Sonia Braga retorna ao cinema nacional em grande estilo com “Aquarius”

COLABORAÇÃO: Carol Thieri

(Foto: Divulgação)

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Na próxima quinta-feira (01), estreia nas salas de cinema de mais de 20 cidades brasileiras, “Aquarius”, segundo longa-metragem do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho (“O Som Ao Redor”, 2012). Com Sonia Braga no papel principal, o filme tem conquistado a atenção da crítica e do público nacional e internacional após a participação no Festival de Cannes, na França. “Aquarius” recebeu diversos troféus em algumas das mais conceituadas premiações do mundo, como Melhor Filme no Festival de Sydney, no World Cinema Amsterdam e no Transatlantyk Festival; e Melhor Atriz para Sonia Braga no Festival de Cine de Lima. O longa-metragem é uma das produções brasileiras cotadas para representar o Brasil na próxima edição do Oscar. A brasiliense Maeve Jinkings e o pernambucano Irandhir Santos, ambos de “O Som Ao Redor”, o carioca Humberto Carrão e o paraibano Fernando Teixeira, de “Baixio das Bestas” (2006), completam o diversificado elenco principal de “Aquarius”.

O filme traz Sonia Braga como a protagonista Clara, uma jornalista, escritora e crítica de música aposentada, mãe de três filhos e moradora do edifício Aquarius, no litoral de Pernambuco. É dona do único apartamento do prédio que não foi vendido para uma construtora, que deseja demolir o edifício e erguer um novo empreendimento imobiliário no local. Clara se torna um símbolo de resistência ao lidar com os constantes ataques de Diego (Carrão, em seu primeiro longa-metragem), um jovem ganancioso responsável por tentar convencer a proprietária a abrir mão das memórias marcantes que a mantém apegada ao imóvel.

(Foto: Carol Thieri / Setor VIP)

(Foto: Carol Thieri / Setor VIP)

Sonia confessa estar muito feliz, como mulher e como atriz, por ter ganhado o melhor roteiro de sua vida. “Quando recebi o roteiro fiquei muito impressionada, porque realmente foi a melhor história que recebi na minha vida. O roteiro imediatamente se juntou com a minha alma, com meu corpo e, na realidade, ele me deu voz novamente, quer dizer, todas as palavras que estavam ali eram uma voz para a cidadã Sonia Braga”, conta. Embora não tenha filhos, a atriz afirma ter unido as experiências de sua vida, com a personalidade de Clara. “Estava precisando dessas palavras, desse posicionamento, que eu já estava tendo como cidadã, mas sem uma plataforma, então com ‘Aquarius’ eu encontrei não só uma plataforma, mas um grupo de pessoas, de amigos, uma cidade impressionante com um movimento artístico, social e político incrível. Cheguei em Recife para fazer um filme e saí de lá com muitos amigos. Cresci muito. Do Recife só não fiquei com o sotaque”, brinca. O resultado é hipnotizante. Durante mais de duas horas, o espectador mantém os olhos vidrados na tela e consegue perceber a profundidade da personagem. Clara levanta questões como a liberdade sexual das mulheres mais velhas, a complexidade da família e a relação entre empregada e patroa. Sonia se considera uma atriz observadora da vida real. “A mídia ainda trata a mulher como se estivéssemos nos anos 1940. Naquela época, a mulher de 60 anos era considerada muito velhinha, mas as coisas mudaram muito, o mundo mudou, o ser humano se desenvolveu e dentro da sociedade a mulher tomou uma posição mais forte, embora a indústria não tenha acompanhado isso”, afirma.

Considerada uma grande estrela do cinema e da televisão nacional, Sonia Braga tem no currículo sucessos como as novelas “Gabriela” (1975) e “Dancin’ Days” (1978), e o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), que levou mais de 11 milhões de pessoas às salas de cinema. Nos exterior esteve nas séries “Sex and the City” (2001), “American Family” (2002), “Alias” (2005), “Brothers and Sisters” (2010) e “Marvel’s Luke Cage” (2016). No Brasil, seus últimos trabalhos foram a novela “Páginas da Vida” (2006) e as participações nas séries “As Cariocas” (2010) e “Tapas & Beijos” (2011). Sonia concorreu três vezes ao Globo de Ouro.

A produção de Kleber gera polêmicas desde a primeira participação em festivais. Elenco e equipe passaram pelo tapete vermelho, em Cannes, carregando cartazes denunciando o golpe no Brasil. Nas redes sociais, foram acusados de estarem na França de férias, financiados com dinheiro do governo. “Uma das maiores mentiras sobre o filme”, rebate Mendonça Filho. “Aquarius” é lançado no país após o impeachment da presidenta Dilma, que tem como sucessor um governo interino e conservador. “Dá muito trabalho fazer um filme onde você esterilize os problemas do Brasil. É muito mais fácil para mim fazer um filme sobre a realidade. Daqui para frente não penso em mudar, vou continuar. Se a situação piorar, vamos fazer cada vez mais filmes combativos”, afirma o diretor, que aborda como tema de seus projetos a opressão do mercado para conquistar cada vez mais negócios, passando por cima de bairros, memórias, identidades e vidas. Problema visível da sociedade brasileira.

Antes da estreia, “Aquarius” foi classificado para maiores de 18 anos. Após argumentação técnica feita pela equipe, o Ministério da Justiça voltou atrás e reduziu a indicação para maiores de 16 anos, o que para alguns pareceu um erro de avaliação e para outros soou como algo suspeito, como perseguição ao filme para que diminuísse o alcance do público. A encantadora trilha sonora contém de Roberto Carlos (“O Quintal do Vizinho”) a Queen (“Fat Bottomed Girls” e “Another One Bites the Dust”) e foi escolhida antes e durante a filmagem. Kleber conta que a música “Hoje”, de Taiguara, foi escolhida quando o filme já estava sendo rodado e encaixou perfeitamente na cena final. “Aquarius” é agradável de assistir e provoca vontade de estar dentro da sala de Clara, para apoiá-la em todas as suas decisões. Ou não. O longa-metragem vem para gerar discursos e reflexões, para mostrar situações recorrentes de uma sociedade cheia de Claras e Diegos.