Marcos Caruso: “O aplauso alimenta menos minha vaidade e mais minha responsabilidade”

(Foto: Divulgação)

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Três senhoras, donas de galerias de arte no Brasil, assistiram ao espetáculo “L’affaire Dussaert”, em Paris. Ao final da apresentação, esperaram pelo ator e dramaturgo francês Jacques Mougenot e adquiriram os direitos da peça. Pensaram em Marcos Caruso para o papel. De volta ao país, encontraram o artista casualmente em um restaurante. Em menos de um ano, “O Escândalo Philippe Dussaert” chegou ao palco do Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro. Curiosamente o espaço ideal para o espetáculo. Mais uma coincidência?

Com direção de Fernando Philbert e tradução de Marilu de Seixas Corrêa, “O Escândalo Philippe Dussaert” é o primeiro monólogo da carreira de Marcos Caruso, que atuou em mais de 35 espetáculos em mais de 40 anos de carreira. Com a naturalidade adquirida nas experiências anteriores, Caruso se apresenta com propriedade e conquista a atenção do público ao contar uma história intrigante, bem-humorada e surpreendente. A peça relata polêmicas em torno da arte contemporânea, com destaque para o escândalo envolvendo o pintor Philippe Dussaert.

Em uma visita ao Rio de Janeiro, o Setor VIP encontrou com Marcos Caruso para um bate papo que comemora os três anos da primeira entrevista exclusiva do site. O ator foi o primeiro grande artista que topou conversar com o Setor VIP. A conversa aconteceu durante a temporada paulista do espetáculo “Em Nome do Jogo”. “Não vejo você como mais um veículo. Se eu te estimulo, você também me estimula. Seu prazer estimula a minha inteligência, me estimula a ser cada vez melhor para que você sempre volte”, agradece ao relembrarmos a história.

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Você tem uma relação muito forte com o público. É a primeira vez que alguém sugere algo em sua carreira?
As pessoas que falam comigo sempre querem ver peças que passaram como “Intimidade Indecente”, “Porca Miséria”, “As Pontes de Madison” e “Operação Abafa”. Também perguntam porque nunca fiz “Trair e Coçar” como ator. Foram peças emblemáticas, né? Não perguntam porque não faço essa ou aquela peça. (pensativo) O público não tem esse conhecimento profundo da dramaturgia universal. (pensativo) Já me disseram que estou na idade para fazer o Rei Lear e que tenho o físico de Dom Quixote, mas ouço muito sobre voltar com peças, porque os espetáculos que estive sempre fizeram muito sucesso. É muito prazeroso sentir do público o gostinho de “quero mais”.

Porque não remonta os espetáculos?
Acho que o que passou, passou. Não gosto de olhar para trás no sentido da saudade, gosto de olhar para trás e ver que aquilo que fiz fez com que eu me tornasse o que sou hoje. Esses espetáculos foram me acrescentando sempre, cada vez mais técnica, mais experiência, mais sentimento, mais emoção, mais conhecimento da minha arte e quanto mais eu sei, mais eu quero saber. O que eu conheço já está em mim. Se já sei de determinadas coisas que já fiz, quero conhecer o que não sei, quero ter a possibilidade de descobrir novos caminhos.

Eventualmente, uma peça ou outra, pode até ser remontada para uma temporada curta. “Intimidade Indecente” é uma peça que tenho vontade de refazer, mas seria um mês ou dois em um grande teatro. Para grandes temporadas vamos fazer coisas novas, que acho que é mais produtivo.

As senhoras que te apresentaram o texto assistiram a peça em Paris. Você assistiu ao espetáculo ou teve algum contato com o dramaturgo?
Sim. Quando elas me entregaram o texto, me entusiasmei pelo que o texto se propõe a falar, principalmente o golpe final, que é o que mais gosto de fazer. Falei que gostaria de ir à Paris para conhecer a vida desse pintor e fui em todos os lugares onde ele esteve. Fui na Escola de Belas Artes, ao Ministério da Cultura, no lugar onde ele morreu e onde ele tentou suicídio. Fui me inteirar da vida desse homem. Tenho fotos e vídeos de todos os lugares, alguns estão na internet. Estive em todos os museus, vi todas as obras e aí falei com o autor, para saber um pouco da concepção do espetáculo e contar da nossa concepção, o que deixou ele super entusiasmado, porque ele não havia gostado de algumas produções, me parece que na Alemanha e na Rússia. Ele ficou fascinado! (empolgado) Disse inclusive que não foi apenas uma tradução do texto, foi uma tradução da ideia.

Você viajou para…
E decorei meu texto na França! Fiquei 15 dias decorando o texto! Foi muito bom!

Foi a primeira vez que você fez algo desse tipo?
Sim! A primeira vez disso e é a primeira vez que falo com o público na porta também!

Você viajou para conhecer as obras e os lugares que são falados durante o espetáculo. Você já tinha uma ligação com arte antes de “O Escândalo Philippe Dussaert”?
Com arte contemporânea não, com artes plásticas muito pouco. Tenho alguns quadros na minha casa, que são quadros até importantes, um de família e outro que adquiri. Tenho muito gosto, mas não entendo de pintura. Gosto de ver, de sentir o que se fala na peça, gosto de entender o discurso do artista, e saber até que ponto aquele discurso me toca ou não. Não sou conhecedor, nem digo profundo, não sou conhecedor. (firme) Tenho uma boa relação com a arte contemporânea no sentido do gosto em ver, vou muito a museus, mas por conta desse espetáculo me inteirei mais, tive palestras com alguns autores, palestras com artistas plásticos, li algumas coisas…

Como admirador, quais os seus artistas favoritos?
(Gustav) Klimt é um artista que acho brilhante. Sou apaixonado por (Pierre-Auguste) e adoro (Diego) Velázquez. (Vincent) Van Gogh, (Salvador) Dalí, Leonardo da Vinci… fico diante das obras desses artistas e… Michelangelo em escultura, você fica na frente de David ou da Pietà dois ou três dias se tiver comida e água do lado! (risos) Não gosto muito dos impressionistas, mas os clássicos e os expressionistas são escolas maravilhosas!

São mais de 40 anos de carreira…
43! E valeram a pena.

Você deve ter passado por grandes momentos e, de uma maneira geral, gostaria de saber quais são algumas das suas melhores lembranças?
O que me emociona é saber que sou o resultado do que aprendi com os grandes atores e diretores com os quais trabalhei. Tudo isso está nesse palco. Os atores de teatro de revista, de musicais antigos, de operetas. Minha relação com Paulo Autran, com Cleyde Yáconis, com Gianni Ratto, com Flávio Rangel. Tudo foi se somando e sou produto deles todos. Cada vez que entro no palco, agradeço a todos eles pelo fato de eu estar ali. Acho que sou um homem que tive muito sucesso em minha carreira teatral. (emocionado) Muito, muito mesmo! Fiz uma conta que em 43 anos de teatro, tive 33 anos de palco. Fiquei muito no palco! (orgulhoso) É muita coisa! Fui muito aplaudido, muito reconhecido, muito premiado, mas sou uma pulguinha, sei qual é o meu tamanho, a minha dimensão. Sou um cara que limpa o palco, que vou com o público, que estou em tudo e não tenho nenhum tipo de soberba. O teatro é mais soberano do que eu. (pausa) Aprendi que o aplauso tem que alimentar menos a minha vaidade e mais a minha responsabilidade. (sério) Agora, cumprimentando um por um, as pessoas dizem que vieram por minha causa, porque gostam do meu trabalho, porque meu trabalho tem qualidade e isso me torna muito responsável. Esse espetáculo me deixa muito mais responsável do que todos os outros que fiz, porque conversei com todas as pessoas antes de entrar em cena. (emocionado) O teatro é a minha primeira casa, não a minha segunda. Se eu perder a casa onde moro, sei que tenho o teatro para viver.

Qual é a sua principal intenção como ator?
O meu desejo é que através da minha arte, eu faça o meu semelhante sorrir, se emocionar e refletir. Não preciso conseguir as três, embora tenha conseguido todas elas. O teatro tem esse poder. Se eu conseguir uma dessas três coisas, já me sinto feliz por ter escolhido essa profissão.

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(Foto: Divulgação)

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“O Escândalo Philippe Dussaert” está em cartaz no Teatro Maison de France (Avenida Presidente Antonio Carlos, 58 – Centro) no Rio de Janeiro. Quintas (20h), sextas (20h), sábados (21h) e domingos (19h). Os ingressos custam de R$30,00 (meia) a R$70,00 (inteira) e podem ser adquiridos através do site oficial da Ingresso.com. Até 18 de dezembro. “Não devo fazer essa pergunta, mas… gostou?”, questiona. “O Escândalo Philippe Dussaert” é, como todas as produções que Marcos Caruso participa, impactante e imperdível. Estrela1 Estrela1 Estrela1 Estrela1 Estrela1