Naomi Nero: “Protagonizar um filme sempre foi um grande sonho”

COLABORAÇÃO: Carol Thieri

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Aos 19 anos, o ator paulistano Naomi Nero comemora sua estreia nas salas de cinema com o bem-sucedido “Mãe Só Há Uma” (2016). A resposta positiva da crítica e do público foi imediata. No longa-metragem, Nero interpreta Pierre, um adolescente andrógino que tem sua vida roubada duas vezes: uma na maternidade e outra quando descobre ser o garoto procurado há 17 anos por sua família biológica. O personagem embarca em uma busca de autoconhecimento e identidade. Ao longo da narrativa, enquanto aprende a conviver com sua nova família, decide viver a sua maneira, se vestindo com roupas ditas femininas, usando maquiagem e tocando em uma banda de rock.

Influenciado por seus pais – a atriz Ana Nero e o cineasta Marcelo Presotto -, Naomi acirrou seu gosto pela arte ainda criança, quando começou a estudar teatro. A aptidão para o ofício corre nas veias de sua família. Sua tia Andrea Nero é produtora de cinema e seu tio Alexandre Nero é o reconhecido ator brasileiro, que acaba de ser indicado ao Emmy Awards na categoria Melhor Ator pelo personagem Romero Rômulo, de “A Regra do Jogo” (2015), da Rede Globo. A influência familiar despertou no jovem a paixão pelas artes e, principalmente, pelo cinema.

Durante a divulgação de “Mãe Só Há Uma”, Nero viajou pelo Brasil e pelo mundo. Na capital paulista, o ator participou do 11º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Fora do país, esteve em eventos como o Festival de Berlim, onde recebeu ao lado da equipe do longa-metragem, além do carinho do público, o prêmio de Melhor Filme pela Imprensa LGBT. Naomi Nero conversou com exclusividade com o Setor VIP e falou um pouco sobre a recente experiência no cinema, identidade de gênero, família e música.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Anna Muylaert, diretora de “Mãe Só Há Uma”, afirmou que você se destacou quando dançou no teste para a escolha do personagem, dizendo que você foi o ator mais espontâneo. Como foram os testes?
Os testes foram mais como uma vivência. Nem pareciam testes, e sim aulas de teatro. O diretor de elenco, René Guerra, orientava os candidatos por diversas propostas: andar pela sala trocando olhares, dançar com tecidos… e as propostas evocaram a espontaneidade dos participantes.

Como se sentiu ao ser escolhido para dar vida ao Pierre?
Quando fui escolhido me senti muito realizado, tanto que fica difícil por em palavras. Desde criança quero ser ator, e ser protagonista de um filme sempre foi um dos meus maiores sonhos.

Você tem sobrenomes de peso. Quando tomou a decisão em seguir a mesma carreira de parte da sua família?
Tenho dois sobrenomes de peso, Nero e Presotto. Meu pai, Marcelo Presotto, é cineasta e, inclusive, está produzindo seu primeiro longa-metragem, além de ser cinéfilo de carteirinha. A minha vontade de ser ator veio principalmente do meu amor por cinema. Mas também tive grande influência do lado materno, já que por minha mãe ser atriz, comecei a estudar teatro cedo, e assim, cresci muito envolvido com essa arte.

Para nós, espectadores, parece que você se sentiu extremamente à vontade durante as gravações do filme, como se fosse veterano. Como foram as gravações? Buscou dicas ou se inspirou em alguém?
Obrigado! Fico feliz que tenha passado essa impressão! Durante as gravações, os atores me ajudaram a alcançar aquilo que precisava, já que estava na presença de um elenco fantástico. Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi colaboraram com sua extensa experiência, e o Daniel Botelho com sua leveza e bom humor.

Se recorda de algum fato engraçado ou diferente que aconteceu durante as filmagens?
O filme foi cercado de coincidências, o pai do Matheus Nachtergaele por exemplo, se chama Jean Pierre. Quando fui para o Festival de Berlim, o policial federal que me ajudou a fazer meu passaporte trabalhou durante 12 anos no caso do sequestro do Pedrinho, que serviu de inspiração para o enredo do filme. Ele não sabia no que tinha dado a investigação, pois saiu do caso antes de acharem o menino, e acabou não acompanhando as notícias. Por isso, fui eu que contei a ele que haviam achado o Pedrinho e que ele foi morar com os pais biológicos.

No filme, a Dani Nefussi interpreta as duas mães do Pierre. Como era a relação de vocês? Houve alguma preparação específica entre vocês para passar a verdade necessária nas diferentes emoções e situações vividas pelo personagem?
A Dani foi, na verdade, meu maior porto seguro durante toda a filmagem. Eu estava tendo muita dificuldade de alcançar a organicidade necessária para o filme, e foi ela que durante os ensaios me deu aquele empurrão que eu precisava. Não houve nada muito especifico além dos ensaios, mas com certeza ela me orientou para um estilo de atuação que ela é craque: a atuação vivencial, onde o personagem é “incorporado”, e não interpretado.

>> Anna Muylaert aborda identidade de gênero em “Mãe Só Há Uma”

>> Sonia Braga retorna ao cinema nacional em grande estilo com “Aquarius”

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“Mãe Só Há Uma” discute, entre outros temas, sobre identidade de gênero, em um momento particularmente sensível na vida do Pierre. Qual a sua visão sobre o assunto?
A questão de gênero, apesar de não ser o tema principal do filme, é muito importante ser discutida, já que isso afeta a vida de inúmeros LGBTs todos os dias. Somos ensinados desde de que nascemos que existem apenas dois gêneros e que eles estão necessariamente relacionados com o órgão sexual da pessoa, e isso é irreal. Além de não existirem apenas dois sexos, há os intersexuais*, tudo que aprendemos sobre comportamento feminino e masculino é conceitual, e esses conceitos tem de ser destruídos e reconstruídos de forma igualitária e inclusiva. Sou Pansexual, simplesmente pelo fato de eu não acreditar no binarismo de gênero.

*Intersexual é o conceito que se refere às pessoas sem gênero definido, que nascem entre o sexo masculino e feminino. A maioria dos casos é identificado por variações anatômicas, internas ou externas, em cada indivíduo.

Como é tratado o assunto na sua casa? Foi difícil identificar os seus gostos e formar o seu caráter e personalidade?
Na minha casa meus pais sempre foram muito liberais em relação a sexualidade, sempre mostrando aceitar qualquer orientação que eu viesse a ter. A questão do gênero por outro lado veio à tona mais recentemente, quando minha irmã se revelou transexual, mas também não foi algo que demorou para ser absorvido e aceito.

O Pierre vive situações complexas, acredito que diferentes das que você viveu. Como ator, foi difícil criar um personagem com tanta complexidade? Houve algum tipo de preparação?
A complexidade da personagem foi algo que surgiu com naturalidade, o que realmente foi difícil foi criar uma base orgânica para o Pierre, para que ele pudesse se desenvolver e tomar forma de uma maneira não forçada. Para que isso acontecesse, passamos por um longo processo de interiorização e de conhecimento pessoal, e assim, a partir das minhas características, encontrar o Pierre.

Existe alguma característica ou atitude que você se identifica com o personagem?
A característica chave foi o temperamento, que mesmo sendo colérico, tanto nele quanto em mim, no Pierre é muito mais implosivo do que eu, que costumo ser mais explosivo.

Talvez seja a primeira vez que um filme representa tanto os jovens brasileiros. Como está a sua relação com o público?
Me sinto feliz de estar representando diversos jovens, que têm demonstrado muita empatia com o Pierre e como ele se coloca em relação ao mundo. Como vivemos no Brasil, que é um dos países mais violentos com a comunidade LGBT, incluindo o maior índice de assassinatos a transsexuais no mundo, é muito importante falar disso.

A trilha sonora do filme vai de MPB ao rock. No aplicativo Spotify existe uma pasta do filme com seu nome que inclui artistas como Chico Buarque, Filipe Catto e Red Hot Chili Peppers. Qual a sua relação com música? Que tipo de música você ouve?
Essas músicas são de uma lista que fiz para o Spotify com canções que gosto para a divulgação do filme. Apesar de que sinto que a trilha sonora do filme remeta a energia dessas bandas citadas, já que ela alterna entre MPB e hard rock. A música é muito importante na minha vida, não saio de casa sem meus fones de ouvido, já que ela tem o poder de abafar e acalmar essa euforia e pressa constante de São Paulo. Como já mostrei na lista, costumo ouvir mais MPB e rock, apesar de gostar de diversos estilos de música diferentes.

Toca algum instrumento ou tem vontade de aprender?
Toco violão, não maravilhosamente bem, mas toco.

Anna Muylaert tirou o filme “Mãe Só Há Uma” da corrida para o Oscar em apoio ao filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. Você concorda com o posicionamento da diretora?
Não só concordo, mas quando posso, participo dos protestos. A equipe de “Aquarius” usou um espaço de grande visibilidade para denunciar algo gravíssimo e real, e não apoiar o que eles fizeram é compactuar com o golpe de estado que o Brasil infelizmente acaba de sofrer. Com certeza seria importante se no Oscar, que é um evento de ainda mais visibilidade do que Cannes, houvesse novamente uma denúncia ao golpe.

Está satisfeito com o resultado do filme e o alcance de seu personagem?
Muito satisfeito, a repercussão está sendo ótima e muitas pessoas estão se relacionando com o filme, o que é maravilhoso!

error: