Mutatis: escola de atuação usa como base as experiências de Julia Carrera

(Foto: Reprodução / Internet)

Desde agosto de 2017, o auditório da Livraria Cultura do Shopping Market Place recebe as aulas da Mutatis – Escola Livre de Atuação. Idealizada por Julia Carrera, a instituição visa o desenvolvimento da comunicação, da concentração e da criatividade de crianças, jovens e adultos, por meio das principais técnicas de atuação contemporâneas. Através de jogos cênicos, textos e músicas, os alunos experimentam um pouco da arte milenar dos atores, que trabalha – além do repertório artístico – a desinibição, a socialização, a auto-estima e a conscientização do corpo.

Julia Carrera é formada em interpretação pela Casa das Artes de Laranjeiras. Hoje administradora, integrou a renomada instituição O Tablado por dez anos, e coordena a Casa Aguinaldo Silva de Artes, ambas no Rio de Janeiro. Em 2002, estagiou na conceituada companhia francesa Théâtre du Soleil, onde trabalhou com a diretora Ariane Mnouchkine, especialmente com máscaras, criação coletiva e desenvolvimento de linguagem para o cinema. Atuou como instrutora de atores nas novelas “Além do Horizonte” (2013) e “Em Família” (2014), ambas na Rede Globo.

A Mutatis – Escola Livre de Atuação é realização da RDP Cultural, dirigida pela empresária Renata Pina, e conta com a parceria da Livraria Cultura. Os cursos são voltados a todos os públicos, infantil, adultos, terceira idade, atores e não-atores e devem ganhar novos horários a partir das próximas turmas. Em conversa exclusiva com o Setor VIP, a doce e talentosa Julia Carrera conta um pouco sobre a expectativa da Mutatis, comenta a respeito da cena teatral brasileira e relembra suas experiências na escola de Aguinaldo Silva, no Tablado e no Théâtre du Soleil. Confira!

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Porque abrir uma escola de interpretação em uma cidade onde já existem tantas outras?
O desejo de abrir a Mutatis surge da vontade de estender a São Paulo um formato de trabalho que tem tido bastante aceitação no Rio de Janeiro e em outras cidades onde venho trabalhando: um curso livre com uma carga horária bastante flexível, que reúne atores experientes e iniciantes, para conhecer ou revisitar algumas técnicas do trabalho do ator contemporâneo e, principalmente, um curso que acontece em um teatro ou auditório. No meu percurso como atriz e produtora, depois, professora e diretora, percebo a diferença que faz, tanto na formação do ator quanto no desenvolvimento do principiante, a experiência de trabalhar sobre um palco, diante de uma plateia.

Pensando de uma forma mais ampla, se o teatro pós-dramático ampliou os limites físicos do espaço da experiência teatral e nos trouxe para o contexto da cena expandida, sinto que há uma necessidade de voltar o olhar para o teatro tradicional, tanto por parte do artista quanto por parte do público. Percebo uma certa necessidade de reencantamento pelo ofício do teatro e vejo esse formato de curso livre como um caminho possível, tanto para atores quanto para não-atores. A relação espacial entre o palco e a plateia ainda guarda muitos mistérios e possibilidades e, nas nossas aulas, procuro aguçar esta curiosidade.

A Renata Pina, diretora da RDP e minha sócia nessa empreitada, percebeu a carência de propostas de atividades artísticas de consistência na região do Morumbi e adjacências. Quando surgiu a ideia de iniciar o curso na cidade, propusemos a parceria com a Livraria Cultura do Shopping Market Place e ficamos muito felizes com essa acolhida, pois conseguiríamos unir nossos dois objetivos: trazer uma nova proposta de curso de atuação e desenvolver um trabalho naquela região. Para 2018, a expectativa é levarmos o curso também para outras unidades da Livraria Cultura, que já demonstraram interesse em fechar a parceria, como a do Conjunto Nacional e a do Shopping Villa-Lobos.

Em que o seu trabalho na Mutatis se diferenciará de seu trabalho na Casa Aguinaldo Silva de Artes e no Tablado, e em que momento essas experiências se encontram?
Particularmente, nesse momento me vejo envolvida em muitos projetos, que no entanto não tem tantos cruzamentos entre si. (risos) Tive a felicidade de idealizar o curso para atores da Casa Aguinaldo Silva de Artes, uma experiência incrível que me trouxe bastante amadurecimento como professora, além da chance de estabelecer uma troca intensa com um dos nossos maiores nomes da televisão e da literatura, um verdadeiro mestre. Trabalhamos juntos desde 2015 e desenvolvemos um trabalho com mais de 300 alunos. É uma experiência muito gratificante e renovadora, recebemos atores de todos os cantos do país no Rio de Janeiro.

No Tablado, atualmente faço a administração do teatro, depois de ter sido aluna por mais de dez anos, além de assistente de professores, professora e produtora de muitos espetáculos. O Tablado foi minha grande escola em todos esses aspectos. Lá aprendi a ser uma mulher de teatro: atriz, figurinista, diretora, diretora musical, cenógrafa e produtora. Sou uma “tabladiana” com muito orgulho e devo tudo à escola, à Maria Clara Machado, por quem tive o prazer de ser dirigida em meu primeiro espetáculo, e especialmente à Cacá Mourthé, diretora artística atual, por quem fui dirigida inúmeras vezes e com quem aprendo a cada dia.

A Mutatis não deixa de ser fruto dessas experiências, mas acrescento também outras vivências que tive em meus vinte anos de teatro, especialmente a minha pesquisa sobre os processos criativos do Théâtre du Soleil, a companhia francesa que existe há mais de 50 anos sob direção de Ariane Mnouchkine. A metodologia que envolve o trabalho com as máscaras, o engajamento criativo do ator na encenação, o papel fundamental da música na cena, tudo isso são contribuições que trago para a Mutatis de forma mais vertical do que em outras experiências que venho desenvolvendo. Além dessas, destaco também minha pesquisa sobre os exercícios de Sanford Meisner e Harold Guskin, duas grandes referências às quais fui apresentada por outra grande amiga e mestra, Denise Weinberg.

Imagino que você tenha tido grandes experiências no Théâtre du Soleil. Pode nos contar algumas das vivências mais impactantes?
Fiquei pouquíssimo tempo dentro de uma companhia que tem tantas décadas de existência, mas o tempo que fiquei foi absolutamente marcante e definitivo na minha vida. Diria que o Soleil me ensinou a ir além da minha experiência no Tablado. No Soleil a gente aprende a ser mais do que ator. Quando a gente chega no teatro, a gente lava as instalações do banheiro, organiza a parte de comida e depois vamos para a sala de ensaio. Quando não estamos trabalhando em cena como atores, estamos ajudando os outros atores a se preparar, montar o figurino, pensar na música… acho que a lição mais importante que aprendi é que o ator nunca está sozinho. O sucesso do trabalho do ator dá certo quando o grupo está junto, é um trabalho coletivo. O sucesso de um é o sucesso de todos e depende de todo mundo. Isso é muito reconfortante. Também aprendi que a gente tem que ser bastante exigente com o nosso trabalho, porque para alcançar o que a Mnouchkine fala sobre o verdadeiro teatro, a gente depende de bastante exigência conosco, com os outros, rigor no horário, na apresentação, no figurino… essas foram algumas das lições principais, fora toda a técnica e todo o método de criação que é absolutamente fascinante!

Sua experiência como atriz, diretora, professora e coordenadora deve ter te possibilitado conhecer grandes atores. Quais atores vocês destacaria como alguns dos diversos talentos que temos no Brasil?
De fato há atores sensacionais no Brasil, em diversas vertentes de trabalho. Naturalmente sou muito impactada pelo trabalho da Juliana Carneiro da Cunha, uma atriz franco-brasileira que transita por diversos gêneros teatrais, além da televisão e do cinema. Seu trabalho em “Lavoura Arcaica” (2001), com direção de Luiz Fernando Carvalho, é memorável! Gosto demais do trabalho da Andreia Horta, uma atriz que sempre empresta a alma aos personagens que cria. Seu trabalho em “Elis” (2016) é uma aula de atuação. Tive o prazer de contracenar com Sergio Guizé, outro ator visceral, na televisão e no teatro, e a experiência foi incrível. É muito bom quando temos um ótimo parceiro de cena, o trabalho ganha outros contornos.

Atualmente ando encantada com um jovem ator, Cauê Campos, a quem tenho o prazer de dar aulas no Rio de Janeiro. Cauê é conhecido pelo público infantil pela série e filme “D. P. A. – Detetives do Prédio Azul” (2012) e atualmente está com 15 anos. Ele reúne espontaneidade, inteligência cênica, maturidade e muita curiosidade sobre as técnicas, uma mistura muito rara. Ele e mais alguns atores da sua geração com quem venho trabalhando como Leticia Pedro, Luigi Montez, Adriano Alves, Lara Cariello, entre tantos outros, me deixam muito otimista quanto aos palcos do futuro! (risos)

E espetáculos marcantes aos quais você assistiu, consegue destacar alguns?
Recentemente assisti uma peça que está em cartaz há anos e que eu ainda não tinha tido a oportunidade de assistir que é “Luís Antônio Gabriela”, de Nelson Baskerville, e fiquei louca! A peça reúne muitas coisas que acredito: atores excelentes, dentro de um conjunto bastante harmônico, falando de uma temática essencial e com muita propriedade, com muito jogo, muito posicionamento, incluindo as técnicas de vídeo em cena, que é uma coisa que eu adoro e tem me marcado bastante. É uma pesquisa que venho fazendo nos últimos tempos. Outro espetáculo que posso citar, mas que é mais antigo, é a adaptação de “As Três Irmãs”, de Christiane Jatahy: “E se elas fossem para Moscou?”. Um espetáculo sensacional, que acontece simultaneamente no palco para uma plateia onde são captadas imagens que são editadas e montadas em tempo real para uma outra plateia que está em outra sala assistindo a versão fílmica do espetáculo. Também tem um tralho de ator excelente, irretocável. São espetáculos que andam no meu imaginário, apesar de não serem tão recentes. Como estou com um filho pequeno, as minhas saídas à noite estão ficando escassas. De espetáculos estrangeiros, posso falar do Soleil. Ainda não tive a oportunidade de ver o último espetáculo deles, que chama “Um Quarto na Índia” (“Une Chambre en Inde”), mas “Os Náufragos da Louca Esperança” (“Les Naufragés du Fol Espoir”) que veio para São Paulo e para o Rio de Janeiro em 2011 é um espetáculo que é uma grande aula de artes cênicas, digamos assim, porque também inclui o cinema na sua tessitura.

Para terminar, quais as suas expectativas com as primeiras turmas da Mutatis?
Minhas expectativas em relação às primeiras turmas da Mutatis são as melhores possíveis! Estou muito feliz de estar realizando essa parceria com a Renata Pina, que é uma grande amiga e sócia, e com a Livraria Cultura. Voltar para São Paulo, que é uma cidade que gosto muito, é um desejo muito grande que tenho há alguns anos, e poder por em prática as coisas que tenho estudado teoricamente, pensado… trazer para São Paulo um pouco dessa experiência que tenho tido no Rio de Janeiro com atores muito bacanas. Tive encontros sensacionais no Rio e, de fato, me sinto realizada em fazer esse trabalho com outros atores. É uma realização bem próxima de como quando trabalho como atriz, produzindo espetáculos que idealizo. Percebo que tenho gostado cada vez mais de trabalhar com gente! (risos)

O futuro à Deus pertence, mas nós vamos batalhar muito para que seja incrível! (risos) Estamos com muitas ideias. Em 2018 vamos expandir o curso para outras unidades da Livraria Cultura que tenham teatros para podermos trabalhar. Para mim é um prazer poder dar as aulas da Mutatis em um teatro, que seja no Market Place ou no Eva Herz. Essa ideia tem um potencial muito forte. Além disso, há outros projetos paralelos, como montagens que estou começando a dirigir e que no ano que vem devam estar vinculadas aos projetos da Mutatis. Temos projetos com convidados, um cineclube que é algo que comecei a fazer no Rio de Janeiro e foi super bacana, enfim… muitas novidades virão por aí.

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Em 2017, os cursos da Mutatis – Escola Livre de Atuação foram ministrados no auditório da Livraria Cultura do Shopping Market Place (Av. Chucri Zaidan, 902 – Morumbi) em São Paulo. A partir de fevereiro de 2018, os cursos devem se estender para as unidades do Conjunto Nacional e do Shopping Villa-Lobos. Aulas gratuitas serão ministradas a partir de janeiro de 2018 para que os interessados conheçam a metodologia da escola. Ao final de cada módulo é concedido um certificado de conclusão de curso para aqueles que tiverem o mínimo de 75% de participação. Todos os cursos da Mutatis são livres, mas as vagas são limitadas. Para mais informações, inscrições para as aulas abertas ou matrículas, acesse o site oficial da Mutatis.