Uma conversa sobre teatro e televisão com Rosi Campos e Leonardo Miggiorin

Leonardo Miggiorin e Rosi Campos em cena de "La Mamma"

Leonardo Miggiorin e Rosi Campos em cena de “La Mamma”

“Eles estão presos no trânsito”, informou ao Setor VIP a assessora do espetáculo “La Mamma” ao nos receber no escondido Teatro Nair Bello, em São Paulo. Era mais um daqueles fins de tarde caóticos por causa da chuva na capital paulista. A comédia que faz sucesso há meses, tem como protagonistas os atores Rosi Campos e Leonardo Miggiorin. Dirigida por Carlos Artur Thiré e baseada na obra “O Belo Antônio” de Vitaliano Brancati, a peça segue firme em sua trajetória: “É um espetáculo muito gostoso!”, diz Rosi – a intérprete da Mamma – enquanto se arruma para mais uma sessão em seu camarim. Rodeada de pessoas, a atriz de 59 anos fala pouco, mas deixa transparecer a simpatia e cordialidade em sua voz. Mais tranquilo, Leonardo – que também produz a peça – debate os assuntos propostos e se derrete por seu atual trabalho: “Às vezes a gente chega cansado ou chateado com alguma coisa, mas a peça te leva e a risada do público te transforma”.

Rosi Campos

Rosi Campos

Setor VIP: O que mais chama atenção em “La Mamma”?

Rosi Campos: É um texto antigo que fala dessa mãe que faz tudo pelo filho. Apesar da direção séria do Thiré, é uma comédia divertida. Não fizemos brincadeiras, mas o texto tem uma levada que faz com que todo mundo se divirta.

Leonardo Miggiorin: O fato de ser uma comédia de costumes, leve e familiar. Li a adaptação do Millôr Fernandes em 2009 e ri muito, é um texto muito bem construído e de qualidade dramatúrgica. O fato de quatro atores interpretarem oito personagens também é um trunfo do espetáculo.

Setor VIP: Como tem sido a receptividade do público?

Rosi Campos: É muito bacana poder atingir todas as idades. Além de jovens e famílias, pessoas de mais idade que assistiram peças a vida inteira vem nos ver. Costumo brincar que a hora que esse povo morrer nós estamos ferrados (risos). São velhinhas que gostam de teatro e são fiéis. Temos atingido um público de 8 a 80.

Setor VIP: E trabalhar um com o outro?

Rosi Campos: Conheci o Leonardo em “América” (2005). Eu, ele, a Deborah Secco e o Ricardo Tozzi formávamos uma turma muito bacana. Ele me falou sobre o texto há três anos e acabou dando certo somente agora. Acho ele um super empresário, ótimo ator, jovem, dinâmico, cheio de vontade, um cara que vai levando a gente, sabe?

Leonardo Miggiorin: Ela é especial demais! O camarim é muito divertido. A Rosi é um exemplo, admiro muito, aprendo muito e tenho muito respeito. É a “Mamma” (risos). É a pessoa que tem a voz mais alta aqui dentro, quem manda aqui é ela. É um prazer enorme.

Leonardo Miggiorin com Carlo Briani

Leonardo Miggiorin com Carlo Briani

Setor VIP: Apesar de comédia, a direção do Thiré foi baseada no realismo. Alguma outra curiosidade sobre o processo?

Leonardo Miggiorin: Quando ele me convidou para fazer a peça como ator, queria muito produzir enquanto não estivesse em outros trabalhos. Conversamos e ele me propôs uma sociedade, então montei “La Mamma” com minha empresa.

Rosi Campos: Ele descobriu esse texto nas coisas da vó dele (a atriz Tônia Carrero), então fizemos como se fosse uma homenagem à ela. Ele teve muito trabalho vindo do Rio de Janeiro para dirigir.

Setor VIP: Você grava a novela “Jóia Rara” (2013) no Rio de Janeiro e tem a peça em São Paulo. Também não dá trabalho?

Rosi Campos: Gravamos a novela poucos dias por semana, então é tranquilo. Se gravássemos mais seria uma loucura.

Setor VIP: Se recorda de alguma direção marcante em sua carreira?

Rosi Campos: Fiz um trabalho de dança-teatro com o Balé da Cidade chamado “Zero”, em cima do livro do Ignácio de Loyola Brandão. Fui dirigida por um alemão maravilhoso chamado Hans Kresnik. Foi um trabalho lindo e sou apaixonada por ele, mas todos os processos foram legais, cada um tem uma maneira de trabalhar, um é mais maluco, o outro é mais tradicional, mas cada um deles carrega um pedaço do teatro e tem muito a ensinar.

Débora Gomes e Rosi Campos

Débora Gomes e Rosi Campos

Setor VIP: Qual a principal diferença em relação à preparação de um personagem para a televisão e para o teatro?

Leonardo Miggiorin: Na televisão é um trabalho de criação diário. Você tem que usar sua vivência, sua experiência para cada personagem. No caso do Shaolin (“Senhora do Destino”, 2004), por exemplo, tive só duas semanas para me preparar. Comecei Kung-Fu e me joguei com muita garra. No teatro é uma outra proposta, é uma repetição.

Setor VIP: A preparação para que seu personagem seja o mais real possível depende do seu empenho ou de uma cobrança da direção?

Leonardo Miggiorin: Varia. Em geral tudo é pensado em equipe, você recebe instruções para trabalhar, mas vai muito do seu empenho. Tem que correr atrás, mas é mais fácil com apoio. De qualquer forma, seu empenho é o que garante o resultado e o resultado é o que conta. Sou muito rígido comigo mesmo.

Setor VIP: Existe uma nova safra de humoristas que faz muito sucesso no país. Acompanha o desenvolvimento do humor?

Rosi Campos: Não, porque não dá tempo. Vejo pessoas muito talentosas que escrevem, fazem os personagens, criam as próprias roupas, tem uma independência absoluta e eu acho ótimo. Criam o seu trabalho e ganham o seu dinheiro. Ganham mais dinheiro até (risos). Gosto, mas sinto que as pessoas não sabem que Shakespeare é engraçado, acham que só stand-up é.

Setor VIP: Houve um momento em sua vida de tomar a decisão de seguir a carreira artística?

Leonardo Miggiorin: Nasci em Minas Gerais, morei no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Nova York… Acho que fui cigano em outra vida (risos). Nasci onde nunca morei, me formei onde não trabalho, trabalho onde não moro (risos). Com 15 anos, quando fiz um técnico em Artes Cênicas comecei a me dedicar e entendi que existia um caminho para a televisão e para o teatro. Com 18 anos mudei para São Paulo.

Rosi Campos: Quando fazia jornalismo eu participava do Grupo Mambembe com o (diretor Carlos Alberto) Soffredini (1939 – 2001). Assim que me formei ele me convidou para continuarmos a trabalhar e eu topei. Não gostava de jornalismo, gostava de cinema, mas naquela época só existia a pornochanchada e meu pai não deixaria eu fazer. Então fui trabalhar.

Setor VIP: Então sua paixão é cinema?

Rosi Campos: Cinema é minha grande paixão. Acho bárbaro. Federico Felini (1920 – 1993), François Truffaut (1932 – 1984), caras antigos. Acho “O Anjo Exterminador” (1962) do Luis Buñuel (1900 – 1993), “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968) e “O Iluminado” (1980) do Stanley Kubrick (1928 – 1999), “Encurralado” (1971) do Steven Spielberg, filmes maravilhosos. São filmes da minha época.

Setor VIP: Você fez muitos musicais, essa é a sua paixão?

Leonardo Miggiorin: Gosto de musicais e tenho pensado muito em gêneros como produtor. Mas como ator gosto de trabalhar e de bons personagens. Se tem qualidade e é bacana independe do gênero. A minha vontade é de ser um ator versátil. Esse jogo do ator de passear por vários gêneros é fundamental. As escolhas que faço tem a ver com a minha natureza.

Leonardo Miggiorin

Leonardo Miggiorin

Setor VIP: Uma das peças mais comentadas que você participou foi “Equus”. Houve uma preocupação de sua parte ao representar um personagem completamente diferente dos seus trabalhos anteriores?

Leonardo Miggiorin: Meus personagens sempre tiveram uma dose de ingenuidade, mas “Equus” conta uma história muito bonita. Estudo psicologia há mais de uma década e foi um momento em que as minhas duas áreas de trabalho se encontraram em cena. É a psicologia com o teatro. “Equus” foi uma grande realização para mim nesse sentido. Tive uma repercussão muito positiva, foi um grande momento. Um grande momento. Foi muito especial.

Setor VIP: Foi um dos momentos mais marcantes da sua carreira?

Leonardo Miggiorin: Tudo é marcante. Quando não é bom é marcante ao quadrado (risos). Ser ator é um estilo de vida, uma profissão que modifica tudo, influencia todo o restante da minha vida.

Setor VIP: E influencia outras pessoas também…

Leonardo Miggiorin: Gosto de uma frase da Glenn Close que diz que quando se entra em cena se movimenta moléculas. Pelo simples fato de estar com alguém, na presença de alguém, você modifica a vida da pessoa. O artista influencia e é influenciado o tempo todo. Existem outras tecnologias, outras artes, outras formas de expressão, mas a necessidade do contato nunca vai morrer.

Setor VIP: Um dos seus personagens mais marcantes foi a bruxa Morgana do “Castelo Rá-Tim-Bum” que em 2015 completa 20 anos. Como foi participar de um programa responsável pela formação de jovens até hoje?

Rosi Campos: “Castelo” foi um projeto maravilhoso da TV Cultura. Foi muito premiado e todos nós nos sentimos muito felizes por termos feito parte desse projeto. São gerações que nos acompanharam. Jovens de 15, 20, 25 anos assistiram e recordam com carinho e crianças de 2 anos assistem. Essa é a resposta para quando você faz alguma coisa de qualidade. Infelizmente gravamos apenas 90 dos 180 capítulos programados.

Setor VIP: Você se incomoda em ser lembrada por um papel?

Rosi Campos: De jeito nenhum! Deus me livre! Acho ótimo! Ainda mais nesse segmento, acho maravilhoso!

Setor VIP: Faria de novo algum trabalho?

Rosi Campos: Todos os trabalhos que fiz com meu grupo Circo Grafitti. “Almanaque Brasil” (1993), “Gato Preto” (2002), “Alô, Alô, Terezinha!” (2004)… Foram trabalhos bons com pessoas queridas que trabalho há 30 anos. Ganhamos muitos prêmios.

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“La Mamma” fica em cartaz no Teatro Nair Bello até o dia 16 de março. Sextas (21h30), sábados (21h00) e domingos (19h00) de R$20,00 (meia) a R$60,00 (inteira). Os ingressos podem ser adquiridos através do site Ingresso.com.