Tradição e sensibilidade são reveladas no delicado “Destino: Circo”

(Foto: Julie Asdurian)

(Foto: Julie Asdurian)

Estima-se que o primeiro circo tenha surgido há mais de 2.500 anos, ou seja, muitos séculos atrás. Antes mesmo de Cristo, surgia o palhaço. Em todas as antigas civilizações há registros de alguma atividade circense. No Brasil, calcula-se que a arte tenha atravessado o oceano Atlântico por volta de 200 anos atrás. Trupes europeias trouxeram suas lonas e os ciganos se encarregaram de levá-las para diversas regiões do país. “As pessoas acham que esses circos não existem mais, a maioria delas nem sabe o que é um circo-teatro”, afirma Julie Asdurian. A fotógrafa é a principal responsável pelo registro da história dos poucos artistas que conseguem manter a tradicional arte circense viva no Brasil. Em “Destino: Circo” (2016), a paulista se une a escritora Viviane Burger e a produtora Nicole Zeghbi, que contam a experiência com exclusividade ao Setor VIP. “Minha intenção foi dar voz a essas pessoas que, às vezes, acabam esquecidas em meio ao sucesso das enormes franquias”, explica. O desejo aumentou após as experiências vividas ao lado das famílias que lutam diariamente para sobreviver em um picadeiro.

“Foi difícil criar a relação necessária com as pessoas em tão pouco tempo”, conta Asdurian. “A maior dificuldade que encontrei foi fotografá-los sem invadir a privacidade. Retratar a vida, mas com respeito e limite. Tive que aprender até onde podia chegar”. As meninas visitaram os circos Piska Piska, no Paraná; Biriba, em Santa Catarina; Tubinho, em São Paulo; Zanchettini, em Goiás; e Bellucci, Torricceli e Planet Circus, no Rio Grande do Sul. “A partir do contato com um circo, os outros foram surgindo naturalmente”, conta Nicole sobre a escolha dos locais registrados na publicação. “O mais complicado foi conseguir estar nos lugares onde os circos estariam, nas datas que poderíamos visitá-los”, completa a produtora que, apesar das experiências anteriores, considera “Destino: Circo” seu trabalho mais expressivo. “Foi a primeira vez que me envolvi criativamente em um livro e acredito que a forma com que foi feito, é a melhor maneira de um produtor trabalhar”. A ideia surgiu após a fotógrafa ter assistido ao filme “O Palhaço” (2011), dirigido e estrelado pelo ator Selton Mello. “Fiquei curiosa sobre a existência de circos tradicionais no Brasil, pois só conhecia os fixos de grandes capitais”, relata.

(Foto: Julie Asdurian)

(Foto: Julie Asdurian)

“Decidimos que um livro de fotografia com texto seria muito mais enriquecedor. A Viviane havia acabado de escrever uma biografia sobre uma atriz que havia crescido no circo, então pensamos imediatamente nela”, diz Asdurian citando o livro “No Centro da Liça – Regina Vogue” (2012), escrito por Burger. “Minhas memórias de infância se misturaram às imagens e histórias do livro, mas me lembro de prender a respiração quando assistia aos trapezistas e amava palhaços, queria que fossem morar na minha casa”, relembra a autora. “Tenho poucas memórias de circos como os que retratamos no livro. Esse foi um dos motivos que me instigaram a me aprofundar no tema”, completa Julie, que mergulhou de cabeça no projeto. “Ouvi tantas histórias, mas houve um ponto em comum que me marcou. A família é muito valorizada por essas companhias. Um cuida do outro de uma maneira extremamente protetora. Eles te recebem e te acolhem como se você fizesse parte do grupo”, destaca antes de lembrar as centenas de histórias de pessoas que fugiram com o circo após se apaixonar por um artista. “A família é valorizada de uma maneira sem igual”, conclui a fotógrafa.

“Incluímos as histórias mais sensíveis em ‘Destino: Circo’. São famílias que se mantém unidas pela arte, afeto e cuidado; a missão de levar o circo para todos os lugares; a capacidade de acreditar na vida e de improvisar para superar as dificuldades…”, enumera Viviane. “Para mim, a história da menina de 14 anos que foi obrigada a se casar e seguir com o circo porque tinha ido ao cinema com um menino circense foi a que mais marcou”, conta Nicole em relação a um dos relatos mais emocionantes da publicação. “O circo a acolheu e mais de 20 anos depois ela continua com eles”, finaliza. Após o lançamento do livro nas cidades de Curitiba e São Paulo, Julie Asdurian se prepara para expor parte da obra publicada em “Destino: Circo” na capital paulista. “Tenho várias imagens preferidas, mas o que me deixa mais orgulhosa é quando consigo reunir minha técnica e luz favoritas em uma cena especial. Sou vidrada em capturar momentos naturais”, confessa. “Fotografei a menina na lira quando ela estava distraída no quintal de casa. Saí do circo para fotografar a placa com o anúncio do espetáculo e passou um homem em um carroça. Esses acasos me fascinam”, entrega sem eleger uma preferida.

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(Foto: Julie Asdurian)

(Foto: Julie Asdurian)

“Destino: Circo” é um registro sensível de um trabalho que envolve dedicação e coragem dos artistas circenses. As imagens impressionantes assinadas por Asdurian combinam perfeitamente com o texto criativo e emocionante de Burger. A fotógrafa consegue captar com delicadeza, da serragem do trapézio às dobras das imensas lonas, da colorida maçã do amor à escuridão dos trailers onde os artistas vivem. Destaque para o projeto gráfico de Newton Cesar. As exposições de “Destino: Circo” acontecerão de 16 a 22 de maio no Piola Jardins (Alameda Lorena, 1765) e de 14 a 26 de junho no Armazém Piola (Rua Aspicuelta, 547). Os eventos serão abertos ao público e o livro será comercializado em ambos. Mais informações sobre a obra ou como adquiri-la, acesse a página oficial de “Destino: Circo” no Facebook.