Mateus Carrieri: “Aprendi a lidar com o sucesso e com o fracasso”

(Foto: Reprodução / Internet)

Os bastidores do espetáculo “Lili Carabina” são uma bagunça. Muitos atores, técnicos e assessores passeiam de um lado para o outro organizando todos os detalhes da peça que começará em algumas horas. Mateus Carrieri busca um canto mais sossegado para conversar com o Setor VIP. O clima é de descontração, principalmente por parte do veterano. O ator se senta bem próximo, responde todas as perguntas com orgulho de sua trajetória e com a tranquilidade que os anos de trabalho lhe concederam. Mateus é o tipo de pessoa que te olha no olho e que não tira o marcante sorriso do rosto em nenhum momento do bate papo.

Com uma imensa dose de gratidão em suas palavras, o ator fala sobre a experiência de estar em “Lili Carabina”, sobre sua bagagem teatral e relembra uma série de grandes trabalhos, destacando sua passagem pela TV Tupi e pelo Centro de Pesquisa Teatral, dirigido por Antunes Filho. “Obrigado pela qualidade das suas perguntas e pelo respeito que você demonstrou por mim”, agradece ao final da entrevista. A simplicidade permeia toda a conversa e mostra que Mateus Carrieri é gente como a gente, só que um pouquinho mais especial.

(Foto: Reprodução / Internet)

Como tem sido fazer parte do elenco de “Lili Carabina”?
Estou muito feliz de estar nesse projeto. Claro que parece lugar comum falar isso, né? Ninguém vai dizer que não está, mas eu tenho vários motivos. Primeiro porque quando o Júlio Kadetti (responsável pela adaptação da obra para o teatro) pediu para que eu lesse o texto, eu adorei. É tão bom quando você lê o texto pela primeira vez e acha legal. Já li “Lili Carabina” sabendo que meu personagem seria o Renato. Acredito muito no meu feeling. Torci para que tudo desse certo e para que eu tivesse a oportunidade de fazer a peça, porque fiquei de cara apaixonado pelo texto e pelo personagem. Depois, o Júlio me chamou para fazer uma leitura na casa do Aguinaldo Silva (autor de “Lili Carabina”). Não nos conhecíamos pessoalmente, então fiquei muito feliz por ter sido aprovado. Aquela leitura era um teste. Aos poucos, em dois, três, quatro meses a peça foi tomando forma até que começamos a ensaiar e estreamos. Outro motivo é esse elenco. Esses caras são demais, a Vivi é demais, o diretor Daniel Lopes foi show de bola com a gente… e a gente se dá muito bem! Temos um grupo de whatsapp e na quarta, na quinta-feira, todo mundo começa a falar que está com saudade. E não só para fazer a peça, mas para nos vermos, para botar o assunto em dia. Formamos um grupo bem legal, bem amigo. A gente sai para jantar junto, vai para balada junto e eu nem sou de balada! Estou muito feliz por causa desses detalhes, de estar apaixonado pelo personagem, pelo texto e por esse elenco. Para mim, estar em “Lili Carabina” é um motivo de muita felicidade!

Você disse que acredita no seu feeling para a escolha de seus trabalhos. Teve algum fracasso em sua carreira?
Quando falo de feeling, não quero dizer que é um feeling para o sucesso! (risos) É um feeling de sentir se vou gostar de fazer ou não. Às vezes a gente erra, em teatro principalmente. Às vezes você está no melhor teatro, com o melhor elenco, com o melhor diretor e não dá certo. Às vezes tem uma peça que você não dá nada para ela e vira. Um exemplo é “O Amante do Meu Marido”, uma comédia que nós fizemos por dez anos quase ininterruptos. Por poucos momentos ficamos sem estar em cartaz. E era uma peça sem patrocínio, sem ninguém famoso, sem badalação e que fazia muito sucesso. Sobrevivíamos com o dinheiro da bilheteria, porque caiu no gosto popular. Era uma peça divertidíssima, mas uma comédia popular.

Como tem sido trabalhar com a Viviane Araújo?
Ótimo! Eu também nunca havia trabalhado com ela, mas a conhecia de nos encontrarmos em carnaval. Havia visto alguns trabalhos dela na televisão e tinha achado ela ótima, como todo mundo, né? Uma grata surpresa. Os trabalhos dela como atriz foram todos muito legais e desde a primeira leitura de “Lili Carabina” percebemos que a Viiane tinha a energia da personagem. Ela é parceira. É a estrela da peça, mas não tem postura de estrela. Ela é tipo brother e é a única mulher. (risos) Ela podia ficar no mundinho dela e não se misturar mas não, fica com a gente, brinca, não aproveita de uma possível regalia que uma estrela poderia ter, afinal, a peça é o nome da personagem dela, ela é a personagem principal e o maior nome do espetáculo, quem chama público, mas é super parceira. Em cena a Viviane responde muito bem, ela tem uma energia, ela tem… (pausa) A Viviane só não tem a experiência porque a gente só adquire depois que fazemos trinta peças, né? Ela é jovem, não faz teatro há muito tempo, mas gosto de vê-la em cena. Juntos temos praticamente só a cena final, porque tento encontrá-la a peça inteira, mas fico vendo da coxia e ela está dando um show, cada vez melhor. Ela é a Lili Carabina. Não imagino outra pessoa fazendo.

Sente diferença em atuar no teatro e na televisão?
As técnicas de interpretação são diferentes e a rotina é diferente mas, é tudo trabalho. No Brasil, são poucos os atores que podem escolher o que fazer, né? Então, você tem que fazer o que aparece, dentro da sua ética e das suas possibilidades. Não dá para falar que só vai fazer teatro, porque de repente aparece uma novela. A rotina do teatro, de chegar duas horas antes, de trabalhar mais no final do dia, sair do espetáculo e jantar, é muito diferente da rotina de quem grava novela, que é trabalho todo dia, às vezes de manhã muito cedo e durante o dia inteiro, tem decorar texto sempre… Agora não preciso mais decorar texto, tenho ele todo em mim. Nem fico passando. A hora que piso no palco vem tudo. Quando começo a botar a minha roupa já sei tudo que o personagem vai falar. Na novela não, você tem que estar o tempo todo presente, porque recebe o texto pouco tempo antes de cada cena. Você faz aquilo uma vez e nunca mais! (risos)

Você deixa o texto na sua cabeça durante um minuto…
E deleta! (risos) E é meio assim mesmo, a gente aprende a decorar e deletar. No teatro o texto fica.

São artes diferentes, mas ambas te dão o mesmo prazer?
Para mim, sim. Tenho feito mais teatro, faz alguns anos que não faço uma novela, mas as duas coisas me dão muito prazer!

Seu primeiro trabalho foi na TV Tupi aos sete anos. Você se lembra dessa época?
Lembro tudo!

Há alguma lembrança que guarde com mais carinho?
Foi a minha infância! (pensativo) Me lembro principalmente das pessoas com quem trabalhei. Infelizmente, muitas morreram. Fiz minha primeira novela em 1975, se chamava “Um Dia, o Amor”. Carlos Zara, diretor da novela e um dos atores, não está mais entre nós. Lembro da minha infância, brincando nos corredores do prédio que depois virou a MTV. Um dia estive na MTV e me lembrei de tudo aquilo. Foi muito louco, porque tudo parecia muito maior, né? Quando a gente é criança… (risos) “Como é pequenininho aqui!” (risos) Lembro da minha mãe me levando aos estúdios. Geralmente ela não ficava comigo, confiava em mim e me deixava bastante com as pessoas. (saudosista) Tem gente que passa a infância na fazenda ou em uma cidade diferente, a minha infância foi trabalhando.

Enxerga só coisas positivas por ter começado a trabalhar cedo?
Olha, reconheço que em alguns momentos eu possa ter perdido uma coisa ou outra da infância mas, para mim, era brincadeira. Me lembro que, às vezes, minha mãe me pegava na escola e eu queria jogar bola, mas tinha que gravar. Tudo ficava bem, porque nunca fiz nada obrigado. (ansioso) E era uma outra época, bem diferente de hoje. Não fazíamos tanto sucesso como as crianças de hoje fazem. Não ficávamos tão famosos como fica uma criança que faz “Carrossel”.

Isso permitia que você conseguisse brincar, ficar com seus amigos…
Exatamente! Imagino que as crianças que fazem sucesso hoje tem um pouco mais de restrições.

Quais suas principais lembranças de trabalhos feitos no teatro?
Tem alguns espetáculos que guardo com o maior carinho. Os três anos que passei no CPT com Antunes Filho fazendo “Nossa Cidade” foi um resgate. Havia trabalhado com o Antunes quando eu tinha oito anos, em “Ricardo III”, só que não sabia… (pausa) ele já era o Antunes, mas não era o Antunes de hoje. Eu não tinha noção do que era aquele ser, né? E 40 anos depois eu caio na mão dele de novo! Adorei trabalhar com o Antunes e a peça ganhou o prêmio APCA de Melhor Espetáculo em 2013. Guardo com muito carinho os três anos que passei no CPT. “Hair”, musical dirigido pelo Jorge Fernando; “Camila Baker”, musical que fazíamos vestidos de mulher; “O Visom Voador”; e “O Amante do Meu Marido”, que era um trabalho feito com muita raça e que as pessoas gostavam muito… eu sentia um grande prazer ao ver o público. Nunca vi plateias rirem tanto. (pausa) É tão bom ver as pessoas felizes! (emocionado) Temos relatos de casais que chegaram brigados e depois fizeram as pazes. Riram tanto um do lado do outro e depois se perguntaram porque tinham brigado! (risos)

Tem um personagem dos sonhos?
Tenho, mas já fiz. O Stanley, de “Um Bonde Chamado Desejo”, para mim é um dos personagens masculinos mais legais que existe e um dos que mais gostei de fazer.

Você já fez muita coisa durante sua carreira. Em algum momento se sentiu perdido ou tudo te acrescentou coisas positivas que fazem de você um ator melhor?
As duas coisas! (pausa) Um ator vira e mexe se sente perdido! (risos) “Nossa! E agora?” (pausa) Em alguns momentos me senti perdido, como qualquer ator. Em determinados momentos, com pouco trabalho ou com muito trabalho, sem saber o que fazer ou sem ter certeza se aquele é o caminho, mas acho que faz parte. (pausa) Sim, cada coisinha que fiz me ajuda! Até as coisas ruins, quero dizer, principalmente as coisas ruins. Elas me fizeram aprender a lidar com certas situações, lidar com o sucesso, com o fracasso, lidar com muito assédio, lidar com quando ninguém liga para você. Comigo aconteceu muito, muito! Se pegar um gráfico nunca foi assim (desenha uma linha reta no ar) sempre foi assim (brinca e assobia enquanto desenha curvas no ar), sabe? Às vezes coisas muito legais, às vezes coisas muito ruins. Às vezes pessoas muito legais, às vezes pessoas… (pausa) Engoli sapo pra caramba! Mas a gente se acostuma. Desde criança fui me acostumando e hoje sei lidar melhor com essas coisas.

E você está feliz?
Muito! Tenho uma família linda e que sobrevive da minha arte. Consigo sustentar minha família, dar tudo para eles, claro que de uma forma limitada, mas com o meu trabalho como ator, sabe? Tenho muito orgulhoso disso!

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(Foto: Reprodução / Internet)

“Lili Carabina” está em cartaz no Teatro Jaraguá (Rua Martins Fontes, 71 – Bela Vista), em São Paulo, sextas (21h30), sábados (21h) e domingos (19h). As entradas custam de R$35,00 (meia) a R$80,00 (inteira) e podem ser encontradas no site oficial do Compre Ingressos. Classificação indicativa: 14 anos. Até 26 de novembro. Estrela1

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