, iniciaram uma namoro e trazem uma criança que nasceu da relação onde minha música participou na época daquele romance (emocionado). Isso não tem preço.

Setor VIP: No que você pensava quando decidiu seguir a área musical? Pensava em transformar a vida das pessoas, transmitir alegria, dar vazão ao seu discurso, suas ideias…?

Jorge Vercillo: Isso é muito interessante…

Setor VIP: Ou você queria fazer música independente do que acontecesse?

Jorge Vercillo: Eu amava música. O que me motivava eram e são minhas melodias, embora as pessoas falem muito das minhas letras. Fico lembrando do Michael Jackson que dizia que as pessoas tinham que deixar a música fluir e vir na inspiração. De uma certa forma, por eu não ter muita expectativa nas letras, elas vem, sejam mais rebuscadas ou mais simples, elas tocam muitas pessoas. Para mim o que toca as pessoas é o que está dizendo a melodia (cantarola), para mim é o que marca mais, é onde começa a maioria das vezes. Agora você está falando sobre uma coisa que preciso confessar: até hoje não tenho dimensão de mim. Estava conversando outro dia com uma amiga cantora e a gente falava de como lidar com o ego, dessa coisa de ser celebridade. Gosto da música. O grande barato é conseguir viver de música e viver bem, fazendo o que você quer e o que você gosta. Até hoje não consigo me ver… (interrompe) Moro em um condomínio fechado no Rio de Janeiro onde as pessoas estão acostumadas comigo e ali me esqueço que sou uma pessoa conhecida e gosto disso! Às vezes a pessoa diz “desculpa não reconheci você” e eu respondo “muito pelo contrário, prefiro assim” (risos). Nada contra ser artista, mas gosto de ser artista aqui na entrevista, no palco, na rádio, na televisão… Então quando saio do condomínio, a maneira que as pessoas me olham. me abordam e pedem foto, me faz lembrar. O gostoso da vida é isso, cara, não perderia de maneira alguma o prazer de poder andar no meio das pessoas, de ir em uma praia com meus filhos, passear no bosque, subir em uma árvore, de nadar no rio, de pisar com meu pé no chão, de ir ao supermercado, de ir na padaria, não perderia esse prazer de estar no meio da humanidade, das pessoas, dos meus irmãos, isso é o mais prazeroso! Acho que é daí que vem a força e a energia da gente. Imagine se isolar numa redoma! Para mim seria muito difícil.

Setor VIP: Se lembra dos primeiros artistas ou das primeiras músicas que serviram como referência para sua carreira?

Jorge Vercillo: Um momento muito marcante na minha vida, principalmente na minha infância, foi quando ouvi “Isn’t She Lovely”, do Stevie Wonder. Meu irmão Otavinho, que é 9 anos mais velho que eu, e os amigos do meu irmão ouviam nas festas em casa. Colocavam “Rock With You”, do Michael Jackson, ouviam George Benson… Isso tudo me marcava muito. No meio da semana, marcava mais a MPB. Milton Nascimento, Ivan Lins, Gonzaguinha… Mas uma fase que me marcou muito foi “Samurai”. Quando estourou na rádio em 82, com aquela gaita do Stevie Wonder e harmonia diferente, melodia completamente surpreendente, a letra, as metáforas, os improvisos jazzísticos do Djavan, aquilo mudou a minha vida (emocionado). Assim como Caetano Veloso ouviu João Gilberto e se transformou, quando eu ouvi “Samurai”, com Djavan, me abriu um céu, um ambiente colorido, aquilo me motivou muito a fazer música, a buscar a música, só que até então eu não tinha certeza de que era isso que a vida queria para mim. Me perguntava “será?”. A vida vai demonstrar o que ela quer pra mim. Engraçado isso, né? E aí a minha tia Leda Barbosa, irmã da minha mãe e cantora da Rádio Nacional, percebeu esse meu interesse pela música. Durante aquela fase da rebeldia na adolescência, me propôs entrar numa aula de violão e comecei a pegar as harmonias de Gilberto Gil, “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, músicas cheias de acordes, músicas do Caetano, Djavan, Ivan Lins… E aí comecei a tocar na noite e depois de um certo tempo a participar de festivais com as minhas composições, algumas parcerias com Jota Maranhão, um dos parceiros mais antigos, Paulo César Feital, Altay Veloso…Nos festivais comecei a testar as minhas músicas, até que… (sorri) As principais referências foram essas e continuam até hoje, mas acho que sou um filho da era da Música Brasileira e sendo um filho da Música Brasileira, trago muita diversidade e muita negritude. O Ijexá, a música africana e negra de uma maneira geral me marcou muito. O Reggae da América Central e da Jamaica, a Salsa e o Jazz de New Orleans e dos Estados Unidos, a Bossa Nova, o Samba, o Congo, o Maracatu do Brasil… Me marcou e continua marcando.

Setor VIP: Qual a importância para você em realizar shows fora do país?

Jorge Vercillo: É importante, mas ainda está no início. Recebi com surpresa o convite para o Riviera Maya Jazz Festival, no México, perto de Cancún. Esse festival é um evento grande com a participação do Take 6, Pat Metheny, Chick Corea, entre outros grandes nomes do Jazz e da música contemporânea de qualidade. Fiquei muito feliz porque o estrangeiro consegue ver a minha música como um Jazz Contemporâneo. Interessante isso, né? Há dois anos fiz uma turnê longa pela Europa com mais de 7 cidades e agora a gente deve voltar. É importante, mas não mais importante do que o Brasil. O Brasil é “um continente”, né? Adoro não só São Paulo, não só o Rio de Janeiro, mas o Norte, o Nordeste… Outro dia fui para o Tocantins, tocar na cidade de Palmas e aproveitei para conhecer o Jalapão. Como estudante de bioenergia, gosto muito de andar por lugares com muita natureza, pesquisar e sentir também, então acho que a música e a minha vida pessoal acabam se fundindo em uma amálgama só (sorri).

Setor VIP: Então você consegue aproveitar as viagens profissionais para conhecer os lugares?

Jorge Vercillo: Consigo! Muitas vezes quando estou na Bahia vou ao Morro de São Paulo, Moreré ou vou para a Chapada Diamantina que é um lugar com uma energia maravilhosa, um chão com cristais de quartzo que traz muita energia! Agora mesmo vou voltar para lá com uns amigos que estudam bioenergia e projeção astral. Já tive algumas experiências de projeção astral sempre ao redor, perto da Chapada Diamantina, então é sempre bom estar ali porque tem um quantum energético diferenciado.

Setor VIP: Tem lugares favoritos no Rio de Janeiro?

Jorge Vercillo: Vários! (empolgado) Sou nascido e criado na Praia do Leme no cantinho de Copacabana. Aquela praia está sempre comigo, dentro de mim. Minha mãe mora lá e volta e meia passo para vê-la e fico em um canto. Fiz até uma música para a Praia do Leme que é “Praia Nua” (canta “ah meu sol, meu bem, minha vida escureceu…”). Na Barra da Tijuca, que é o lugar onde moro, tem uma lagoa que chama Lagoa de Marapendi que é uma lagoa muito bonita, um santuário, um pouco suja por causa da ação dos excessos de moradores e condomínios, mas a CEDAE está fazendo um tratamento de água mais sério e está melhorando aos poucos. O Rio de Janeiro é uma cidade com muita gente, muito trânsito e isso prejudica muito, mas é um lugar geograficamente maravilhoso, tem serra, tem lagoa, tem rio, tem mar, tem mata, é completo.

Setor VIP: O que você faz quando está de folga? Ouve algum tipo de música diferente da que faz?

Jorge Vercillo: Acho que a música que me agrada, vou atrás e acabo absorvendo. Convivo bem com rock, por exemplo, mas não é o tipo de música que eu ouça tanto, ouço mais por conta da juventude, dos meus sobrinhos e do meu filho, que estão nessa fase. A música flamenca, que é diferente, acabei absorvendo, fiz muitas músicas e arranjos com flamenco, a música árabe também. Cara, gosto muito de cinema e ultimamente tenho gostado de histórias que me inspirem, mas assisto muita aventura e ficção científica. Acho que a ficção propõe uma nova realidade e muitas vezes o cinema antecipa uma realidade possível. Dos que me fazem pensar, às vezes um desenho animado como “Wall-E” (2008), por exemplo, me inspira. Não precisa ser só filmes ditos sérios, os desenhos infantis estão cada vez mais abrangentes e com mais qualidade desde “Procurando Nemo” (2003) até “Carros” (2006), um é mais fantástico que o outro! Vejo muito com meus filhos (sorri).