Os excepcionais 50 anos de carreira de Maria Bethânia

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No dia 13 de fevereiro de 1965, uma desconhecida baiana subia ao palco do Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, para substituir a musa da Bossa Nova, Nara Leão (1942-1989). O show de repertório político tornou-se um dos espetáculos mais importantes da história da Música Popular Brasileira. Além das famosas canções “Cicatriz”, “Pisa na Fulô”, “Partido Alto” e “Carcará”, “Opinião” trazia João do Vale (1934-1996) e Zé Keti (1921-1999) ao lado de Nara Leão, a direção de Augusto Boal (1931-2009), a produção do Teatro de Arena e os textos de Armando Costa (1933-1984), Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). No mesmo ano, a substituta assinou contrato com a gravadora RCA (atualmente Sony BMG) e lançou o primeiro disco: Maria Bethânia.

São 50 anos de talento genuíno. Uma voz potente, capaz de arrancar lágrimas dos mais fortes e uma interpretação única, capaz de arrepiar os mais insensíveis. Maria Bethânia é a maior artista do Brasil. Não seremos injustos com grandes vozes, como Elis Regina e Gal Costa, mas o que faz de Bethânia a rainha suprema do cancioneiro nacional é a sua sensibilidade. E não só para a música: a artista vai além. Uma das mais inteligentes intérpretes da história, a baiana é conhecida pela longa pesquisa musical, teatral e de poesia para a concepção de seu ofício. Os trabalhos de Bethânia são formados por referências dos temas mais diversos: circo, crenças, religião, cancioneiro popular, festas, água, piratas, tempo, Brasil, tudo é motivo para inspirar-se a ser melhor e a modificar as pessoas a sua volta com dedicação, delicadeza e talento. Tamanha minúcia transforma seu disco e seu show em algo pontual, característico e cheio de personalidade.

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Nos 49 discos lançados – o 50° será o registro do show comemorativo “Abraçar e Agradecer” -, Maria Bethânia homenageou Roberto Carlos em “As Canções Que Você Fez Pra Mim” (1993) e em “Las Canciones Que Hiciste Para Mí” (1993), Vinicius de Moraes em “Que Falta Você Me Faz” (2005) e a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner em “Mar de Sophia” (2006). Dividiu os holofotes com Edu Lobo em “Edu e Bethânia” (1967), com Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil em “Doces Bárbaros” (1976), repetiu a parceria com o irmão em “Maria Bethânia e Caetano Veloso Ao Vivo” (1978), com a cantora cubana Omara Portuondo em “Maria Bethânia e Omara Portuondo” (2007) e com Chico Buarque em “Chico Buarque e Maria Bethânia Ao Vivo” (1975). Uma honra para ela. Maior ainda para eles.

No documentário “Maria Bethânia do Brasil” (2001), o cantor e compositor carioca Chico Buarque caracteriza Bethânia como “surpreendente e sofisticada”, além de revelar que, para ele, era um sonho ter uma de suas canções gravadas por ela. “Escrevi quatro ou cinco músicas pensando nela”, conta antes de dizer que a interpretação de “Olhos nos Olhos” o surpreendeu: “Sabia que ela cantaria bem, mas não tão bem. Ela reinterpreta. Quando canta é uma recriação”. Em 2006, no programa “Sem Censura”, Bibi Ferreira falou sobre a interpretação da artista: “É possível sentir o sorriso em suas gravações”, disse visivelmente emocionada. “Quando ela diz os poemas, ela diz com certeza, convicção e força. Bethânia é uma artista diferente de todas as que conheço, além de ser uma grande cantora e uma grande intérprete, ela é uma grande atriz e uma grande poeta”, finalizou.

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Uma das mais respeitadas cidadãs da Bahia, Dona Canô (1907-2012) disse em certo momento sobre a filha: “Ela sempre foi muito viva, contava histórias para os irmãos cantando”. A veia artística de Maria Bethânia nasceu com ela, mas não foi aprimorada de maneira fácil: “No coral do convento, não gostavam da voz dela”, contou aos risos. “É até ironia. A vida toda ela dizia que seria artista e ela é uma artista na arte de cantar!”. O reconhecimento não vem apenas por parte da família. Luciano Pavarotti, Alcione, João Gilberto, Ana Carolina, Nina Simone, Gonzaguinha, Adriana Calcanhotto, Erasmo Carlos e Ivete Sangalo fazem parte do time que, somados aos supracitados, compartilharam momentos ao lado da brasileira que já foi comparada à “Primeira Dama da Canção”, Ella Fitzgerald (1917-1996).

Dentre as mais de 40 turnês apresentadas no Brasil e no exterior, Bethânia comemorou as primeiras duas décadas de sucesso com o show “20 anos” (1985). Na turnê “Maricotinha” (2001), onde celebrou 35 anos de carreira, a artista sempre avessa à exposição e à mídia – contou histórias, interpretou alguns de seus textos favoritos e deu voz a compositores que fizeram parte de sua vida. As músicas foram escolhidas a dedo: seus maiores sucessos, do início aos da época. Algo muito parecido com o que deve ocorrer na comemoração dos 50 anos em “Abraçar e Agradecer”. São quase 50 canções, entre elas “Gita” (de Raul Seixas e Paulo Coelho, 1974), “Gostoso Demais” (de Dominguinhos e Nando Cordel, 1986), “Você Não Sabe” (de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1983), “Tatuagem” (de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973), “O Quereres” (de Caetano Veloso, 1984), “Oração de Mãe Menininha” (de Dorival Caymmi, 1972), “Brincar de Viver” (de Jon Lucien e Guilherme Arantes, 1983), “O Que é o Que é” (de Gonzaguinha, 1982), além de “Non, Je Ne Regrette Rien” (de Charles Dumont e Michael Vaucaire, 1956) e textos de Clarice Lispector, Waly Salomão e Fernando Pessoa.

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Bethânia prepara-se também para lançar o livro-DVD “Bethânia e as Palavras” e será homenageada no Prêmio da Música Brasileira, no dia 10 de junho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Quero tocar o coração das pessoas. Nasci para fazer isso”, define-se em poucas palavras. “Ciclo” (1983) é considerado por ela seu melhor álbum, mas foi “Álibi” (1978) que se tornou o marco de sua carreira: “Vendeu um milhão de cópias, a primeira mulher a fazer isso”. Das apresentações ao vivo, “Drama – 3° Ato” (1973) e “Rosa dos Ventos” (1971) são duas das mais significativas. “Adoro fazer o espetáculo, pena que um dia vai acabar. Se fosse por mim, não acabava”, confessou em 1972. Vinte e cinco anos depois declarou ter vontade de remontar o antológico “Rosa”. Todos os momentos estarão presentes na comemoração que rodará o Brasil. “Abraçar e Agradecer” teve apresentações prévias no Rio de Janeiro e chega a São Paulo em março.

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