Flavia Monteiro: “Não tem coisa melhor do que estar no palco!”

A atriz Flavia Monteiro estreou nesse fim de semana a comédia “Mãe de Dois”. Baseada no livro que conta a experiência da autora Maria Dolores, a peça fala sobre a descoberta da primeira e da segunda gravidez de uma mulher. Acompanhada da jovem Rebeca Reis, Flavia interpreta uma personagem diferente de sua situação atual, mas que deve mudar em breve: “Estou na fase de querer engravidar”, conta com seu sorriso encantador. Sorriso, aliás, que não sai de seu rosto em nenhum momento. Vestida completamente de branco e sem disfarçar sua excelente forma física, a atriz recebeu o Setor VIP no palco do Teatro Gazeta em São Paulo, minutos após a estreia.

Aos 41 anos de idade e mais de 25 de carreira, a atriz esteve em algumas das maiores novelas do país como “Vale Tudo” (1988), “Éramos Seis” (1994) e “Chiquititas” (1997), apareceu nas telas de cinema ao lado de Tônia Carrero (em “Sonho de Menina-Moça”, 1987) e Alexandre Borges (em “Gatão de Meia Idade”, 2006) e dividiu o palco com Françoise Forton em “Frisson” (2001), Ângela Vieira em “A Presença de Guedes” (2004) e Bibi Ferreira em “Às Favas Com Os Escrúpulos” (2009). Além disso interpretou textos famosos de Shakespeare à Nelson Rodrigues e foi dirigida por Irene Ravache e Jô Soares. Em “Mãe de Dois”, a artista empresta seu talento à história que tem tudo para ser uma comédia clichê, mas que se mostra criativa e emocionante.

Flavia Monteiro

Flavia Monteiro

Setor VIP: São mais de 25 anos de carreira e muitas peças no currículo. Depois de tanto tempo e experiência, como se sente em uma estreia?

Flavia Monteiro: Nunca é fácil. Estreia principalmente sempre é difícil. É um novo trabalho. A gente tem que começar do zero. É uma criação, quase um parto. É o que falei durante os agradecimentos “nasceu!”. (risos) Todo trabalho que é novo nasce, é um processo longo, intenso e de muita dedicação. É como se eu sempre estivesse na estaca zero. Independente de quanto tempo de carreira eu tenha ou de quantas peças tenha feito, sempre tenho a sensação de estar começando do início.

Setor VIP: A experiência não te dá segurança?

Flavia Monteiro: No palco a experiência te ajuda muito, né? Teatro é ao vivo e coisas podem acontecer. Você tem que estar preparada, ter o domínio e a experiência nesse sentido te ajuda, mas ao abrir o pano tem que dar aquela palpitada no coração, aquele frio na barriga, aquele nervosismo… Se não tiver isso não funciona. O legal é quando você tem aquele “Ahhhh, tenho que conquistar essa galera que está aqui sentada!”, você tem que devorar eles ou tentar devorá-los! (risos)

Setor VIP: Hoje conseguiu!

Flavia Monteiro: Amém! (risos) A gente nunca sabe qual vai ser a reação, se as pessoas vão gostar, se você está dando o tempo certo. Comédia tem um tom… (pensativa) Nunca tinha feito e comecei a fazer no teatro com “Mulheres Alteradas”. Foi minha primeira peça de comédia mesmo. Fiz “A Presença de Guedes”, do Miguel Paiva, mas era de humor, não comédia. É difícil fazer porque tem um outro tempo, diferente do drama que você precisa fazer chorar. Para mim é mais fácil fazer drama do que fazer comédia. Estou mais acostumada. Então sempre fico “Ai meu Deus, será que vou conseguir? Será que vou dar o tempo certo?”, mas vem a experiência, principalmente durante a temporada da própria peça “Ah tá, a piada funciona aqui” e você vai virando um grande maestro, regendo essa orquestra que está aqui em cima. Estreia dá um frio na barriga!

Setor VIP: Antonio Fagundes costuma dizer que é necessário ao menos 10 anos para um ator se sentir seguro e usar artifícios que aprendeu durante a carreira para brincar em cena. Você consegue se divertir?

Flavia Monteiro: Muito! Até hoje à tarde estava em crise. Normal de última semana, mas sempre acabamos conseguindo. Tive uma grande experiência no teatro com “Às Favas Com Os Escrúpulos” com Bibi Ferreira. Substituí a Bárbara Paz em turnê pelo Brasil. Dona Bibi é muito exigente e tem um time de comédia absurdo. Aprendi muito com ela, um outro estilo, mas onde comecei a entender como funciona a comédia no palco. Depois veio “Mulheres Alteradas” onde estou há três anos. “Favas” me ensinou e “Mulheres” veio para completar esse ciclo de entendimento do que é a comédia. E é a coisa mais gostosa de fazer! Não tem coisa melhor, a gente lava a alma! Você pode entrar triste no palco ou com qualquer problema, quando vê o público rindo: acabou. Saio com a energia renovada, viro outra pessoa, sabe? O palco transforma. As coisas ruins se elevam e só ficam as coisas boas. Não tem prazer melhor do que estar no palco, ainda mais em São Paulo que é uma terra que eu amo. (sorri)

Setor VIP: Como pessoa, saber que seu trabalho transforma a vida das pessoas é recompensador?

Flavia Monteiro: Não tenho palavras. É mais que recompensador. Ver uma plateia cheia, ainda mais no Teatro Gazeta… (emocionada) Tenho um carinho enorme por esse teatro, viemos fazer “Mulheres” aqui para ficar dois meses e ficamos sete! Tenho boas recordações e me sinto em casa aqui. Eu, Flavia, no Gazeta? Claro que faço! (brinca) Ainda mais um tema como gravidez, estou na fase de querer engravidar e imbuída nesse universo. Como não aceitar o papel e a possibilidade de fazer algo diferente? Estar no palco fazendo comédia e ver o povo rindo, se identificando e algumas pessoas emocionadas não tem preço. O trabalho do ator é isso: conseguir chegar na alma das pessoas e se você toca um ponto… (emocionada) Você não sabe que problemas a pessoa tem, como está a vida dela, mas consegue tirar um sorriso. É uma emoção… (pausa) Sublime!

Setor VIP: Você participou de trabalhos de diversos gêneros: “Chiquititas”, uma novela infantil de projeção nacional muito forte, “Éramos Seis”, uma novela de época, as comédias da Rede Globo “Kubanacan” e “Bang Bang”, no teatro foi de Shakespeare à Nelson Rodrigues, fez cinema…

Flavia Monteiro: É o máximo poder circular por todos esses universos!

Setor VIP: O que falta?

Flavia Monteiro: Tanta coisa! O trabalho do ator não tem fim! Sabe o que é bom? A gente consegue vivenciar outras pessoas. Claro que você coloca coisas suas, que tem um pouco de você, mas você pode ser pessoas diferentes, conseguir flutuar, voar por esse universo que é o ser humano, seus conflitos, alegrias, nóias e poder vivenciar essas pessoas, se transformar nelas. Conseguir trabalhar nisso, como profissão, ganhar para isso, para vivenciar várias vidas, pessoas que pensam de formas diferentes é muito enriquecedor.

Setor VIP: Fazer uma vilã, por exemplo…

Flavia Monteiro: Exatamente! Fazer uma vilã, uma assassina… Entender a cabeça delas… Está tudo aqui dentro da gente, você pode ser tudo, eu posso ser tudo e o ator pode também! Brincar com isso e mostrar para todo mundo, ser a representação disso é muito bom!

Setor VIP: Você é uma artista muito bem sucedida…

Flavia Monteiro: Obrigada!

Setor VIP: Sente-se realizada?

Flavia Monteiro: Muito! Me sinto muito sortuda, muito abençoada em todos os sentidos. Sempre trabalho com pessoas maravilhosas! Acabo caindo ou atraindo… Posso chamar de atração, depende do que você acredita. Sempre atraí gente como eu, que fala a mesma língua, que é do bem, que é entregue, que quer que a coisa funcione, que é da parceria, da união. Tem dificuldades? Tem. É difícil? É. O mais difícil da carreira do ator é envelhecer nela. Você pode permanecer por um tempo, mas envelhecer atuando como a Fernanda Montenegro aos 80 anos, como a Bibi aos 90 é o mais difícil, já que é uma profissão que lida muito com o biotipo, com o ego, com a cara, com a beleza, então só ficam os bons.

Setor VIP: Você trabalhou com a Tônia Carrero no cinema, que é uma atriz que tem problemas com o envelhecer…

Flavia Monteiro: Acho que as mulheres que foram exemplos de beleza tem problema em envelhecer.

Setor VIP: Isso não deve passar pela sua cabeça agora, afinal, tem a aparência de uma garota de 20 anos. Acha que terá problemas com isso no futuro?

Flavia Monteiro: Não, não, como falo na peça “Meu filho tem trabalhado bem meu ego e minha auto estima”. (risos) Acho que sou menina por erro, sou muito molecona, não sou de ir ao salão, não tenho botox, nada disso. Não tenho essa ligação com a vaidade.

Foto: Cíntia Duarte

Foto: Cíntia Duarte

A peça “Mãe de Dois” está em cartaz no Teatro Gazeta (Av. Paulista, 900 – Cerqueira César – São Paulo) às sextas (22h45), sábados (20h) e domingos (20h). Os ingressos vão de R$25,00 (meia) a R$60,00 (inteira) e podem ser encontrados no site oficial do teatro. Até dia 6 de abril.