Reynaldo Gianecchini: “Vivo o presente e só faço coisas que me dão prazer”

Foto: Karine Basílio

Foto: Karine Basílio

Difícil segurar a ansiedade ao notar a aflição de dezenas de pessoas com máquinas e celulares em punho aguardando a saída de Reynaldo Gianecchini da primeira sessão da peça “A Toca do Coelho”. Aos sábados são duas. Não poderia haver lugar mais perfeito que o belíssimo prédio da Fundação Álvares Penteado (FAAP) localizado no aconchegante bairro Higienópolis, em São Paulo, para o encontro. Com os fãs não aconteceu, pois o astro recebeu gentilmente o Setor VIP para um rápido bate-papo entre as sessões: “Gosto de falar com as pessoas e acho o maior barato quando elas vem falar do meu trabalho”. Vestindo o figurino da peça, com os cabelos grisalhos cuidadosamente desarrumados e um sorriso deslumbrante, Giane parece um garoto com a consciência de um homem: “Esses 13 anos de carreira foram de muito aprendizado para agora começar a brincar na minha profissão”, diz. Negando com a cabeça quando questionado sobre ser um dos artistas mais competentes da “nova geração”, o ator diz que as críticas da peça foram “muito legais” com ele. Extremamente bem humorado, falando baixo e sem esconder o sotaque gracioso que resiste ao tempo, Reynaldo agradece no começo da entrevista a matéria sobre a peça: “Você foi muito gentil comigo”. Não dá para ser de outra forma.

Com Maria Fernanda Cândido em "A Toca do Coelho"

Com Maria Fernanda Cândido em “A Toca do Coelho”

Em 13 anos de carreira, Reynaldo Gianecchini provou o seu talento. Desde sua criticada porém marcante estreia como Edu em “Laços de Família” (2000), o astro “matou um leão” por dia – em suas próprias palavras – atrás do aprendizado de seu ofício. E aprendeu. Depois de Tony em “Esperança” (2002), Paco em “Da Cor do Pecado” (2004) e Dante em “Sete Pecados” (2007), Giane chega ao seu 5º protagonista na Rede Globo com Cadú de “Em Família” (2014), a última novela de Manoel Carlos, autor de seu primeiro trabalho: “É o fechamento de um ciclo”. Além dos mocinhos, o moço pôde ser visto na pele do vilão Fred em “Passione” (2010) e em muitos trabalhos no cinema, em publicidade e, claro, no teatro onde foi dirigido por Zé Celso, Gerald Thomas, Marília Pêra, Alexandre Reinecke e Elias Andreato. Em “A Toca do Coelho”, Gianecchini pode se considerar o ator que o país inteiro o considera faz tempo. Ao lado de Maria Fernanda Cândido, é possível perder o ar ao acompanhar as cenas de seu personagem Paulo, diferente de tudo o que ele já fez: “É um texto muito forte que fala de perdas, solidão, separação…”. Totalmente recuperado do linfoma que fez o país torcer por sua recuperação em 2011, o ator de 41 anos, natural da cidade de Birigui, em São Paulo, fala sobre a carreira, negócios, viagens, música, amigos e muito mais.

Em "Laços de Família" com Carolina Dieckmann

Em “Laços de Família” com Carolina Dieckmann

Reestrear um espetáculo é uma resposta positiva e, assim como “Cruel”, “A Toca do Coelho” teve essa chance. Depois de algum tempo, pisar no palco com o mesmo trabalho é diferente?
Estávamos discutindo isso hoje, sabe o que acontece? Acho sempre muito legal, é impressionante como o tempo faz bem para nós entendermos mais ainda as questões do ser humano, com “Cruel” e com “A Toca do Coelho” foi assim. Voltei com outro entendimento e muito emocionado com esse texto. Mais do que antes. Impressionante como mexeu comigo fazer essa peça hoje, porque nesse tempo que ficamos sem fazer, vivemos e trouxemos tudo o que ganhamos de bagagem. Trazemos coisas novas e começamos a ver a peça de outra forma. Esse tempo nos faz pensar nas coisas da nossa vida, da vida dos personagens… Quando nos deparamos com esse texto de novo foi quase… (pensativo) Não uma outra leitura, mas uma leitura mais profunda. Gosto dessas paradinhas, acho que faz bem.

Paulo passa por situações complexas diferentes das que você vivenciou. Como ator, é difícil buscar as verdades necessárias para a interpretação de seu personagem?
Você sabe que, embora eu não seja pai, a peça não é só sobre a perda de um filho. Por exemplo, hoje fiquei tocado com a solidão. O espetáculo fala de solidão, fala de separação, do casal que está o tempo todo pensando que não vai dar mais para ficar junto, de uma família querendo se juntar de novo, se reerguer através do amor… Fala de tanta coisa que é tão comum a todo mundo, coisas da vida que não tem como você não se emocionar. A perda do filho que eu não tenho não influencia porque perda é uma coisa muito difícil, qualquer perda, qualquer separação. Quando se ama alguém então… Me ligo nessas perdas, nas minhas perdas que não são de filho, mas são outras e é a mesma coisa.

Criar um personagem que existe no cinema e que se torna automaticamente uma referência muito forte, priva da liberdade de trabalha-lo à sua maneira?
Vou te falar uma coisa, só assisti ao filme depois que já estava ensaiado e com a minha concepção. Não queria ver o trabalho de outro ator. Tenho que te dizer que acho o filme infinitamente inferior à peça. Não à nossa, à peça em geral. No filme eles não aproveitaram esse texto como ele merece. Na adaptação se perdeu muita coisa. Embora os atores estejam ótimos, acho a peça muito mais pulsante, (empolgado) foi legal de ver o filme para fazer uma comparação mas a gente não tem essa responsabilidade porque é uma outra linguagem, né? Fico muito mais orgulhoso do nosso trabalho.

O cinema permite uma série de coisas que no palco é necessário outro…
E foi um texto escrito para o teatro e todas as cenas são muito fortes. No cinema eles desmembram muito, adaptam, colocam uma coisa ou outra e acho que perde a força do texto.

Você chegou a cogitar trabalhar em um musical com a Cláudia Raia e o projeto teve que ser interrompido. Ainda tem essa vontade?
Tenho vontade. Tenho muita vontade! Tem uns malucos que me chamam (risos) mas não sou de musical e preciso me preparar para fazer. Estou sempre querendo voltar a estudar canto independente de tudo, mas é muito difícil achar tempo. (pensativo) Tempo a gente acha, mas minha vida está realmente tão corrida que estou postergando. Amo fazer aula de canto. E tem que ser alguma coisa que eu realmente goste, nem que seja uma vez. Gosto de musical porque gosto da ideia de um ator que faz tudo, sabe? Mas não são todos que gosto, tem musicais e musicais. Acho legal quando você consegue juntar o canto, a dança e a interpretação. Tem uns que vejo e gosto independente da história. Gosto muito de gente talentosa, é bonito de ver pessoas que dominam a arte. Queria explorar mais esse lado de cantar, dançar… Um dia vou fazer! (sorri)

“Em Família”, sua próxima novela, está sendo gravada. Como é fazer parte de um trabalho do Manoel Carlos novamente?
Cara, é muito louco sabia? Para mim é quase o fechamento de um ciclo. É sintomático fazer uma novela do Manoel Carlos porque comecei com ele e faz 13 anos! Durante esse tempo foi o período de entender a profissão. O (Antônio) Fagundes me falou isso uma vez e entendo e concordo com ele: um ator precisa de pelo menos 10 anos para começar a ser ator. E é verdade! Esses 10 anos, e estou colocando 3 a mais, esses 13 anos foram de muito aprendizado para agora começar a brincar na minha profissão. Então estou fechando um ciclo com o Manoel Carlos. É muito legal estar lá. Estava falando sobre isso com a Giovanna (Antonelli) ontem enquanto gravávamos. Amo minha parceira da vida. É a atriz com quem mais fiz par até hoje. Temos uma coisa muito gostosa! “Tem um déjà vu estarmos aqui, né?”, porque toda novela do Maneco tem uma onda muito dele e comecei, embora fossem outros diretores, naquele universo, daquele texto muito particular. Um texto muito difícil de fazer porque é muito simples, muito cotidiano, muito de família… Se você não for lá no seu coração, você não faz, se você ficar falando palavras, palavras, entonações você vai ficar um canastrão. Tem que ser uma coisa que você tem que se conectar com a verdade. É aquele papinho honesto que você faz na cozinha. A novela dele é isso, né? Então estou me deparando de novo com o universo dele e estou achando muito legal. Como todo mundo sabe que é a última também é quase uma homenagem. Para mim é muito legal estar lá.

Você foi muito criticado no começo e se tomar por base as críticas de “A Toca do Coelho”, por exemplo, pode concluir que o país se rendeu ao seu talento. Se sente mais seguro em sua profissão?
Acho que o ator não pode tomar por base nenhum trabalho. Nem para o bem, nem para o mal. É uma profissão difícil pra caramba, você nunca pode falar “já sei”, né? Estou buscando meu espaço e sinto que em cada trabalho tenho que matar um leão. Se você me perguntar “você é um ator seguro?” respondo que todo ator é inseguro (sério). Impressionante. Comecei a gravar a novela e pensei “será que sei fazer isso?”, dá uma insegurança mas aí você vai fazendo e é gostoso ver que depois de 13 anos você conquistou recursos na vida para, pelo menos, brincar. Que você não está mais tão desprovido de fazer no susto e que tem um pouco mais de tranquilidade para poder ousar. Estou percebendo isso e é muito legal constatar, mas nunca é fácil, cara. Toda vez que você vai para um trabalho você está se expondo e é uma exposição danada, né? Principalmente na televisão que você está fazendo para milhões de pessoas. Acho que ninguém chega super seguro. Trabalhei muito com a Fernanda Montenegro, que não há mais palavras para falar do talento dela. Ela sempre chega em cena querendo aprender com quem está ao lado, querendo passar o texto como se fosse uma iniciante no sentido da vontade que tem de fazer bem. E não passa em nenhum momento pela cabeça dela “estou segura, sou a fodona” e ela poderia ter esse tipo de pensamento, afinal, ela tem todos os recursos do mundo para fazer bem sempre, mas vai com aquela coisa de “pô, eu sei que tô dando a cara a tapa e também tenho que matar um leão”. Legal de ver isso nela.

Você trabalha muito, emenda teatro, novela, cinema e trabalhou com grandes profissionais. Tem alguém que admira e ainda não teve oportunidade de trabalhar?
Muita gente, cara! Tem muita gente. É até difícil de citar, tem muito diretor bom. Gosto de trabalhar com diretor bom. Texto bom e colegas de cena bons são muito importantes, mas diretor é onde a gente mais aprende. Por exemplo, o Dan Stulbach foi incrível. Aprendi muito com ele. Na peça anterior “Cruel” também com o Elias (Andreato). Na televisão tenho muita vontade de voltar a trabalhar com o Luiz Fernando Carvalho que foi um mestre, sem desmerecer todos com quem trabalhei. Estou trabalhando agora com o Jayme Monjardim pela primeira vez e estou adorando também. Adorei todos que trabalhei, mas tem muita gente para trabalhar ainda, desde cinema no Brasil até fora. Quem não quer trabalhar com um diretor incrível lá de fora?

Em cena no espetáculo "Cruel"

Em cena no espetáculo “Cruel”

Algum fato engraçado ou diferente aconteceu em sua carreira que te marcou?
Sempre tem, cara. Toda peça que você faz sempre tem um dia que seu colega tem um branco e você tem que ter jogo de cintura para consertar a situação. Geralmente isso dá muita vontade de rir e eu tenho o riso frouxo. (sorri) Qualquer coisa que te pega desprevenido na peça você é obrigado a se virar para o público não perceber e isso deixa o teatro muito vivo e ao mesmo tempo é muito engraçado também. O ator quando faz muita peça se conhece só pelo olhar: olhou com aquele olhinho de desespero… (sorri) Tem colegas que comentam com o olho e é muito legal. Não lembro de nenhuma situação em si. (pensa) Lembrei agora e lembrei várias (risos), mas quando eu fazia “Sua Excelência, o Candidato”, eu ria rigorosamente todo dia em cena. Vou te contar uma coisa engraçadíssima: as pessoas que faziam a peça eram muito queridas e eu dividia o camarim com o Wilson dos Santos, um ator maravilhoso, e contava todas as minhas coisas para ele. Ele virou meio que um confidente meu. Às vezes durante a peça ele soltava um caco relativo a alguma coisa que eu tinha acabado de contar para ele. Ele me pegava muito em cena usando a minha própria vida, sabe? Quase me jogava debaixo do sofá de tanto rir! (risos) Essas brincadeiras são muito legais, né?

Você é um artista muito famoso e muito querido. Teve recentemente uma prova de carinho do público muito grande. Algo na fama te incomoda?
No geral sempre acho muito legal. É muito gostoso! Gosto de falar com as pessoas. Não sou daquele que gosta de ficar recluso no castelinho e colocar uma muralha para me separar das pessoas. Eu gosto de gente. Acho o maior barato quando as pessoas vem falar do meu trabalho. O lado ruim é quando me deparo com situações que me impedem de fazer minhas coisas, sabe? Começa a ficar chato quando você vai em um lugar e as pessoas avançam… não deixam… sei lá… (pensativo) Fui curtir o “Rock in Rio”, que tava o maior barato, e não dava. Não queria ficar no camarote, queria assistir da pista, mas não dava porque as pessoas não me deixavam ver o show. Isso é chato. Acho chato quando a falta de privacidade te afeta demais e quando você vê sua vida invadida demais pela imprensa. Aí que você vê que o preço que a gente paga é muito alto. (sério) Mas no geral eu lido muito bem.

Durante o lançamento de sua biografia "Giane: Vida, Arte e Luta"

Durante o lançamento de sua biografia “Giane: Vida, Arte e Luta”

Você acabou de inaugurar o restaurante “Pomar Orgânico” no Rio de Janeiro. Desde quando tem essa ideia?
Nunca tive! Nunca tive vontade de ter negócio nenhum. Já me chamaram várias vezes e nunca quis. A Giovanna (Antonelli) estava de sócia com a chef Andrea Henrique, que é pioneira sobre essas coisas de detox, comida sem glúten, sem lactose, sem açúcar… Ela faz umas receitas incríveis, muito saudáveis e muito saborosas. Estavam precisando de mais um sócio e quando me chamaram fiquei absolutamente encantado porque essa comida é a comida que quero comer todos os dias da minha vida e não tem no Brasil. Achei muito legal oferecer isso para quem está nessa onda. Não tenho mais vontade de comer carne. Tenho testado e tem sido maravilhoso para o meu corpo. É a comida que acredito e é super saborosa. O açúcar é do coco, a farinha não tem glúten… Só entraria em um negócio que não tenho vergonha de vender porque é o que acredito. Tenho o maior orgulho de oferecer isso para as pessoas porque é uma coisa muito boa.

Que tipo de música você ouve?
Tudo! Sou super eclético e muito curioso. Tenho preguiça de ficar baixando, não sou aquelas pessoas rápidas. Quando estou no carro, coloco uma FM para ouvir o que está rolando no mundo, aquela música que de repente você não descobriria porque não compraria o CD. Ouço muita música brasileira, adoro ouvir musica brasileira de tudo quanto é tipo e gosto de experimentar coisas novas… Agora, por exemplo, estou em uma de discos velhos. (sorri) Me deu uma vontade de ouvir um disco da Gal (Costa) que foi o primeiro show que vi na minha vida, aí baixei e sinto uma sensação tão boa! Tinha 6 anos de idade e era fascinado por ela. Aquela mulher linda, aquela baiana no auge do sucesso, com aquelas músicas ótimas… Fiquei com vontade de ouvir o que fez minha adolescência. Estou nessa onda meio retrô, mas gosto de tudo. (risos)

Gosta de viajar?
Adoro viajar!

Quais seus lugares favoritos?
Tem uns lugares que eu moraria! Tenho vontade ainda de morar fora. Sou meio cigano. Morei um tempo, achei que ia ficar a vida inteira fora do Brasil e minha vida fez eu voltar pra cá e não me arrependo, foi ótimo! Mas tenho vontade ainda de tirar um ano sabático e morar em umas partes do mundo. Tem uns lugares que eu amo como Israel. O país inteiro! Caí de amores. Adoro Barcelona e adoro Los Angeles, que são cidades que tem qualidade de vida, desde comer bem e saudável até centros culturais, pessoas interessante, galera que se liga muito no que está rolando de novo no mundo… Nova York eu também adoro…

Você é um cara de cidades grandes?
Sou! Sou bicho de cidade grande! Gosto de grandes centros, mas se tiver a oportunidade de sair para a natureza… (sorri) Israel é um pouco assim. Tel Aviv é uma cidade fantástica, com gente moderna, cabeça boa e de repente tem uma praia linda logo ao lado. Gosto de lugares que consiga conciliar as duas coisas. Mas continuo achando São Paulo e Rio de Janeiro cidades maravilhosas. Antes pensava muito em morar o resto da vida fora do Brasil, hoje em dia São Paulo e Rio, com todas as nossas problemáticas, são cidades que eu realmente adoro.

Está feliz com tudo o que está acontecendo?
Tô super, cara. Depois que voltei do meu tratamento estou firme nesse intuito de ter prazer na vida e só fazer coisas que me dão prazer. Trabalhar com muito prazer, viajar, tirar férias… Estou conseguindo fazer tudo isso. Estou muito solto na vida. É o que escolhi para mim. Sou um cara soltão, sem muita amarra. Vivo o presente e um dia de cada vez. Vou deixando a vida me levar e está gostoso assim… (pensativo) Até mudar! De repente muda tudo e a vida é legal por isso, não faço planos a longo prazo, vou deixando a vida me mostrar os caminhos e aí eu faço as minhas escolhas com o que vai aparecendo e está muito bom assim. (sorri)

“A Toca do Coelho” de David Lindsay-Abaire. Com Reynaldo Gianecchini, Maria Fernanda Cândido, Selma Egrei, Simone Zucato e Felipe Hintze. Sábados às 18h e às 21h e domingo às 18h. Os ingressos custam de R$40,00 (meia-entrada) a R$100,00 (inteira).

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