O privilégio em ouvir os poetas populares na voz de Maria Bethânia

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

Para comemorar os 70 anos do Sesc, Maria Bethânia subiu ao palco do Teatro Paulo Autran, em São Paulo, para apresentar o espetáculo “Bethânia e as Palavras”. No show que mistura música e poesia, a artista diverte e emociona o público, que há 50 anos acompanha seus projetos. “Porque será que me convidaram para comemorar os 70 anos? Eu não tenho 70, tenho 120: 50 de cantora, 70 de mulher!”, brinca orgulhosa. O espetáculo, que aconteceu nos dias 13 e 14 de setembro, tem criação e direção assinadas pela própria Bethânia, que é acompanhada pelos músicos Paulo Dafilin (violões) e Carlos César (percussão).

Nos primeiros minutos da apresentação textos como “Olho de Lince”, de Waly Salomão; “Identidade”, de Mia Couto, trechos de “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa; e “Poetas Populares”, do Padre Antonio Vieira, se alternam com as canções “Pedrinha Miudinha” (Maria Bethânia), “O Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos), “Cirandeiro” (Edu Lobo), “Trem de Ferro” (poema de Manuel Bandeira musicado por Tom Jobim), “Lamento Sertanejo” (melodia de Dominguinhos com letra de Gilberto Gil), “Último Pau de Arara” (conhecida na voz do cantor Fagner) e “ABC do Sertão” (Luiz Gonzaga). Após 12 minutos e dezenas de citações sem intervalo para sequer respirar, Bethânia é aplaudida com veemência.

De pés descalços, a cantora veste um elegante conjunto na cor vinho e segura um par de óculos. Posicionada em frente a um púlpito, Bethânia lança as folhas soltas pelos ares, que se espalham poeticamente pelo palco. “Nesta Vida, Em Que Sou Meu Sono”, de Fernando Pessoa, antecede “Na Escolinha”. “Na escola, a menina propícia a equívocos: masculino de noiva é navio”, declama antes de “A Primeira Vez da Idade”, ambos de Mia Couto. “Velha Chácara”, de Manuel Bandeira, é um dos textos que alterna a sequência de canções assinadas por Caetano Veloso, como a adaptação “Marinheiro Só”, “Jenipapo Absoluto” e “Oração Ao Tempo”.

“Esses são trechos do poema ‘Ciclo’, do meu professor ginasial de português, Nestor de Oliveira”, conta Bethânia. “Em suas aulas, além de didática, aprendi a ouvir, ler e dizer poesia. Caetano Veloso, também seu aluno, nos musicou esses versos. Isso acontecia em uma escola pública no recôncavo baiano, e falo sobre isso só para lembrar que, é possível sim, uma boa e plena educação nas escolas públicas brasileiras”, diz sob uma chuva de aplausos. “Eu, Maricotinha, aluna de escola pública, estou aqui coberta de medalhas. E uma, particularmente, muito me comove: a ‘Ordem do Desassossego’, em reconhecimento pela divulgação da obra de Fernando Pessoa”, orgulha-se antes de interpretar uma parte do belíssimo “Sonho Impossível.

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

(Foto: Filipe Vicente / Setor VIP)

“Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar, de sonhar sempre. Pois sendo mais do que uma espectadora de mim mesma, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso. E assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, invento palco, cenário, para viver o meu sonho entre luzes brandas e músicas invisíveis”, declama antes das canções “Ave Maria no Morro” (composição de Herivelto Martins e gravada por inúmeros artistas, entre eles Dalva de Oliveira e Nelson Gonçalves) e “Romaria” (Renato Teixeira), um dos momentos mais emocionantes de “Bethânia e as Palavras”. Entre os números musicais, a artista dá voz ao texto “Ladainha de Nossa Senhora de Santo Amaro”, da irmã Mabel Velloso.

“Tem vezes que gosto de ler umas coisas que me chegam porque me comovem. É um texto que eu acho lindo. Às vezes leio, às vezes não. Depois canto uma música que não tem muito a ver, mas eu gosto de fazer”, conta divertindo o público. “Estão vendo que está fora?”, diz mostrando a folha separada do livro que utiliza para não se perder durante os atos. “São palavras boas. Acho que nós precisamos, nós Brasil, de boas palavras”, finaliza emendando o texto e sendo interrompida pelos aplausos. Ao recomeçar, interrompe a si própria. “Perdão, vou ter que falar uma coisa antes de ler o texto. O Vaticano me convidou para participar de uma festa no Theatro Municipal com seu representante, intelectuais, imortais e convidados, por conta do samba-enredo da Mangueira. Olha que coisa linda!”, conta orgulhosa. “Essa mistura que o enredo traz, é a minha vida. Eles entenderam essa coisa de sincretismo religioso e me convidaram. Aí eu li e cantei uma porção de coisas de Nossa Senhora”, afirma antes de destacar que não deixou de interpretar músicas com temas do candomblé, arrancando risos da plateia. “O representante do Vaticano ficou louco com as minhas pulseiras. No camarim tirou fotos e ficou o tempo todo…”, imita os olhares curiosos que recebeu. “É lindo isso porque é baiano, é africano, é brasileiro, é da gente”, finaliza antes de “Natividade de Nossa Senhora”.

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Na última parte da apresentação que teve apenas 55 minutos, Maria Bethânia interpreta “Folia de Reis” (Roque Ferreira), antes de declamar mais um trecho de “Grande Sertão: Veredas”. “‘Diadorim, meu amor…’ como era que eu podia dizer aquilo? Como é que o amor desponta? Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe. E eu, como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? (…) Diadorim tomou conta de mim. E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes (…) Diadorim deixou de ser nome. Virou sentimento meu. Aquilo me transformava. Me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, se eu pudesse morrer, eu não me importava. (…) Amor desse, cresce primeiro, brota é depois (…) Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Amor é a gente querendo achar o que é da gente”, finalizou antes de “Estado de Poesia” (Chico César) e “De Papo Pro Ar” (gravado por Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Inezita Barroso e muitos outros).

“Sonhei Que Estava Um Dia Em Portugal” (Maria Bethânia), “Língua” (Caetano Veloso), “João Valentão” (Dorival Caymmi), “Tristeza do Jeca” (Angelino de Oliveira), “Menino do Braçanã” (Luiz Gonzaga), além de um trecho de “Água Viva”, de Clarice Lispector, são algumas das citações feitas ao final do espetáculo. “Muito obrigada! Fico muito feliz com o convite. Fiz com muita alegria. Todos nós que trabalhamos com música, teatro e dança temos muito o que agradecer a esse espaço extraordinário”, finalizou antes de interpretar “Reconvexo” (Caetano Veloso), a última canção de “Bethânia e as Palavras”.