Luana Piovani: “Quero fazer teatro infantil pelo resto dos meus dias”

“É a minha primeira peça. Escrita com a Adriana Falcão, dirigida pelo Gabriel Vilela e protagonizada por Luana Piovani na maior cidade da América Latina. Isso dá um filme!”, brinca emocionado Luiz Estellita Lins, um dos autores do espetáculo “Mania de Explicação”. “Quando me convidaram para escrever falei que a pergunta era desonesta pois só havia uma resposta!”, conta no hall do Teatro Frei Caneca, em São Paulo.

O encontro com o autor antecedeu o bate-papo com a estrela do espetáculo infantil e aconteceu após a pré-estreia da capital paulista: “Tinha medo que as crianças quisessem ir embora, mas até as que saem para fazer xixi fazem rápido!”, diz bem-humorado. “O que mais me toca nessa experiência é a qualidade com que tudo tem sido feito”, finaliza Lins.

No programa da peça, Adriana resume “Mania de Explicação” como uma mágica. E ela só é possível pela competência de todos os profissionais envolvidos. O talentoso diretor não poupa elogios: “O prazer maior em fazer ‘Mania de Explicação’ foi reencontrar Luana Piovani em parceria com o brilhante livro de Adriana Falcão. Duas grandes artistas. Uma experiência linda e inexplicável”.

“Eu quero um cachorro-quente. Estou morrendo de fome! Ainda tem?”, questiona Luana para um de seus assistentes. “Cuidado para não machucar o coleguinha! A mamãe vai tirar a máscara e depois vamos embora, tá?”, diz para o filho Dom. “Ele chama a maquiagem de máscara!”. A atriz mostra-se incansável: “Estou gravando de segunda à sexta. Peguei o vôo do Rio de Janeiro para São Paulo e, claro, atrasou!”, conta. Emocionada, a artista agradece um por um dos profissionais que fazem parte do espetáculo e horas depois lembra que esqueceu um dos nomes: “Precisamos mandar flores para ele!”. E, na peça, ela ainda canta!

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Engana-se quem pensa que a atriz é atenciosa apenas com quem trabalha diretamente. Com o filho no colo, vestindo o figurino e pintada como sua personagem, Luana Piovani recebeu o Setor VIP em um encontro exclusivo após apresentar seu mais novo espetáculo infantil. “Vamos sentar?”, perguntou exausta, mas sem demonstrar pressa ou impaciência. Mesmo três horas depois de encerrar “Mania de Explicação” e atender amigos e admiradores – um por um – tirando fotos, fazendo selfies, distribuindo beijos e abraços, conversando e brincando com cada criança, a paulista de 37 anos foi extremamente gentil: “É isso que quero fazer pelo resto dos meus dias”.

“Mania de Explicação” é, dos espetáculos produzidos por Piovani, o mais bem feito. E não entenda mal: todos foram excelentes. Mas a atriz tem conseguido superar-se em cada um deles: “É uma peça para toda a família. Tem a ludicidade, o colorido e a musicalidade que encantam a criança, mas tem um texto profundo e doce que toca o coração do adulto”, conta orgulhosa. “Além da trilha sonora ser do Raul Seixas, né? É uma honra apresentar para as crianças o nosso poeta mais rock’n’roll“, anima-se. Adaptada do livro de Adriana Falcão, “Mania de Explicação” deve entrar para a história do teatro infantil: “É o relato de uma menina, Isabel, que cada vez que faz uma pergunta, acha que as pessoas mais complicam que explicam”.

“Inspirei-me nas minhas experiências e agora tenho um filho de quem posso copiar a boquinha de dúvida”, conta sobre o processo de criação da personagem que vai dos 12 aos 13 anos na peça. “Vamos incentivar tudo. O que ele quiser fazer, ele vai fazer”, confessa sobre a educação do filho de 2 anos. “Às vezes ele fala que vai trabalhar no teatro com a mamãe, às vezes ele fala que vai trabalhar na praia com o papai”.

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Setor VIP: Que energia, hein?
Luana Piovani: Uau! (suspira)

De onde você tira essa força?
Não sei, acho que é da felicidade que o que escolhi para fazer na vida me traz.

Você passa isso com muita verdade, é muito bonito de ver…
Que bom. Fico feliz! (sorri)

Você tem lembranças marcantes de algum espetáculo teatral que tenha visto na infância?
Sabe o que acontece? Até os 12 anos morei em uma cidade no interior de São Paulo (Jaboticabal) que não oferecia nada para as crianças, que não a vida incrível de uma criança que pode morar no interior. Mas não tinha cinema, não tinha teatro, não tinha nada. A vida da gente era brincar na rua, de pega-pega, fazer balanço em árvore, de esconde-esconde, fazer rampa com bicicleta e pular. Talvez por isso eu tenha tanta vontade de produzir teatro, porque não tive na minha infância e acho super importante. Isso talvez tenha sido até incentivador.

Independente do trabalho que faz, você sempre coloca o teatro infantil em algum momento da sua carreira. Quando decidiu que esse segmento seria um dos focos?
Eu tinha 22 anos na primeira produção que fiz, foi “A.M.I.G.A.S. (Associação das Mulheres Interessadas em Gargalhadas, Amor e Sexo)” (1999). Depois que produzi essa peça, que eu entendi qual era o caminho das pedras, sabia que minhas próximas produções seriam infantis. Foi quando vi que eu era capaz de produzir teatro. Acredito que pra gente querer estar em um lugar melhor, temos que dar oportunidade da criança crescer com decência e dignidade, para poderem ser cidadãos detentores de direitos, mas também cumpridores de seus deveres. Teatro é muito mais que entretenimento, é cultura, é sociedade, é o retrato de um país. A criança que vai ao teatro ela não só se diverte e se entretém, ela se identifica, cria curiosidade, ela tem a sua imaginação e criatividade incentivada e vai ter vontade de ler mais livros, vai ter vontade de ir mais ao teatro e não vai ter preguiça das tragédias de Shakespeare ou de peças longas. A criança vai entender que teatro é mais que só entretenimento.

A parte social está sempre presente em suas peças. Você tem falado da lata de leite em pó…
…das libras!

E existem dois personagens em “Mania de Explicação”, o Vento e a Laurinda, que são diferentes do esteriótipo que as crianças aprendem na escola…
Diferente do que estão acostumadas, digamos assim.

Isso foi pensado previamente ou aconteceu sem querer?
Gabriel Vilela. Isso tudo é Gabriel Vilela e eu sempre delirando e amando as ideias dele. O Vento é texto da Adriana Falcão e do Luiz Estellita, mas o Gabriel deu a direção para ele fazer um gay. E a Laurinda é ideia do Gabriel, de usar um homem fazendo a minha babá, que é a grande apresentadora da peça.

Pergunto porque a ideia da inserção de personagens gays em uma peça infantil é muito boa…
É ótima e é necessária! A gente tem que simplificar. A gente tem que dar bonecas para meninos, bonecas japonesas e pretas para meninas, tem que mexer esse doce, tem que misturar isso aí! (empolgada) Se não como é que vai ser? O mundo já é esse!

Você atinge crianças muito pequenas que estão em formação, que não tem preconceito…
Sabe, a gente atende as crianças e um dia, quando eu fazia “O Pequeno Príncipe” (2006), algumas chegavam para mim e perguntavam “você é menina ou menino?” e eu respondia “sou um príncipe”. Um dia eu tive essa conversa com o Pablo Ascoli, ator que fazia o Vento na época, sobre o que ele diria se alguém perguntasse “o que você é?”. “Fala ‘eu sou gay!'”. “Nossa! Com o teu aval?”, ele perguntou. Claro! Isso não pode ser um choque e nem um susto! É o mesmo que dizer que você é alemão, homem, mulher ou loiro. É normal. Essas pessoas existem e elas merecem que todo mundo saiba. Diga “eu sou gay, eu sou fresco” na maior dignidade, porque se você fala meio receoso a criança pega. Se você fala numa boa, ela recebe da mesma maneira. Vai ser uma coisa absolutamente normal. Talvez ela veja uma pessoa na rua e ela diga “mamãe, é igual o moço da peça” e vai ter uma identificação boa, vai reconhecer um amigo porque ela tirou uma foto com o Vento, sabe? E assim a gente vai simplificando a vida. (sorri)

O cenário (Mais Cenografia), a iluminação (Paulo César Medeiros) e o figurino (Gabriel Vilela) são impecáveis!
Fico muito feliz em ouvir isso!

Você cuida desses detalhes pessoalmente ou deixa na mão de alguém?
Cuido de tudo! Eu não crio, mas tudo passa pela minha aprovação.

E consegue acompanhar a cena teatral, saber o que acontece de novidade, trocar figurinhas principalmente sobre as possibilidades sociais?
Não, não. (pensativa) Quem faz teatro não vai ao teatro. Grande parte dos meus amigos vem dos palcos, mas você sabe que a vida está tão corrida que estou carente deles, não tenho conseguido… (chateada) A gente acaba ficando distante uns dos outros. Mas é um bom incentivo, é uma coisa que vale a pena lembrar quando encontrá-los. E me arrependo muito de não ter feito esse trabalho nas minhas outras peças, chega a me dar culpa. Só fui ter essa ideia porque fui chamada para fazer um trabalho social para ler uma história para crianças de uma comunidade. Quando cheguei tinha uma moça que era tradutora de libras e pensei “preciso ter isso na minha peça!”. Peguei o cartão dela e nós não estávamos nem ensaiando ainda! Quando começamos a ensaiar, contratamos a Simone (Modesto), mesma intérprete que fez esse trabalho social comigo. Quando vim para São Paulo falei com a produção que queria também e jamais farei uma peça sem libras! Mas me arrependo muito das que não tive a ideia. Infelizmente.

Mas você está fazendo sua parte.
Claro! Eu estou na quarta e serão quinze ainda! (sorri) Se Deus quiser!

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Antes de terminar, Luana faz um convite aos leitores do Setor VIP:

“Oi pessoal, quero convidar vocês para assistirem a peça ‘Mania de Explicação’. Sábados e domingos às 16 horas no Teatro Frei Caneca. Se você trouxer uma lata de leite em pó, paga meia entrada e todos os domingos a peça é apresentada em libras. Espalhem a notícia! Um beijo!”.

“Mania de Explicação” conta com os excelentes Felipe Brum, Luiz Araújo, Letícia Medella, Diogo Almeida e Nábia Vilela no elenco. Os ingressos podem ser encontrados no Ingresso Rápido e custam de R$35,00 a R$70,00. Não perca!