Nos bastidores de “Azul Resplendor” com Dalton Vigh

Dirigido por Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas, o espetáculo “Azul Resplendor” estreou no Teatro Renaissance, em São Paulo, no dia 20 de julho. Escrita pelo peruano Eduardo Adrianzén, a peça mostra os bastidores de uma criação teatral que serve como pano de fundo para a história central: o fim da vida de uma mulher “entre 70 e 80 anos”. No elenco, as estrelas Eva Wilma, Pedro Paulo Rangel e Dalton Vigh dividem o palco com os experientes Felipe Guerra, Luciana Castro e Luciana Borghi.

No camarim após "Azul Resplendor"

No camarim após “Azul Resplendor”

Após o espetáculo, diretores e elenco receberam o Setor VIP para um rápido bate-papo e com exclusividade você confere abaixo a descontraída conversa com o ator Dalton Vigh. Na peça, Dalton dá vida ao respeitado diretor Antônio Balaguer que com seu estilo inovador provoca engraçadas situações ao receber uma proposta irrecusável. O artista, que já participou de 14 novelas, além de seriados e minisséries, abriu seu camarim e revelou parte de sua vida e desejos. “Você não se incomoda que eu converse enquanto tiro a maquiagem?”, perguntou antes de começarmos: “Esqueci, normalmente tiro antes do banho…”. Confira a entrevista na íntegra.

Setor VIP: Balaguer é um diretor conceituado e mandão, você e seu personagem tem algo em comum? Fale um pouco sobre a peça.

Dalton Vigh: Até sou um pouco mandão (risos). É brincadeira! O Balaguer é um personagem maravilhoso! Estamos trabalhando com clichês, essa peça não fala sobre o mundo do teatro. O mundo do teatro é um pano de fundo para falar do final da vida. O título da peça “Azul Resplendor” se refere à cor da chama do fósforo antes de apagar. O esteriótipo do galã, da diva, do diretor serve apenas para ilustrar um pouco da história.

Setor VIP: Como tem sido essa experiência para você?

Dalton Vigh: Adoro fazer esse personagem. Ele vive no imaginário das pessoas que não trabalham em teatro. Todo mundo o identifica com alguém: “Ah, você está fazendo o personagem baseando-se em fulano de tal?”. Respondo: “Não, não, não, é todo mundo junto!”. E o engraçado é saber que em outros países também tem diretores como esses que a gente associa aqui do Brasil. No mundo inteiro tem Antônio Balaguer!

Setor VIP: E trabalhar com pessoas como Eva Wilma e Pedro Paulo Rangel?

Dalton Vigh: É muito importante. É a escola depois da escola. Depois que terminamos a escola de teatro, nossa escola é o exercício, é você poder entrar em contato com essas pessoas, que estão na carreira há muito tempo, que tem muito a ensinar nas mínimas coisas. Às vezes não é um ensinamento do tipo “faça assim, faça assado”. Basta você observar a pessoa trabalhando, ensaiando, o processo dela. Quando o Renato me chamou para fazer a peça e disse que era com a Eva e com o Pepê, quase topei sem ter lido o texto! Admiro o trabalho dos dois há muito tempo. Já contei que eu era apaixonado pela Eva Wilma quando tinha nove anos e ela fazia “Mulheres de Areia” (1973). Apaixonado pela Ruth, a boazinha, claro. Dividir o palco, de igual para igual, com ela, é uma afirmação da vida: “Olha, você realmente está no caminho certo”. Parece que há uma conspiração dos deuses… (emocionado)

Setor VIP: Você se formou em Publicidade e um dia decidiu não seguir a carreira. Como você tomou essa decisão?

Dalton Vigh: Foi uma série de fatores. No meio da faculdade, já estava em crise existencial. Comecei a perceber que não era aquilo que eu queria, que não estava feliz. Saí da faculdade, tentava arrumar emprego e não conseguia. Então, consegui um “pré-estágio” em uma agência que chamava as pessoas que deixavam o currículo e faziam uma pré seleção. Eles juntavam um grupo e distribuíam as campanhas. Os melhores de cada área entravam para fazer o estágio. O mais engraçado é que por conta de uma conversa num bar, depois de um dia de expediente, fui limado porque emiti minhas opiniões e o diretor de criação foi contrário. Nesse período meu padrasto faleceu. Eu, desempregado, e minha mãe aposentada. Sempre olhava a profissão com olhos meio desconfiados. Primeiro porque não tinha nenhum conhecimento na área, segundo porque o acesso para televisão e teatro era muito mais difícil. Enfim, fiquei com essa coisa na cabeça de encontrar uma profissão que me desse prazer, além do dinheiro, mas pensava: “vou ter que tomar conta da minha mãe, da minha vó, da minha irmã”, que era pequena ainda. Então, precisava encontrar alguma coisa que me satisfizesse para que eu conseguisse desempenhar bem. Foi quando pensei: “Quem não tem nada, não tem nada a perder”. Fui fazer escola de teatro e a coisa começou a acontecer. Enquanto estudava comecei a fazer comercial e antes de acabar o Célia Helena – eu acabei não me formando – fui chamado para fazer uma peça (“Ressuscita-me”) e fizemos durante um ano. Na sequência, fui para a TV Manchete, fazer uma novela (“Tocaia Grande”).

Setor VIP: Sua estreia foi em 94?

Dalton Vigh: Isso, em 1994. Sempre tive vontade de ser ator, desde criança. Todas as minhas brincadeiras eram interpretando personagens como os de “Jornada nas Estrelas” ou “Batman”. E eu meio que dirigia as brincadeiras. Falava: “Não, agora você faz assim, agora você faz assado…”

Setor VIP: Como seu personagem na peça?

Dalton Vigh: (Risos) Mas não tão tirano! É até engraçado porque brincávamos e eu sempre era o capitão Kirk. Um amigo meu era sempre o Spok. Um dia, ele se rebelou e disse: “Vamos mudar esse negócio? Você sempre é o capitão Kirk…”. Mudamos e a brincadeira não fluía. Em dez minutos voltamos ao que era antes. A coisa foi indo…

Setor VIP: Sua carreira é muito bem-sucedida e apesar do relativo pouco tempo você já trabalhou com grandes estrelas do nosso país. Falta alguém?

Dalton Vigh: Fernandona, né? (Fernanda Montenegro). Acho que todo mundo no Brasil quer trabalhar com ela. Queria muito ter trabalhado com Paulo Autran. Tem muita gente… o Lima Duarte, por exemplo. Consegui trabalhar com o (Antônio) Fagundes e com o Sérgio Britto tive a felicidade de trabalhar, infelizmente não no teatro. Fizemos uma novela na Record juntos… mas a Fernandona está em primeiro lugar. É um ícone, uma referência para todo mundo no Brasil.