Marcos Caruso: “Não sou apenas um ator, sou um homem de teatro”

Faltando exatamente um mês para encerrar a temporada de sua peça em São Paulo, o ator Marcos Caruso nos recebeu no Teatro Jaraguá para um bate-papo descontraído e emocionante sobre sua infância e adolescência, seus colegas de trabalho, música e muito mais, sem esquecer – é claro! – da peça “Em Nome do Jogo”, o suspense policial que levou quase 70 mil pessoas às salas de espetáculos de todo o Brasil. “Onde você prefere conversar?”, questionou sorridente no meio do caminho entre o palco e a plateia. Confortavelmente posicionados na terceira fila, perguntei se a gravação o incomodava: “De forma alguma!”, respondeu sem tirar o calmo sorriso do rosto: “Esqueceram um programa caído aqui”, diz recolhendo sua própria foto do chão. Alguém o interrompe dizendo que todas as bengalas estavam quebradas e que uma delas – a em melhor estado – havia sido remendada para a sessão que começaria após a entrevista: “É a última, né? Se quebrar essa…” mostra-se preocupado e me conta: “Ontem quebrou em cena!” e começamos a conversar.

Em cena como Andrew de "Em Nome do Jogo"

Setor VIP: Um mês para o final da peça e quase 70 mil pessoas a viram pelo Brasil, segundo a última atualização de público. Suas expectativas foram atingidas?
Marcos Caruso: Foi além das expectativas! Eu achava que a peça teria um público pequeno e por um curto período de tempo, porque o policial é um gênero que não é muito montado no Brasil e o brasileiro não tem essa relação de interesse com ele, mesmo na leitura. Não são vendidos livros de policial como são os de romance. O brasileiro é mais afeito ao romance, aos contos… então foi realmente uma surpresa, porque a peça interessou menos pelo gênero, mas mais pelo jogo proposto pelo autor, que deu a oportunidade de dois atores fazerem grandes trabalhos e instigarem a inteligência do público.

Além do tema incomum, “Em Nome do Jogo” é interessante visualmente, tem um cenário bem pensado, o jogo cênico com os objetos… acha que isso atraiu o público ao teatro?
É uma peça diferente de quase tudo. Não de tudo que está aí porque tem muita diversidade no teatro, diferente dos anos 90, dos anos 80 e até do início dos anos 10, mas eu acho que além de tudo, o espetáculo faz parte dessa divesidade, mas ele é diferente mais ainda por ser do gênero policial, que instiga o racionínio, quer dizer, exige o raciocínio da plateia. O público brasileiro não está muito acostumado a raciocinar, quer dizer, ele raciocína mas não está acostumado porque o que lhes é dado são apenas textos mais digestivos, mais românticos ou mais trágicos, dramáticos… que não exigem esse raciocínio. O policial – no caso desse que é um policial diferente por que não é “quem matou?” – dá a oportunidade da plateia raciocinar junto, então ela percebe com o decorrer do espetáculo que ela não pode perder nenhum momento de atenção auditiva e visual porque o que ela vir agora ela vai ver depois, a arma foi tirada no primeiro ato e depois estará no segundo… são deixas visuais e informações auditivas que fazem com que ela vá juntando os pontos e descobrindo quem está ganhando o jogo naquele momento.

Como é o seu processo de escolha de um texto? Você pensa no gênero?
Nesse caso eu fui escolhido. No começo da minha carreira eu não escolhia, eu fiz tudo. Eu tive a sorte de fazer muita comédia e aprender com muitos atores, colegas e diretores. Quando eu me tornei autor comecei a escolher mais porque eu escrevia peças para mim, porque eu queria falar a respeito daquele tema naquele momento. Agora eu tenho sido escolhido, por sorte. Eu não tenho produzido faz muito tempo, “Operação Abafa” foi a última produção minha. As duas últimas produções que participei foram “As Pontes de Madison” e “Em Nome do Jogo” ambos filmes. Gostei do texto porque era a oportunidade de eu fazer alguma coisa completamente diferente de tudo que eu tinha feito. Agora eu sou mais criterioso nas minhas escolhas, porque eu já fiz drama, comédia, musical… agora fiz policial. Vamos ver o que vem daqui pra frente.

O processo de criação de “Em Nome do Jogo” veio de encontro com “Avenida Brasil”…
A novela estreou no dia 23 de março e a peça estreou no dia 19 de março, 3 dias antes, no Rio. Então durante a novela inteira eu fiz a peça. Eu criei o Leleco e o Andrew ao mesmo tempo. Muito doido isso!

Muito difícil por serem personagens completamente diferentes?
Muito! São diferentes entre si e diametralmente opostos a mim. Muito difícil mas muito prazeroso.

O Andrew não tem nada de você?
Nada! (Pensativo) O Andrew tem um lado mais mental e eu sou muito mental. Eu raciocino muito antes de fazer uma coisa, de me jogar num trabalho. Eu sou muito cerebral, eu sou muito crítico a meu respeito. Me jogo, mas preciso saber onde estou pisando, então eu tenho essa coisa e só, porque o resto é horrível! (risos) E do Leleco eu tenho a alegria de viver, a alegria de estar bem sempre e de bom humor.

Para você é mais difícil fazer um personagem parecido ou completamente diferente de você?
Quando vem muito próximo da gente, parece que não é o personagem, parece que é a gente, sabe? Mas mesmo que o personagem tenha as qualidade ou os defeitos que a gente tem, essas qualidades e esses defeitos são diversos da gente, o personagem que gosta de rir e que é bem humorado como eu sou, terá outro tipo de bom humor. (pensativo) Talvez seja mais difícil você fazer um personagem que se pareça com você do que um personagem que não se pareça.

Em 40 anos de carreira, fica clara a preocupação que você tem em não se envolver em projetos de textos mais simples…
Já fiz essas coisas e não me arrependo de ter feito. Por exemplo, “Trair e Coçar” é uma peça que eu escrevi e é totalmente uma comédia mastigada, mas ela faz parte de um gênero, de uma função do teatro. Eu já passei por vários gêneros, de vários estilos no teatro, então o que eu gostaria daqui pra frente é escolher coisas que eu não tenha feito.

“Trair e Coçar” está há quase 30 anos em cartaz…
28!

…28 anos em cartaz ininterruptos. Existe alguma peça da sua carreira que você gostaria que tivesse durado mais tempo do que durou?
(Saudosista) “Intimidade Indecente”. Ficou 5 anos em cartaz e eu acho que poderia ter ficado 10! Tenho vontade até de remontar!

É a primeira vez que você trabalha com o ator Erom Cordeiro. Como é trabalhar com ele?
É a primeira vez e eu acho que é um grande, imenso, profundo prazer, porque o currículo do Erom proporcionalmente a idade dele é melhor que o meu. Se você vir as peças que ele fez e os autores importantes em termos de qualidade de texto, ele trabalhou em textos muito mais difíceis do que eu na minha carreira inteira. Ele tem uma bagagem muito grande de cultura, de conhecimento e de relacionamento com personagens densos que me estimula muito.

Uma peça com duas pessoas é muito mais difícil do que tabalhar com um elenco grande?
São dificuldades diferentes, a dificuldade que fica mais clara é porque ao serem dois, quando um para de falar é o outro, quando o outro para de falar é o um (risos) então você tem que estar muito mais atento e não tem a quem recorrer. Não tem outra pessoa para te salvar.

Com Erom Cordeiro

Política é um tema muito constante em suas peças e o Brasil está passando por um momento muito importante com as pessoas indo para as ruas lutando por seus direitos. Qual a sua opinião sobre essas manifestações?
Sempre usei o teatro como palanque das minhas ideias. Sempre que a pessoa física Marcos Vianna Caruso queria falar alguma coisa eu me utilizava do dramaturgo Marcos Caruso pra colocar a minha voz. Então eu venho fazendo isso desde que eu iniciei a minha vida. Em 1972, antes de eu me tornar profissional, eu fazia teatro no Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito no Largo São Francisco, e montava peças políticas terrivelmente contundentes contra a ditadura de 1972 que era o governo Médici. E aí eu fui caminhando, a ditadura veio, eu continuei fazendo peças políticas, escrevi peças políticas, me utilizei do humor para colocar o dedo na ferida de problemas políticos, sociais e econômicos do país e continuo. Acho que as pessoas tem não só o direito, mas o dever de colocar as suas ideias e exigir melhor qualidade de vida. Apoio integralmente toda manifestação pacífica.

Você fez faculdade de direito…
Eu já era ator e já tinha o meu talento, já sabia o que eu queria. A faculdade foi uma coisa que meu pai pediu, para eu ter um diploma. Mas eu passei por ela rapidinho e retomei a minha carreira.

Passava pela sua cabeça chegar tão longe?
Não. Eu queria ser bem sucedido e não ter sucesso. Que é a mesma coisa. Eu queria ser bem sucedido naquilo que eu me propus a fazer que era divertir, emocionar e fazer refletir o meu semelhante através do teatro. Se eu fosse ficar 20 anos em cartaz com uma peça como “Trair e Coçar” ou se eu fosse fazer milhões de pessoas chorarem através da televisão numa única noite, eu não previa. Não previa a quantidade, mas eu previa a qualidade. Só que hoje eu faço isso com milhões de pessoas e isso me deixa muito feliz. Obviamente eu não tinha ideia de que isso poderia acontecer, mas eu sabia que eu queria que isso acontecesse.

O sucesso aconteceu. Pensando pelo lado da fama, você faz alguma exigência?
Nenhuma, a única exigência é que todos que estejam trabalhando comigo entendam que eu não sou ator apenas, eles tem que saber que sou ator, diretor, autor, cenógrafo, figurinista, camareiro, iluminador, varredor de palco, bilheteiro… eu faço tudo no teatro. Eu amo o teatro. Eu não piso num teatro sem antes dar um beijo na bilheteira, todas as noite, pode perguntar pra ela! Ela é a pessoa mais importante do teatro, ela é quem atende o público, ela é quem vai contar a história da peça, ela é quem vai trazer a plateia. A exigência que eu faço é que todos que estejam trabalhando comigo saibam que eu não sou apenas um ator, sou um homem de teatro.

Então você cuida de todos os detalhes?
Totalmente! Quando você estava vindo nós estávamos cuidando do negócio da bengala, você mesmo viu.

O sucesso Leleco de "Avenida Brasil"

Que tipo de música você escuta?
MPB. Amo MPB. Adoro todos os cantores, compositores e bandas brasileiras, eu sou muito brasileiro nesse sentido. E gosto de música italiana, gosto de Paulo Conte que é um cara que não é muito divulgado no Brasil, tem algumas coisas portuguesas que eu acho interessantes, mas não gosto de música americana, não gosto de rock… ouço, mas não gosto. Gosto de algumas músicas francesas também, mas essencialmente música brasileira!

Existe algum personagem que você assistiu em algum momento da sua vida e que pensou: “Putz, eu gostaria de ter feito esse papel!”?
(Certeiro) Odorico Paraguaçu, de “O Bem Amado”. Eu gostaria muito de ter feito! Aquele personagem que o Raul Cortez fez em “Terra Nostra” (Francesco Magliano). No cinema, “Perfume de Mulher”. E no teatro eu ainda posso fazer! Mas não tenho nenhum sonho…

Você deve ter passado por situações inusitadas durante seus 40 anos de carreira…
Várias! Eu errei o meu primeiro texto na minha estreia em 1973… falei que eu era o personagem que estava conversando comigo! Teve um momento bonito quando fiz “Porca Miséria”. Estávamos em um estádio no interior e apagaram as luzes da cidade, a plateia foi para as suas casas pegar velas e nós enchemos o palco com elas. Fizemos a peça a luz de velas. E momentos lindos de emoção em cena, vendo colegas trabalharem, me emocionando ao lado da Irene Ravache, me emocionando ao lado de Sadi Cabral, um ator antigo dos anos 70… (Emocionado)

Para finalizar, qual a diferença de uma estreia para o encerramento de uma temporada?
Quando estreia a peça eu não sei nada! (risos) Eu tô falando sério! Eu vou começar a aprender no fazer diário, o ensaio serve para eu ter bases sólidas de memorização do texto, entendimento do personagem, reconhecimento do cenário, mas é no dia a dia, fazendo e repetindo que eu vou melhorando o meu trabalho.

Você se diverte fazendo o que você faz?
Muito!

Essa diversão então está presente desde o início, ela fica melhor?
Ela fica melhor, mas eu sempre entro em cena pensando que eu estou brincando de teatro com 9 anos de idade na garagem da casa da minha tia em Jaboticabal e que a plateia que estava ali assistindo, meus amiguinhos com 10 anos de idade, cresceram. (emocionado) Só isso.

Essa é a sua lembrança mais antiga em relação ao teatro?
É.