Maitê Proença: “Quando o público se sente burro, a culpa é do ator!”

(Foto: Daniel Chiacos)

Em comemoração aos seus 40 anos de carreira e 60 anos de idade, Maitê Proença protagoniza o espetáculo “A Mulher de Bath”. Pela primeira vez sem um contrato com uma emissora de televisão, a atriz se dedica exclusivamente à personagem criada pelo inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400). Com direção de Amir Haddad, tradução de José Francisco Botelho e adaptação assinada por Maitê, a peça mostra a realidade da mulher que não se enquadra nos padrões comportamentais propostos pela sociedade na Europa durante a Idade Média. Alice se tornou viúva pela quinta vez e busca o sexto marido, única maneira de se satisfazer sexualmente em uma época que o sexo fora do casamento é considerado pecado. O discurso da personagem defende a igualdade de gêneros, promove a liberdade sexual e provoca a evolução do ser humano.

Em performance impecável, Maitê Proença utiliza seu talento para interpretar um texto rimado de maneira extremamente agradável ao público. A artista abusa de sua popularidade e coloca seu carisma à prova ao quebrar a quarta parede e conversar com a plateia em alguns momentos, auxiliando o espectador a entender detalhes menos evidentes da história. No rápido e bem humorado espetáculo, a atriz conta com a participação do músico Alessandro Persan, com cenário de Luiz Henrique Sá, iluminação de Vilmar Olos, adereços de Marcilio Barroco e impecáveis figurinos de Angèle Froes.

Após a apresentação, a artista autografa o livro com a versão do espetáculo, vendido na recepção do teatro. Recebe cuidadosamente as dezenas de espectadores que formam uma enorme fila em frente à mesa, questionando carinhosamente a opinião do público e atendendo pacientemente os inúmeros pedidos por fotos. Após o último autógrafo, a protagonista se senta com o Setor VIP para uma rápida e exclusiva entrevista. Maitê Proença veste uma blusa azul clara de mangas compridas e uma calça estilo pantalona na cor vermelha. Seus cabelos estão impecavelmente bem arrumados. A artista sorri durante todo o tempo, pensa muito bem no que dizer e responde todas as perguntas com um português perfeito.

(Foto: Sabrina Moura)

Como você chegou nesse texto?
O José Mario Pereira, editor da Top Books, é muito meu amigo. Ele veio de Fortaleza e chegou no Rio de Janeiro quase junto comigo. É uma pessoa muito culta e confio muito em seu paladar literário. Ele me falou sobre a tradução do José Francisco Botelho, autor e tradutor vencedor de dois prêmios Jabuti, que é um primor. Ele se inspirou nas trovas do Rio Grande do Sul e nos cordéis do Nordeste. Quando li, vi que o texto estava pronto para ser falado.

O que te chamou atenção a ponto de produzir o espetáculo?
É um tema atual. O feminismo ressurge e essa personagem é a primeira feminista. O que acho mais genial é que o homem na Idade Média colocou um texto absolutamente revolucionário na boca de uma mulher. Esse texto sobrevive 600 anos porque há temas que são atemporais, como a questão da mulher. Em geral, quando levantamos uma bandeira, enaltecemos os aspectos que nos convém, mas a personagem fala com senso de humor, irreverência e deboche sobre a ferocidade masculina e de como ela driblou essa opressão naquele momento da história. Precisa ser dito que pouquíssima coisa mudou, mas a personagem conta as artimanhas, os truques, as mentiras que ela é obrigada a praticar para sobreviver e faz isso com graça, porque ela ama os homens, já teve cinco e quer outros. (risos) Ela ama, mas quer que eles morram para ela poder variar, né? (risos) A personagem é muito inteligente, muito articulada. Ela está falando para um bando de homens que estão calados ouvindo porque não conseguem interrompê-la. Não dá. Então eles resolvem escutá-la quietos. (pausa) Fiquei tão surpresa ao ler o texto, porque na minha ignorância, imaginava que as mulheres da Idade Média ficassem em casa de véu na cabeça rezando pelos maridos mortos, né? E ela está com essa irreverência que é surpreendente. Achei genial!

Assim que você leu o texto te veio a ideia de montá-lo?
Não sabia como transformar esse texto em teatro. Me perguntava se seria preciso um monte de gente no palco, então chamei o Amir Haddad para fazer o espetáculo comigo. O Amir é um diretor de rua, ele trabalha na rua, é muito popular. Eu queria fazer um clássico, mas para todo mundo. Queria que o texto chegasse nas pessoas e que elas entendessem tudo. A única maneira de fazermos isso seria se entendêssemos esse texto profundamente, se falássemos com a naturalidade de quem pede um copo d’água.

Seu trabalho ao interpretar os versos rimados passa a intenção de que vocês tentaram deixar o texto…
Palatável? Às vezes as construções são invertidas, mas se você falar de uma determinada maneira… (pausa) Na verdade, há dois anos fui morar em Nova York por quatro meses para estudar roteiro e algumas outras coisas na Universidade de Nova York. (contando) Um dia um amigo roteirista me convidou para ver “a pior peça do Shakespeare”. (risos) Ele tinha dois ingressos para o espetáculo que acontecia no Central Park e, por ser de graça, eram muito difíceis de conseguir. Fomos. Estou vendo “a pior peça do Shakespeare” e em três minutos estava às gargalhadas. Só que não só eu. (empolgada) Todas aquelas cinco mil pessoas estavam completamente dentro do espetáculo, ninguém mais se lembrava que estava vendo um texto elisabetano e aquelas pessoas não falavam todas inglês corretamente, estava cheio de gente estrangeira. Eu não sabia o que estava acontecendo. Pela primeira vez, estava vendo Shakespeare realmente popular como dizem que é. (séria) Entendi que os atores compreendiam aquilo absolutamente, não tinham nenhuma dúvida. Eles entendiam todas as camadas que estão contidas no texto e essa é a única maneira de fazer teatro. Quando o público se sente burro, quem não está entendendo a peça é o ator. A única maneira do ator se safar da ignorância dele é se dando ares e pompas. Ele se dá ares e o pobre coitado do sujeito na plateia se sente burro. Isso uma injustiça, então decidi fazer o oposto disso: esmiuçar o texto e falar como se fosse a maneira que eu falo.

Foi por causa desse espetáculo que você assistiu em Nova York…
…que achei que dava para fazer a peça de uma forma completamente simples e assimilável. Entendi o que acontece quando as pessoas vão ver clássicos. Os atores em cena não sabem o que estão dizendo, não dominam completamente. Então estudei, estudei, estudei, até eu poder dizer o texto e você poder entendê-lo perfeitamente.

Você disse que houve dúvidas sobre um elenco grande. Em que momento você percebeu que não eram necessárias mais pessoas?
Eu queria mais gente e o Amir ficou puxando a brasa para o outro lado. Então pedi que colocasse um ator em cena e consegui o Alessandro para fazer tudo, contra regragem, música… ele faz múltiplas funções. Depois resolvemos contextualizar. Esses momentos que saio do personagem e falo com a plateia vieram depois. Eu não fazia essa última entrada. Faço há três semanas. Inventei sem o Amir saber, mas ele assistiu e adorou, porque está completamente dentro do espírito do que a gente bolou e acho que dá uma unidade com o início. Contextualizar aproxima as pessoas, facilita. Porque não facilitar? (imita) “Deixa eu contar, nós estamos nesse lugar, é assim…” (risos) Tudo pode nessa peça, posso fazer o que eu quiser, porque o texto tem esse tipo de contemporaneidade.

O que te dá mais prazer ao interpretar essa personagem?
Gosto muito dela, principalmente da verdade dela. Gosto que ela confessa mentir para os homens, mas faz porque quer que eles se sintam bem, que eles achem que ela está com ciúme. Ela é generosa até no truque. Gosto muito da sabedoria dela no final, quando conta que se você dá soberania para uma mulher, ela devolve para você, ela divide o poder, ela não faz guerra, ela não mata, ela não submete… pelo contrário, ela faz você ser feliz, né? Acho ela muito sábia.

Você tem algum trecho favorito?
Acho o texto muito irreverente, completamente sexual. A personagem fala coisas que você vê que os casais às vezes ficam meio constrangidos, né? Ela fala tudo que tem vontade de falar, sem nenhum pudor, depois você vai descobrindo que ela tem muita sabedoria, que aquilo não é vulgar. Parece vulgar, mas ela avisa no início do espetáculo que vai manter a grossura das falas, que não vai maquiar nada, que vai contar as coisas como elas são. Aguentem. Apertem os cintos que nós vamos sair agora. E ela cumpre o que prometeu. (risos)

O Brasil é considerado um dos países que menos lê. Você acha que outros meios de comunicação, como o teatro, suprem a falta de leitura do brasileiro? Por exemplo, a pessoa que assiste “A Mulher de Bath”, mas não lê o livro, possui a mesma informação…
Temos muitas peças boas em cartaz como “A Visita da Velha Senhora”, “Romeu e Julieta” com as músicas da Marisa Monte, a minha peça que considero um ato de coragem… o pessoal de teatro entendeu que tem que nivelar as produções por cima, não por baixo. Por baixo, já existe muita porcaria. Parte do público está desgastado com tanta porcaria, com toda a mediocridade, com a mediocrização dos meios de comunicação e quer coisa de qualidade. E não precisa ser chata. Dá para fazer de uma forma que não seja chata. Eu mantive esse texto como ele é, o espectador vem assistir e vai entender. O Clássico é o fundador da Língua Inglesa.

Uma pessoa pode não ter interesse em ler sobre a criação da Língua Inglesa ou sobre a Idade Média, mas pode se interessar em vir ao teatro e encontra aqui uma fonte com as mesmas informações. Você acha que se houver a percepção que o brasileiro se tornou um assíduo frequentador de teatro, poderíamos parar de apontá-lo como não leitor de forma negativa, já que a leitura é fundamentalmente atribuída como principal fonte de educação?
Sim. (pensativa) Acho que a cultura e as escolas tinham que estar… (pausa) Você vai para a Europa e vê aquele monte de crianças nos museus. Elas começam a estudar as épocas e vão ilustrar o que aprenderam nos museus, então aquilo faz sentido. Elas não estão vendo um quadro que não sabem o que é, elas estão aprendendo porque o quadro conta a história que elas ouviram na sala de aula. A cultura e tudo o que ela pode oferecer, incluindo o teatro, deveria estar dentro da escola. Educação e cultura deveriam ser uma coisa só. Não podem estar separadas. (pausa) É, você tem toda a razão, o teatro serve para educar e educa de uma forma divertida!

Está feliz com o resultado do espetáculo nessa nova fase da sua carreira?
Não tinha a menor ideia se o que eu pretendia com a peça aconteceria, mas acontece. As pessoas realmente gostam. A gente vê. As pessoas reagem muito bem, aplaudem de pé… (pausa) Eu não poderia fazer uma coisa que eu não veria, não dá mais. A essa altura da vida tenho que saber o que estou oferecendo e não vou mais fazer porcaria, sabe? (pausa) A vida inteira foi muito difícil eu fazer porcaria, só quando era obrigatório por algum motivo, mas agora eu não conseguiria, não dá… (reticente) quer dizer, a gente nunca sabe, se tiver que alimentar um filho… mas, não precisando, tem tanta coisa boa para fazer! (empolgada) Quero crer que a plateia aprecia esse cuidado e o resultado do espetáculo é uma comprovação de que a minha impressão está correta, então é muito satisfatório conseguir chegar nesse lugar. (sorri)

>> Encabeçado por Helena Ranaldi, elenco se sobressai em “Se Existe Eu Ainda Não Encontrei”

>> “Senhora dos Afogados” chega aos palcos protagonizada por Rafael Vitti

(Foto: Sabrina Moura)

“A Mulher de Bath” está em cartaz no Teatro Faap (Rua Alagoas, 903 – Higienópolis), em São Paulo, sextas (21h), sábados (21h) e domingos (18h). As entradas custam de R$35,00 (meia) a R$70,00 (inteira) e podem ser adquiridas através do site oficial do Teatro Faap. Até 01 de abril. Maitê Proença desembarca no Teatro XP Investimentos (Av. Bartolomeu Mitre, 1.110 B – Leblon), no Rio de Janeiro, a partir de 06 de abril. A temporada carioca de “A Mulher de Bath” terá sessões sextas (21h), sábados (21h) e domingos (19h). Os ingressos custam de R$40,00 (meia) a R$80,00 (inteira) e podem ser encontrados no site oficial da Eventim. Até 29 de abril. O espetáculo tem duração de 75 minutos e classificação indicativa para maiores de 16 anos. Estrela1 Estrela1 Estrela1