Nathalia Timberg encara Samuel Beckett aos 84 anos

Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo

Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo

Você nunca sabe o que vai encontrar quando decide optar por assistir a um dos espetáculos do Centro Cultural Banco do Brasil. Seja em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte ou em Brasília, a diversidade dos eventos da marca é seu ponto forte. Em quase 25 anos, mais de 15 mil projetos foram vistos por 60 milhões de pessoas.

Não seria diferente com a peça “Tríptico Samuel Beckett”, que fez sua estreia essa semana no espaço paulista. Com os ingressos esgotados há semanas e uma forte expectativa, o texto é uma livre adaptação dos trabalhos finais do famoso dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989): “Para o Pior Avante”, “Companhia” e “Mal Visto, Mal Dito”. Principal chamariz do espetáculo, a veterana Nathalia Timberg divide o palco com Juliana Galdino e Paula Spinelli.

Paula Spinelli, Nathalia Timberg, Juliana Galdino e Roberto Alvim

Paula Spinelli, Nathalia Timberg, Juliana Galdino e Roberto Alvim

Na história, as três atrizes vivem a mesma mulher em fases distintas – na infância, na vida adulta e na velhice – e permanecem no palco o tempo inteiro. A tentativa de sintetizar os textos de Beckett em um ponto de convergência não deu certo. Confusa, a adaptação que deveria expor a vivência da personagem do nascimento à morte, tem como maior defeito a falta de ritmo que – apesar da exata uma hora de duração – faz parecê-la uma eternidade. O texto de difícil compreensão soma-se à lista de adjetivos negativos que descrevem com perfeição “Tríptico”. Tudo é de extremo mau gosto: o figurino “criado” por Galdino é composto de roupas de ginástica, a iluminação – que pode ser modificada de forma irritante caso alguém na plateia se mova um centímetro para qualquer um dos lados – e o cenário sem sentido e absolutamente inútil foram criados por Roberto Alvim. É dele também a direção, tradução e adaptação do espetáculo. Alvim não é um novato. Suas peças foram encenadas na França, na Suíça e na Argentina, além do Brasil, claro. Concorreu (e venceu!) a diversos prêmios, incluindo o famoso Shell. A tentativa de fazer algo diferente é sempre válida. Ainda mais quando se trata de algo que entrará em cartaz na vasta programação cultural da cidade de São Paulo, mas “Tríptico Samuel Beckett” está longe, muito longe de ser uma peça boa. Nem a presença da gloriosa Nathalia Timberg salva o espetáculo.

Nathalia Timberg

Nathalia Timberg

A ESTRELA

Aos 84 anos e mais de 60 de carreira, Timberg é uma das maiores atrizes do país. Se você nunca teve a oportunidade de vê-la em cena, cuidado para não se decepcionar: esse pode não ser o momento certo. A atriz de “O Direito de Nascer” (1964), “A Sucessora” (1976), “Vale Tudo” (1988), “Éramos Seis” (1994), “Páginas da Vida” (2006) e “Amor à Vida” (2013) mostra-se completamente diferente. Se você acompanhou alguma de suas bem-sucedidas peças como “Senhora dos Afogados” (1954), “O Jardim das Cerejeiras” (1989), “Conduzindo Miss Daisy” (2001) ou “A Importância de ser Fiel” (2003) esqueça aquela imagem. Como atriz, é necessário saber se reinventar e ela sabe, apesar do papel não ajudá-la. É praticamente impossível entender o cansativo e arrastado discurso de sua personagem, o que torna a experiência de conferir sua performance ao vivo bem menos interessante.

O elenco de "Tríptico Samuel Beckett"

O elenco de “Tríptico Samuel Beckett”

Apesar das interpretações de Galdino e Spinelli serem insuportáveis, a melhor parte da peça é quando a personagem de Nathalia morre e o espetáculo termina. Assim, finalmente, temos a certeza de que não ouviremos mais nenhuma palavra dessa terrível adaptação na voz de nenhuma das três.

“Tríptico Samuel Beckett” está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo. Sábados e segundas às 20h e domingos às 19h. De R$5,00 (meia) à R$10,00 (inteira). A peça não é recomendada para menores de 16 anos. Nós não recomendamos à ninguém. Até 14 de abril.